A frivolidade salva (ou crônica politicamente incorreta)

Sou metida a intelectual, e sempre prefiro assuntos sérios aos fúteis — tanto nas redes sociais quanto nas mesas de bar –, mas cheguei ao meu limite. Preciso ser salva pelas frivolidades do cotidiano.

Só sei viver intensamente, mas confesso que é muito cansativo. Preciso resgatar em minhas entranhas a mulher que compra na Zara sem se importar com o fato da marca usar mão de obra escrava, a mulher que vê Dirty Dancing pela centésima vez e chora sempre na mesma parte do filme, aquela louca que estoura o cartão comprando cremes anticelulite porque, assim como acredita que matricular-se na academia emagrece instantaneamente, também crê que ter tais cosméticos na pia do banheiro a deixa mais gostosa.

Faz bem pra alma gargalhar sem culpa, tomando chope no BG, numa sexta-feira pós expediente, mesmo vivendo num país que acabou de sofrer um gravíssimo rompimento democrático.

Acho que escrevo crônicas porque ela é a mais gentil dos gêneros literários. Ela é coloquial, me ajuda a rir de mim mesma e a prestar atenção aos detalhes que as mazelas das grandes cidades insistem em esconder. Acho que escrevo crônicas porque, de certa forma, ela não me impõe o crédito de escritora. Penso que seria presunçoso demais ter a mesma profissão de Saramago, Clarice e Lygia.

Gosto de me permitir entrar no cinema e por duas horas esquecer quem sou. Gosto de ler um livro e passar uma semana vivendo a vida de outra pessoa. Gosto ainda mais de ir a um show e me conectar com a música a tal ponto que meus pés deixam de tocar o chão, e passo a ser também onda sonora. Mas não me lembro a última vez que fiz essas três coisas.

Aos três-ponto-seis sinto que estou chegando quase ao fim da primeira metade da vida, e às vezes estar no meio de alguma coisa é estar mais perto de conquistá-la. Parafraseando Antônio Prata, “sou meio intelectual, meio de esquerda” e quero cada vez mais ser meio, porque sendo meio preciso da outra metade pra ser inteira, e aí não preciso ser só séria, posso ser fútil também.