Elena Ferrante: do diário à literatura

Fabiane Secches
Feb 3, 2018 · 3 min read

Tradução da coluna de Elena Ferrante para o jornal britânico The Guardian publicada em 03 de fevereiro de 2018

Ilustração de Andrea Ucini para a coluna de Ferrante no Guardian

Mantive um diário por muitos anos quando era garota. Fui uma adolescente tímida; só dizia sim e passava a maior parte do tempo calada. Em meu diário, por outro lado, eu me soltava: recontava em detalhes o que me acontecia todos os dias, acontecimentos muito secretos, pensamentos audaciosos. Por isso, ficava muito preocupada: tinha medo de que minha família, principalmente minha mãe, pudesse encontrá-lo e lê-lo. Estava sempre inventando esconderijos secretos que logo me pareciam óbvios.

Por que essa preocupação toda? Porque se, na vida cotidiana, era tão envergonhada, tão cautelosa que mal podia respirar, o diário produziu em mim uma urgência pela verdade. Eu achava que, quando se escreve um diário, não faz sentido se conter, se censurar e, por isso, escrevi principalmente — talvez unicamente — coisas sobre as quais teria preferido me calar, recorrendo, entre outras coisas, a um vocabulário que nunca ousaria empregar em voz alta.

Essa situação me esgotou rapidamente. De um lado, fazia esse esforço diário de me expressar de um modo que provasse a mim mesma que eu era brutalmente honesta e que nada jamais me impediria de sê-lo. De outro, vivia aterrorizada pela ideia de que alguém pusesse os olhos naquelas páginas.

Essa contradição me acompanhou por muito tempo e, de diversas maneiras, continua viva ainda hoje. Se eu mesma escolhi tornar visível na escrita aquilo que, de outro modo, teria permanecido completamente escondido na minha cabeça, então por que estava tão aflita de que meu diário pudesse ser descoberto?

Por volta dos 20 anos, acreditei ter encontrado uma solução satisfatória. Precisava parar de escrever em meu diário e deslocar o desejo de contar a verdade — minha mais indizível verdade — para uma história inventada. Tomei esse caminho em parte porque o próprio diário estava começando a se tornar ficção. Por exemplo: frequentemente, não tinha tempo de escrever todos os dias e, quando finalmente escrevia, me parecia que o fio de causas e efeitos estava partido. Então passei a preencher essas lacunas escrevendo páginas que depois datava retroativamente. Ao fazer isso, dava aos fatos, às reflexões, uma coerência que nem sempre existia nas páginas que escrevia diariamente. Provavelmente foi a experiência do diário e de suas contradições que me transformaram em uma escritora de ficção. Nas histórias inventadas, sentia que estava — eu e minhas verdades — um pouco mais segura.

De fato, assim que a nova escrita ganhou terreno, me desfiz de meus diários. Fiz isso porque a escrita me pareceu crua, sem pensamentos que valessem a pena, cheia de exageros infantis e, acima de tudo, muito distante de como hoje me lembro de minha adolescência. Desde então, deixei de sentir necessidade de manter um diário.


Traduzi essa coluna para minha pesquisa de mestrado no Departamento de Teoria Literária e Literatura Comparada da Universidade de São Paulo.

Como não temos acesso ao texto original, essa versão foi feita a partir do inglês. Portanto, é uma versão da versão de Ann Goldstein. Para não haver mais perdas, fiz uma tradução quase literal, colada ao material publicado no Guardian.

Fabiane Secches

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Escrevo sobre literatura, cinema e psicanálise

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