Ideias para um paraíso

É sempre manhã, embora eu odeie as manhãs. Acordar não é mais terrível, só um despertar sem sobressalto, interferência externa, mais como um sentimento de serviço feito. Está frio, mas também está quente, porque fui dormir de pijamas e a coberta é macia, um veludo costurado do avesso. Também tem sempre café coado na hora e tapioca com manteiga derretida. Lá fora não acabou o verde e os pássaros, daquele jeito meio idílico, meio alvoroço, são os primeiros a dizer que faz sol, vem ver, é lindo.

Ele está me esperando na cozinha, na ponta da mesa, e só de olhar eu vejo que, eu mesma, não espero por mais ninguém. O seu rosto está com a barba meio crescida, meio aparada, tem cheiro de pasta de dente quando beijo. Diverte-se quando diz que somos, agora, ridiculamente felizes e pergunta se tem alguma coisa que ainda gostaria de quebrar.

Não há nada nessa casa que eu precise destruir, nenhum espelho na parede, e posso ver que minhas janelas estão cheias de livros, que há livros em todos os lugares, um punhado deles espalhado pelos corredores, servindo de encosto para a porta. Vou reconhecendo os meus.

Não sinto dor, meu corpo é assombrosamente limpo, calmo e macio. Sem cansaço, aperto no peito, cabeça doída. Inexiste desconforto neste lugar feito de luz e papel. Ele me abraça quando eu descubro que estou em casa e confirma: é isso mesmo, era besteira querer morar no mundo dos outros, era comprar um vestido que não te servia.

Penso que este lar perdido deve estar sobre a rocha flutuante daquele quadro do Magritte que eu amava quando era criança, aos doze anos, na biblioteca da escola; que vamos caindo soltos no espaço em algum lapso temporal que desrespeita a lógica, porque é a fazenda da minha infância, mas também é o refúgio de algum futuro.

Não preciso ter medo, não nos sentimos mais sozinhos, mas ainda temos as marcas. Entre aqueles livros, estão também os que sofri para escrever. Cultivo porta-retratos na parede para apreciar, de manhã, logo depois que eu acordo — porque acordar não vai ser mesmo terrível — com os rostos de todas as pessoas que um dia amei e não existem mais. Elas estão sorrindo, me vendo e sorrindo. Não há nenhuma foto minha.

Olho para minhas mãos e vejo que, além de sujas de tinta, permanentemente encardidas pelas vezes em que fui dobrando as palavras nos dedos, elas também estão enrugadas. Eu estou velha. Quando termino de caminhar pelos corredores de madeira com cheiro de pinho, serragem e aquele perfume francês que sempre será meu favorito, acabo na mesa para comer a tapioca e suspirar de paz, porque finalmente entendi tudo, e não há mais nada para querer.

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