O que faz um jogo de celular ser “bom”?


Tenho jogado bastante dois jogos no meu celular: Monument Valley e Crossy Road. Baixei os dois no mesmo dia, provável motivo pelo qual tem sido difícil evitar comparações.

Monument Valley

O primeiro é um puzzle sensacional que brinca com perspectivas impossíveis; uma mistura de Fez com Echocrome, com gráficos e direção artística tão bons que absolutamente a qualquer momento que você tirar uma screenshot terá uma imagem que poderia servir de fundo de tela pro celular; um trabalho de arte que O segundo é uma cria cultural de Flappy Bird, um clone infinito de Frogger monótono e sem objetivo algum exceto fazer mais pontos do que da última vez.

Adivinha qual eu estou jogando mais?

Sob absolutamente todos os aspectos mensuráveis, Monument Valley é um jogo muito melhor. Muito superior. Quando você joga Monument Valley, você está se desafiando a ver coisas impossíveis, a fazer caminhos que inicialmente não fazem sentido. A cada fase você se maravilha com uma pintura interativa na tela do seu celular e um desafio novo para a sua percepção. Tem uma historinha, tem uma curva de aprendizado. Tem um design. Você está querendo chegar ao fim de algo, mas ao mesmo tempo está curtindo cada passo no decorrer do caminho.

Crossy Road

Quando você joga Crossy Road, você toca na tela pra fazer um bonequinho pular pra frente até algum objeto te acertar e você morrer. Um pulo, um ponto. É literalmente só isso, não tem nenhuma profundidade.

Ainda estamos jogando isso, e adorando

Nem precisa de muita má vontade para dizer que é um joguinho burro. E pior: Crossy Road (que é grátis, ao contrário do Monument Valley, que custa cerca de R$10) ainda fica o tempo inteiro tentando te manipular psicologicamente para que você compre um dos 50 personagenzinhos esteticamente diferentes, o que dá no saco.

Mas por algum motivo eu tenho jogado proporcionalmente uns dez minutos de Crossy Road para cada um minuto de Monument Valley.

Por quê?


Se eu soubesse, não estaria escrevendo esse texto; mas suspeito que o meu conceito de jogo “bom”, digno de elogios, esteja defasado. Eu aprendi a reconhecer um jogo bom lendo revistas e sites de videogame, e a maior parte dessa leitura formadora de opinião crítica foi feita bem antes de jogos de celular serem a thing. Os critérios são diferentes hoje em dia, e eu não vou fingir que sei quais são os novos.

Monument Valley é um jogo moderno o suficiente para que alguns digam que ele seria “impossível” em um dispositivo sem tela de toque — se não me engano, li isso no TouchArcade — , mas ao mesmo tempo ele oferece aquela experiência de “peraí, mundo, que agora eu vou jogar isso”. Essa experiência é similar aos de jogos que você joga na TV. Em contrapartida, Crossy Road provavelmente é possível em absolutamente quaquer dispositivo eletrônico que já tenha sido usado para jogar qualquer coisa.

Mas… será que seria desejável? Ele seria considerado chato e monótono no seu 3DS ou PlayStation n, mas só porque estão no celular, coisas como ele (e como o próprio Flappy Bird no qual se inspirou levemente) subitamente se tornam a primeira coisa que você pensa em jogar assim que termina de escolher em qual fila do mercado estacionar o seu carrinho.

Enquanto Monument Valley te pede atenção, Crossy Road fica muito feliz em meramente ocupar seus momentos de desatenção.

Talvez isso faça dele um jogo objetivamente bom. Talvez isso faça dele até melhor que Monument Valley, mesmo Monument Valley sendo claramente melhor sob absolutamente todos os aspectos mensuráveis.

Eu não sei.

Eu realmente não sei.