Em defesa da lentidão

Ando devagar porque já tive pressa

Não quero passar por cima da experiência com o trator da produtividade.

A frase é do meu último texto e embora seja péssimo citar a gente mesma, faço isso para resgatar o tema pelo qual passei antes, pegando o gancho para escrever algo em defesa da lentidão.

Quando comecei a newsletter, há pouco mais de seis meses, minha intenção era ganhar tempo para pensar sobre assuntos que me mobilizam. Se há quem consiga saltar de um objeto para outro (livros, filmes, séries, problematizações) sem sentir o tranco, não faço parte do grupo. Nunca fui boa com respostas rápidas, desconfio das minhas primeiras ideias e me volto para dentro, buscando assentar e costurar. Retorno à superfície com algo que posso chamar mais ou menos de meu só depois de percorrer um longo e espinhoso caminho. Então, a proposta de ter uma newsletter, que até o final do ano escrevi e enviei uma vez por semana, a princípio me interessou muito. No lugar de interações instantâneas, sete dias de intervalo. Pareceu uma infinidade perto do imediatismo das redes sociais.

Acontece que quanto mais a gente desacelera, mais pode tomar gosto pela coisa. Talvez seja um paradoxo considerar a diminuição de velocidade como uma espécie de progresso, mas é por aí.

Quando era mais nova, costumava dizer que o que me paralisava era ter uma porta sempre aberta para o assombro. Se algo me tocava, era preciso ler lentamente. Cada parágrafo ou capítulo parecia demais para mim. Depois de terminar, precisava ler a respeito do livro e conversar exaustivamente sobre ele. Se um filme me atingia, acontecia o mesmo. Com o passar do tempo, só piorou. Hoje se algo me comove acaba se tornando um tema recorrente, obsessões que por vezes me acompanham até ao psicanalista.

Sou uma pessoa de fixações e por isso me repito tanto. Poderia dizer que fico constrangida por isso, mas estaria fazendo cena. Essa é uma das poucas características que me acompanham desde pequena e que delimitam razoavelmente um contorno que posso chamar de eu. Até aqui, nunca soube viver de outro modo.

No romance Uma Menina Está Perdida no seu Século à Procura do Pai, de Gonçalo Tavares, o narrador diz: “(…) o ritmo do passo aumentou muito mas a imobilidade é que é importante. Não podemos observar enquanto fugimos”.

Se o tempo desliza rápido demais, sinto que eu mesma escorro junto com ele. Então, quando alguém elogia minha produtividade, recebo com estranheza. Sei que o conceito de lentidão é relativo, mas é uma surpresa que, segundo outros critérios, possa ser percebida assim.

É bonito como somos diferentes da maneira mais subjetiva possível. Talvez alguém que não goste de ler me considere produtiva simplesmente porque leio, como eu considero produtivo quem faz algo que não me interessa ou que não consigo fazer. Mas aí não estamos falando de produtividade, certo? É fácil parecer que somos produtivos quando estamos apenas apaixonados e não conseguimos deixar de fazer ou de falar de algo.

Quando me pergunto por que ficamos tão mobilizados por uma obra ou por um artista, penso em muitas possíveis respostas. Nenhuma delas dá conta, mas gosto de considerar as hipóteses ainda assim. Uma possibilidade é que, nesses encontros, temos a impressão de que nossa alma pode ser apreendida, que alguém, um outro, resumiu em palavras ou imagens algo que está dentro de nós. Um outro que diz por mim, e melhor do que eu jamais poderia. Então nos sentimos compreendidos e menos solitários.

Ontem assisti, pela primeira vez, a uma entrevista em que o filósofo francês Gilles Deleuze fala da amizade. Nela, Deleuze defende que somos inclinados a nos tornar amigos daqueles com quem temos antes do que interesses em comum, uma linguagem, ou pré-linguagem, em comum. Diz que há pessoas que lhe dizem coisas banais como “me passe o sal” e ele não compreende nada, enquanto há quem lhe fale de sentimentos e pensamentos abstratos e ele compreende completamente. Achei uma observação precisa. Penso que é por esse mesmo motivo que nos aproximamos mais de alguns livros/filmes/obras do que de outros, que é por esse mesmo motivo que alguns artistas se tornam companhias inseparáveis — pois me compreendem como amigos íntimos.

No último ano, estive trabalhando muito lentamente em um novo projeto editorial, a Deriva, uma publicação independente de literatura, cinema e psicanálise. A ideia provavelmente nasceu anos antes, na época da Confeitaria, e foi se transformando e amadurecendo com o tempo. Comecei a esboçar a Deriva há pouco mais de um ano e na última sexta-feira finalmente conseguimos lançá-la. Gosto da ideia de cumprir ciclos — fazer lentamente é diferente de não-fazer ou de continuar fazendo algo eternamente. Então, embora esteja imperfeita, é hora de compartilhá-la e viver essa experiência, a troca com quem lê, como parte das edições que virão.

Escrevi uma carta de apresentação aqui e gostaria de agradecer novamente pela gentileza de todos que participaram.

Em sintonia com o tema deste texto, antecipo que a frequência da revista a princípio será semestral.

Já a newsletter, prefiro deixar em aberto. Escreverei de tempos em tempos. Assim, indeterminadamente.


A colagem que escolhi para ilustrar esta publicação é de Eugenia Loli. Este texto foi originalmente enviado pela minha newsletter no dia 16 de fevereiro de 2017. Aqui, foi adaptado e publicado com ajustes.