A geração do rock meia boca no Brasil: continuamos errando

Sejamos francos — a geração pós 2000 continua falhando em emergir bandas de rock brasileiro de qualidade. Quando digo falhando, sinceramente não quero dizer falhando catastroficamente, pois ainda estou ativo na cena musical de minha região (SP) e consigo ver o tanto de gente legal e competente que ainda corre atrás do sucesso na música. É um pessoal inteligente, que tem uma enorme energia movida pela fagulha do amor a um rock grandioso que fica cada vez mais difícil de se sentir ao vivo, a não ser em vídeos do Youtube ou em shows de bandas já consagradas. Mas mesmo assim continuamos falhando para criar coisas novas.
A questão que quero focar neste texto é referente àquele termo que muitos consideram um pecado capital: o MAINSTREAM (por definição: moda ou estilo ao gosto da maioria, aquilo que está bombando, muito popular). Em praticamente 90% das vezes que faço um desabafo sobre a falta de bandas novas e muito conhecidas no Brasil, ouço as pessoas dizendo que o Underground têm bandas excelentes, mas que simplesmente não tem exposição no Brasil devido a uma série de fatores: “somos o país do Sertanejo”, “as rádios não tocam rock”, “o país não dá espaço pro rock”, e por aí vai. Analisemos alguns fatos: o Rock in Rio é um dos maiores festivais de rock do planeta, e está no aqui Brasil. Algumas das superbandas dos anos 80 / 90 / 2000 lotariam estádios inteiros de futebol — vide Charlie Brown Jr, Raimundos, Legião Urbana, Mamonas Assassinas. Então porquê não teríamos mais o mínimo de espaço para novas bandas grandes e com um público relativamente em massa? Porquê estas bandas do Underground não ganham o espaço que merecem?
Ok - realmente, não tivemos muitas superbandas na história, mas estas que citei, realmente tinham uma aprovação de praticamente 100% do público em qualquer festival. Mas infelizmente isso não existe mais por aqui nos últimos 15 anos. Porquê?
Muita informação na internet = um labirinto no qual a maioria dos músicos não encontra a saída

Somos uma geração privilegiada, que têm à mão toda a informação que quiser, a hora que quiser. Os músicos não têm mais desculpas para não apresentar um mínimo de competência ao tocar seu instrumento. Temos estrutura tecnológica acessível. A verdade é que a internet nos deixou abobalhados com as inúmeras possibilidades de estudar, se informar, conhecer novos artistas. E porquê continuamos errando?
Bem, aqui vai minha humilde opinião: nós músicos do rock continuamos errando pois não estamos sabendo fazer música boa. Não estamos dando valor à composição. Estamos com uma enorme dificuldade em fazer bons refrões, em fazer pessoas cantarem junto. Não obrigo ninguém a compartilhar dessa opinião, já que isso exige uma enorme humildade e autocrítica, e que praticamente nos ofende ao imaginarmos que nossas criações não têm qualidade o suficiente para fazer sucesso.
Se antes a fórmula mágica para o sucesso na música já era um Santo Graal impossível de se encontrar, agora está ainda mais distante. Tenho a impressão que ao focarmos demais na exposição audiovisual que a Internet nos proporcionou (fotos, vídeos, aparelhagem, roupas, estilo, sites), ficamos todos deslumbrados e fomos contaminados pela ideia de um sucesso “ do it yourself” , onde não precisamos mais de produtores, gravadoras, letristas. Compramos uma guitarra ou uma bateria, e no dia seguinte já temos uma música pronta pra ser gravada. Isso é errado. Nos tornamos marrentos. E de quebra, estamos mais ligados à nossa página do Facebook do que às músicas.
Meu raciocínio é baseado em fases. Eu divido os acontecimentos em cinco fases desta nova geração de músicos (favor desconsiderar o pessoal com mais de 40 anos):
- Anos 2000 — Deslumbramento total com o acesso a fotos, clipes, músicas para download, informações sobre instrumentos em geral. Compramos instrumentos e não sabemos tocar. Passamos vergonha. Mas pelo menos é divertido.
- Anos 2003 a 2006 — O deslumbramento continua. A maioria dos músicos continuam tocando sem entender direito o que querem e sem buscar boas referências que não sejam bandas sem essência. O foco é quase total em bandas gringas, o que faz com que a maioria esmagadora dos novos músicos não consiga mais se comunicar com o povo brasileiro. Algumas poucas exceções fogem desta manada e conseguem aparecer na mídia nacional (Ex: Pitty, CPM 22, Detonautas, Angra com a nova fase Rebirth, entre algumas outras).
- Anos 2006 a 2010 — Adaptação mais natural às novas mídias. Explosão do número de sites de bandas, baseado na Web 2.0 e o acesso fácil à ferramentas para criar marketing audiovisual (Myspace, Fotolog, etc) mesmo para leigos. Esquecemos quase completamente a essência da composição, e passamos a nos dedicar ao marketing. Fotógrafos viram febre. Referências gringas continuam em alta. A facilidade do acesso a home estúdios e estúdios mais baratos faz uma legião de novas bandas gravarem discos rasos e ruins. Sem a referência correta, a maioria faz uma salada de hard rock — hardcore — pop punk.
- Anos 2010 a 2012 — Começamos a ter uma lucidez maior pra discernir e filtrar o que buscar. Ainda deslumbrados com o marketing digital. Chegamos ao ápice do ridículo, com as roupas coloridas e bandas de EMO e Happy Rock (mas não tiro o crédito dessa turma: foram os últimos movimentos relevantes do rock no Brasil — que arrastavam muita gente. Hoje, nem isso existe mais). Porém, os mais visionários conseguem prever que é uma fase que logo vai se estinguir.
- Anos 2012 a 2015 — Finalmente colocamos novamente os pés no chão. Não existe mais o deslumbramento. Porém eu diria que é a fase mais chata. Não pela qualidade musical, pois vejo que estamos finalmente melhorando a composição e aplicando maior essência. Mas é chata pois muitos realmente acham que se encontraram na música, enquanto na verdade continuam perdidos — porém agora querem mostrar uma faceta sofisticada, uma sensatez que acaba soando artificial. Alguns olham pra trás e têm vergonha dos anos passados, onde eram zumbis com franja e adornos da fase emo. Tem um pessoal que só falta sair abraçando árvores, tão grande é a vontade de mostrar que voltou às raízes da vida e do universo. Barbas, chinelos, essa agora é a moda. E infelizmente, a moda continua sobressalente à qualidade da composição. Mas reitero: estamos finalmente revertendo a direção do gráfico de qualidade musical.
Chegando ao fim deste texto, saliento que é visível um aumento da qualidade de composição das bandas e artistas do rock atual. Não temos bandas relevantes no cenário; mal temos um cenário uniforme de bandas novas de rock. Mas em 2016 é muito provável que bandas maravilhosas despontem nas rádios. Vivemos finalmente uma época de menos deslumbramento e maior amor à arte. E eu me coloco nessa mesma cesta. Quero me desafiar a fazer parte de uma geração que não só tentou fazer sucesso. Quero ser parte da geração que deixará marcas positivas e relevantes na história do rock.