Debate: um chamado urgente

Quem me conhece sabe que o debate é uma constante na minha vida. É mais do que uma curiosidade ou entretenimento, mas um jeito que arranjei para interagir com o mundo.
Dedico várias horas do meu dia a essa atividade desde a adolescência. Nesse tempo todo, já vi muitas posições sendo modificadas, tanto minhas quanto de outros interlocutores. Em tese, é para isso que debates deveriam servir. No entanto, há algo curioso: nunca vi ninguém modificar sua posição num contexto de desrespeito e intolerância.
Penso que debater, mais que construir argumentos consistentes, tem a ver com assumir uma postura psicológica generosa. É preciso ter grandeza e tranquilidade para rever opiniões, levar a sério o esforço do outro e, mesmo com discordância, reconhecer quando há mérito na proposição alheia.
O convencimento só é possível a partir de uma relação de confiança. Substituir a própria convicção pela que está sendo oferecida por outro é algo muito difícil. Abrir mão do ego e dar maior protagonismo à razão, assim, não vai ocorrer se não houver um contexto de empatia com o interlocutor.
A tensão é esperada em qualquer discordância. Porém, quando ela se torna agressiva a ponto de descambar em injúria mútua, podemos saber que qualquer possibilidade de convencimento está interditada. O que se segue disso dificilmente é proveitoso para qualquer das partes.
Essa é uma cena comum que se repete a todo instante em fóruns nas redes sociais, grupos de whatsapp, corredores, cafezinhos e mesas de jantar. Ela nos leva a questionar: qual o proveito desse tipo de interação? Quantas vezes você já viu alguém mudar de opinião no meio de uma briga?
Mesmo não funcionando, insistimos misteriosamente nisso. É a ironia desnecessária, a agressividade gratuita, a fake news absurda em spams intermináveis… o arsenal é farto com o qual nos agredimos mutuamente e não produzimos nenhuma síntese (a não ser ainda mais violência).
Já experimentou ceder em algum debate? Veja, aqui não falo em abrir mão de tentar convencer o outro, mas admitir quando ele trouxer um melhor ponto de vista ou a versão mais plausível de determinado fato. Se não, experimente. Permita-se mudar de ideia, ser crítico consigo. É difícil, um pouco desconfortável no começo, mas muito gratificante. E produtivo.
Estamos numa encalacrada histórica. É responsabilidade de todos ajudar na construção de uma saída, que só vai acontecer por meio de um sério debate público. Um lugar que não pode se tornar a lixeira de nossas frustrações coletivas, mas ao contrário, deve receber o melhor da nossa reflexão mais reverente.
Vamos botar a cabeça no lugar e dar um jeito nisso. Juntos.
