Sim sou brasileira, dou valor a nossa cultura e amo o carnaval.

Por esses dias tenho recebido diversas manifestações de pessoas e amigos, nas redes sociais dizendo que não gostam, não suportam, simplesmente odeiam essa época do ano.

Beleza, amigão! Cada um na sua. Ninguém é obrigado a gostar de nada, afinal vivemos em um país democrático, livre, laico, pelo menos é o que diz a teoria.

Então, a meu ver, essa disputa de opiniões não faz muito sentido.

Mesmo assim, gostaria de aproveitar a ocasião e escrever sobre o apreço, simpatia e respeito que eu tenho pela folia.

Eu nasci em São Paulo, mas a minha família é da região nordeste, onde o carnaval sempre foi, e é até hoje, uma festa bastante comemorada.

Durante a infância, nesse período do ano, viajamos algumas vezes para lá. E eu cresci vendo uma comemoração, onde as pessoas saiam às ruas, brincando umas com as outras, interagindo com muita alegria e sorrisos no rosto.

Homens fantasiados de mulher, brincadeiras com água, talco, argila, ovo, todo tipo de “sujeira” era permitido. Imagina só, a alegria de uma criança de sujando? Eram momentos de total diversão.

As músicas, os batuques, as fantasias, tudo transformava o ambiente, de uma maneira muito animada.

Creio que tudo isso tenha ficado na minha memória afetiva e com o passar dos anos, fui criando minhas preferências pessoais, musicais, dentre outras.

Eu nasci junto com o ritmo musical do axé, muito relacionado à Bahia até hoje. Lembro-me da minha mãe, me procurando, com um pente na mão, para arrumar o meu cabelo, cantando o célebre refrão, de Luiz Caldas: “Nega do cabelo duro, que não gosta de pentear”. (Mas eu sobrevivi ao bullyng de mamãe).

Na juventude eu cresci vidrada nas transmissões na televisão. Ficava ali por horas, até não aguentar mais.

Depois, a primeira vez que pude passar o carnaval em Salvador, (isso foi logo quando inventaram o cartão de crédito, com o parcelado em 10X sem juros). Nunca mais passei vontade de comprar um abadá.

Foi um sonho realizado, chorei de emoção atrás de um trio elétrico, sonho esse que se repetiu e ainda vai se repetir durante muitos anos, eu espero.

A atmosfera carnavalesca me encanta de uma maneira, que só acontecem coisas boas comigo e com as pessoas que estão ao meu redor. Nunca vi cenas de violência, crimes ou algo do tipo, como é tão enfatizado nos noticiários.

Grandes amigos a brincadeira de rua meu trouxe, a oportunidade de conhecer muitos lugares e culturas diferentes. É como diz uma música do Saulo Fernandes: “O mundo estava em guerra, mas aqui era carnaval e a gente parecia protegido de todo mal”.

Daí, meus amigos que odeiam os festejos de fevereiro falam, que essa festa cega à sociedade, tenta-se apagar os problemas, época de oba-oba e não há discussões sérias.

Tá! Mas o que você faz o resto do ano para solucionar os problemas da sociedade? Você vai à reunião do condomínio? Participa das reuniões da subprefeitura da sua região ou de qualquer outra entidade, grupo, que discuti assuntos sérios?

A galera do não gosto, também me diz que nessa época, tem nudez em excesso, abandono das regras morais e desrespeito às mulheres.

A folia se dá, no período em que o país está com o clima mais quente, talvez a burca fosse uma vestimenta mais adequada para se usar no verão brasileiro. Eu só me lembro, da minha avó Joana, assistindo televisão e falando das mulheres desapegadas do uso de roupas, parece que eu a ouço com aquela risadinha marota, dizendo: “Ahhh! Bicha sem vergonha”.

Quando me falam sobre o desrespeito com as mulheres, só consigo me lembrar dos funks proibidões, que rolam nas nossas periferias, todos os fins de semana, mas o incomodo é só no carnaval, né?

O amiguinho da rede social também tem criticas sobre a banalização do sexo, do uso indiscriminado de álcool e drogas. Mas, esse mesmo coleguinha, vai para a balada o ano inteiro, enche o cu de bala, maconha e vodka, transa mais do que gato no cio e a Sodoma e Gomorra só acontece em fevereiro? Será?

Os seres humanos que odeiam a carnavalia me questionam, dizendo que o país está sem água, vivendo em uma pobreza extrema, sem saúde, para que fazer uma festa dessa proporção?

Eu retruco meus amigos com outras questões. Já doou uma cesta básica para uma família necessitada alguma vez? Você fornece 1 litro de água para um morador em situação de rua, que passa sede? Vamos abrir mão da cervejinha do fim de semana e doar o dinheiro para algum hospital público?

Então, você não gosta de carnaval? Eu também não gosto de uma porção de coisas, que provavelmente não caberiam nesse texto. Mas eu vou vivendo. Vida que segue, sabe como é?

Eu foco nas coisas que gosto, amo e que me fazem feliz. E a folia carnavalesca é uma delas. Meu máximo respeito a essa festa linda.

Comunidades trabalham meses a fio, com muita arte, música, para realizar um evento magnifico. A cultura é visceral na criação, com um trabalho de pesquisa, produção, experimentação, engajamento e união.

Nesse ano de 2017, muitas escolas de samba trazem temas lindos, que vão render muitas surpresas boas. Em SP, a escola Unidos de Vila Maria, vai ter como tema Nossa Senhora Aparecida, (até o Papa Francisco disse amém).

A agremiação Tom Maior homenageia a cultura nordestina e a cantora Elba Ramalho, expoente da nossa música brasileira, que merece todas as honras possíveis.

Sem falar no RJ, que traz Ivete Sangalo como tema. Vai ser um banho de axé (mainha vai ser campeã).

Podemos falar também da riqueza do carnaval sob a visão histórica cultural. O carnaval vai muito além do samba e do axé. É também, maracatu, frevo, congada, toadas de boi, marchinhas e muito mais.

Permite também toda miscelânea musical, nas ruas encontramos bloquinhos (como chamamos aqui em SP), sendo levados com forró, rock, música infantil e vejo todo mundo se divertindo com um sorriso no rosto.

Se você amigão, não está a fim de ir para a rua, vestir uma fantasia, mostrar os dentes e dar uns pulinhos, não precisa ficar me contando isso. Vai assistir a premiação do Oscar e para de me encher os pacovás.

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