Elena Ferrante: da ficção inerente à escrita

Tradução da coluna de Elena Ferrante para o jornal britânico The Guardian publicada em 17 de fevereiro de 2018

Ilustração de Andrea Ucini para a coluna de Ferrante no Guardian

Sou incapaz de traçar uma fronteira entre ficção e não ficção. Digamos que eu tenha uma ideia para uma história na qual, aos 48 anos, em uma casa de campo vazia no inverno, acabo trancada no box do chuveiro, sem conseguir desligá-lo, a água quente acabou. Isso realmente aconteceu comigo? Não. Isso aconteceu com alguém que conheço? Sim. A pessoa tinha 48 anos? Não.

Então por que motivo construo uma história em primeira pessoa, como se tivesse acontecido comigo? Por que digo que era inverno quando, na verdade, era verão? Por que digo que a água quente tinha acabado quando não tinha, por que deixo a mulher aprisionada ali por horas quando a pessoa de carne e osso conseguiu sair em cinco minutos? Por que complico a história com tantos outros eventos, sentimentos, ansiedades, reflexões amedrontadas, quando o evento recontado é um episódio pequeno, insignificante? Porque — eu poderia responder — estou tentando fazer ficção seguindo um caminho que Gogol resumiu da seguinte forma: me dê qualquer pequeno evento cotidiano e farei uma peça de cinco atos.

Mas não tenho a intenção de responder dessa maneira. Quero dar o exemplo oposto. Estou cansada da ficção, já não vejo sentido em caçar anedotas com as quais farei peças de cinco atos. Então converso com minha amiga que ficou presa no chuveiro por cinco minutos decidida a contar, com fidelidade, o que aconteceu. Vou lá com meu iPad e até mesmo faço um vídeo, quero estar tão colada aos fatos quanto possível.

Em seguida, vou para casa e começo a trabalhar. Leio e releio minhas notas, assisto ao vídeo repetidas vezes, escuto de novo e de novo — e estou desconcertada. Por que minha amiga fica confusa ao falar do box com problemas? Por que suas primeiras frases, tão bem pensadas, são seguidas por outras hesitantes, com um acento na cadência dialetal? Por que, ao me contar sua experiência trivial, olha insistentemente para a direita? O que há à direita que não posso ver na gravação, e que não vi na realidade? Como vou trabalhar com isso quando passar para a escrita? Vou limpar essa linguagem? Vou imitar sua confusão? Vou amenizar a confusão para minimizá-la? Vou exagerá-la para torná-la bastante óbvia? Vou tentar especular sobre o que estava escondido à direita? E se não houver nada escondido?

Em outras palavras, meu esforço pela fidelidade não pode ser separado da busca por coerência, da imposição de ordem e sentido, até mesmo da imitação da falta de ordem e sentido. Como a escrita é intrinsecamente artificial, seu uso sempre envolve uma forma de ficção. A fronteira está, antes, como disse Virginia Woolf, em quanto de verdade a ficção inerente à escrita é capaz de capturar.


Traduzi essa coluna para minha pesquisa de mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo.

Como não temos acesso ao texto original, essa versão foi feita a partir do inglês. Portanto, é uma versão da versão de Ann Goldstein. Para não haver mais perdas, fiz uma tradução quase literal, colada ao material publicado no Guardian.