
“Bela, recatada e do lar.” — O rótulo que cai sobre todas as mulheres… Ou quase todas.
Na última semana a Revista VEJA em mais uma matéria absurdamente machista falou sobre Marcela Temer, esposa do atual vice-presidente do Brasil, no título da matéria utilizou os adjetivos “Bela, recatada e do lar” para se referir a mulher que segundo a revista seria uma mulher bonita, admirada pela sua sutileza e educação, que usava vestidos sempre abaixo do joelho, uma mulher de sorte. Como nós mulheres não poderíamos deixar passar barato mais esse ataque, logo surgiu uma campanha nas redes sociais onde diversas mulheres compartilhavam imagens em situações do dia a dia, por exemplo bebendo uma cerveja no bar ou dançando com amigas em uma festa, coisas que aparentemente não entram no estereótipo dado como “correto” para mulheres. Eu mesma participei e achei lindo e divertido ver tantas amigas postando imagens em momentos de descontração, sensuais ou típicos de seus dias com os dizeres “Bela, recatada e do lar”. O legal dessa campanha foi mostrar que, tudo bem você ser bela, recatada e do lar desde que isso seja sua vontade e você o faça exclusivamente porque deseja e que, as mulheres que optam por não estarem nesse estereótipo tem seu valor também.
Mas, enquanto via aquela chuva de imagens e tantas mulheres jogando no lixo o estereótipo para o qual foram criadas para caber, o de serem recatadas, serem sempre bonitas e moças do lar… Comecei a questionar qual o “padrão” que nós, mulheres negras fomos criadas para caber em nossa sociedade, será que a sociedade também espera que sejamos igualmente “recatadas” e “do lar”? Ou isso é algo que só recai sobre mulheres brancas? Bom, a pergunta não é muito difícil de responder.
Mulheres negras e o rótulo invertido.
Eu também rejeito o rótulo de recatada e do lar, mas sendo sincera não sei dizer quantas vezes ele caiu sobre mim ou sobre demais mulheres negras. O que nos ocorre é que, os padrões de beleza construídos socialmente foram feitos em moldes brancos, logo a característica de “bela” quase nunca coube a nós mulheres negras. Recatada então… Nem se fala! Recato e sutileza é uma característica histórica que sempre coube a mulheres brancas, afinal existe quase que um senso comum que mulheres negras são mulheres fogosas, mulheres que servem para sexo e não para casar, são as ditas mulheres fáceis e o normal de uma mulher negra não era o recato e obviamente também, não era o lar. Já que como corpos escravizados ocupávamos as ruas e lugares baixos da sociedade e que posteriormente, seguimos ocupando na tentativa de sobreviver e se sustentar, o lar nunca foi o local esperado para uma mulher negra estar.

Durante a era vitoriana, foi construída uma imagem de “boa mulher” ou a traduzindo para os termos da semana a mulher “bela, recatada e do lar” que era basicamente uma mulher branca, europeia e cristã. Até que, quando europeus começaram a entrar em contato com mulheres africanas, atribuíram aqueles corpos negros com poucas roupas a ideia de promiscuidade, o corpo proibido e sexual e, assim seguimos com essa imagem até os dias de hoje.
Enquanto a escravidão de negros acontecia por todo o mundo ocidental, as mulheres negras eram usadas como objetos sexuais enquanto brancas novamente eram as “belas, recatadas e do lar”, estupros e abusos sexuais que mesmo após a abolição não acabaram, afinal o corpo da mulher negra seguiu sendo objeto de desejo e vontades “incontroláveis” de homens brancos, vontades essas que se mulheres negras se opusessem eram punidas tanto por seus senhores ou nos casos mais graves pela lei, como mostra a obra de David Baker intitulada “Black Female Executions in Historical Context.”, que entre as diversas histórias de assassinatos de mulheres negras podemos destacar a de Celia uma escrava de apenas 14 anos que matou “seu senhor” de 17 anos, após o mesmo tentar abusar sexualmente dela e, após isso foi condenada e enforcada:
“Robert Newsome, de 17 anos, levou Celia, 14 anos, e a forçou a ter relações sexuais repetidamente. Uma noite quando Newsome foi até sua cabine para para abusá-la, ela o bateu com um bastão e o matou na hora. Celia estava grávida pela terceira vez de Newsome e muito doente na última vez que ele a abordou. Em seu julgamento, a corte se preocupou apenas em saber se Celia tinha o direito de se auto-defender de seu agressor. O júri deixou bem claro que ela não tinha esse direito. Para a corte, Celia não tinha nenhum direito sob seu próprio corpo porque ela era propriedade de Newsome e ela deveria obedecer suas exigências. Celia foi condenada por assassinato e enforcada quatro dias antes do natal de 1855.”

A mídia ao longo dos anos também ajudou a reforçar o estereótipo de mulheres que são para sexo, devoradoras de homem, irresistíveis, bravas, barraqueiras, escandalosas e a mulher ideal para relacionamentos e o “lar”, que seria a mulher branca, recatada e desejada por todos os homens para suas relações estáveis e construção de família.
Bom, vale lembrar que assim como em tantas outras questões o lugar ocupado por mulheres negras e brancas em nossa sociedade são bem diferentes. O normal esperado de um corpo feminino branco, não é o mesmo que um corpo feminino negro e devemos nos ater a isso. Precisamos ser livres com nossos corpos e escolhas, temos que ter a opção de sermos “recatadas” ou “fogosas” ou até mesmo os dois, se assim desejarmos, mas é preciso entender que essa opção nem sempre coube ou cabe a nós mulheres negras. A sororidade ou, empatia entre mulheres não deve ser mais uma forma de afomentar o mito da igualdade racial, só que voltada para gênero, mas sim uma maneira de discutir essa desigualdade historicamente existente para que apenas assim possamos de fato, construir alguma mudança e quebra de estereótipos para todas nós, mulheres.
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Se você se interessou pelo assunto, existem alguns textos que eu recomendo!
Por Suzane Jardim, para referências de estereótipos racistas internacionais
Por Jarid Arraes para a Revista Fórum, para saber mais sobre a objetificação e hipersexualização da mulher negra.