De peixes

Tenho um amigo que pesca. Adora ir ao lago, tirar minhocas da terra, cravá-las no anzol e ficar esperando peixes. Diz ele que a pesca é um esporte, um exercício de paciência, essa ou aquela virtude. Que o pescador não está realmente pescando, mas sim pensando, sonhando, planejando.

Nunca gostei de pescaria.

O anzol é sempre o mesmo. A isca é sempre a mesma. Tudo que se faz é ver a vida passar. Se pego algo, é mais por sorte e paciência do que por mérito.

Sabe do que eu gosto? Gosto é de conversar contigo. Cada coisa que digo é um novo anzol na superfície. Cada pergunta é uma nova isca. Cada risada aparentemente sem motivo, cada variação na voz pra cortar o ritmo, cada silêncio proposital que eu estendo e fico à vontade até a tensão ficar tão aparente que você precisa falar algo. É tudo pra te fisgar.

E às vezes tiro da água coisas sensacionais. Nenhum pirarucu de 180 quilos é mais prazeroso de puxar pra perto de mim do que aquela confissão de algo que eu nem sabia que você estava pensando, ou do que aquela história interessante sobre quando você não me conhecia. Eu não estava lá, mas agora joguei a isca, e você mordeu. Gosto quando você morde. Gosto de ir te descobrindo, uma fisgada de cada vez. Isso sim é que é esporte.

Nunca gostei de pescaria. Mas também nunca tinha encontrado você, menina de peixes.