Elena Ferrante: da linguagem como país

Fabiane Secches
Mar 14, 2018 · 3 min read

Tradução da coluna de Elena Ferrante para o jornal britânico The Guardian publicada em 24 de fevereiro de 2018

Ilustração de Andrea Ucini para a coluna de Ferrante no Guardian

Eu amo meu país, mas não tenho qualquer espírito patriota, nem qualquer orgulho nacionalista. E digo mais: pizza não me cai bem, quase não como espaguete, não falo alto, não gesticulo, odeio todas as máfias, não exclamo “Mamma mia!”. Atributos nacionais são simplificações que deveriam ser contestadas. Ser italiana, para mim, começa e termina no fato de que falo e escrevo em italiano.

Falando assim não parece muito, mas é imenso. Uma língua é um compêndio da história, da geografia, da vida material e espiritual, dos vícios e virtudes não apenas daqueles que a habitam, mas também dos que a habitaram ao longo dos séculos. As palavras, a gramática, a sintaxe são ferramentas que modelam o pensamento. Sem mencionar a tradição literária, uma extraordinária refinaria de experiências brutas que estiveram em curso por séculos e séculos, um reservatório de técnicas inteligentes e significativas; essa foi a tradição que me formou, e tenho orgulho de ter sido moldada por ela.

Quando afirmo que sou italiana porque escrevo em italiano, quero dizer que sou inteiramente italiana — mas italiana no único sentido em que estou disposta a me atribuir uma nacionalidade. Não gosto dos outros sentidos; eles me aterrorizam, principalmente quando se tornam nacionalismo, chauvinismo, imperialismo, criando barreiras linguísticas repressivas, construindo um muro em torno de si mesmos, tanto para cultivar uma pureza tão insípida quanto impossível como para se impor por meio de um poder econômico esmagador e bélico. Isso aconteceu, acontece e vai acontecer, e é um mal que tende a aniquilar diferenças, empobrecendo a todos.

Prefiro a nacionalidade linguística como ponto de partida para o diálogo, como um esforço para ultrapassar limites, para olhar além da fronteira — além de todas as fronteiras, principalmente das de gênero. Por isso, meus únicos heróis são os tradutores (amo sobretudo os especialistas na arte da tradução simultânea). Eu os amo ainda mais quando esses tradutores também são leitores apaixonados e propõe suas próprias traduções. Graças a eles, a italianidade viaja o mundo, se enriquecendo, e o mundo, com todos os seus idiomas, perpassa a italianidade e a transforma. Tradutores transportam nações para outras nações; eles são os primeiros a perceber diferentes sensibilidades. Até seus erros são evidência de uma força positiva. A tradução é nossa salvação: nos leva para fora do lugar em que, completamente por acaso, nós acabamos nascendo.

Sendo assim, sou italiana, inteiramente, e com orgulho. Mas, se pudesse escolher, descenderia de todos os idiomas e seria permeada por todos eles. Mesmo o terrível Google Translate me consola. Nós podemos ser muito mais do que aquilo que, por acaso, acabamos sendo.


Traduzi essa coluna para minha pesquisa de mestrado em Teoria Literária e Literatura Comparada na Universidade de São Paulo.

Como não temos acesso ao texto original, essa versão foi feita a partir do inglês. Portanto, é uma versão da versão de Ann Goldstein. Para não haver mais perdas, fiz uma tradução quase literal, colada ao material publicado no Guardian.

Fabiane Secches

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Escrevo sobre literatura, cinema e psicanálise

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