O nosso negócio é farra

O nosso negócio é farra. Desde 1500. Foder com os índios; barbarizar os negros e voltar pra Portugal ostentar cordão de ouro e madeira roubada.

Do período colonial até hoje, podemos contar nos dedos quem, de fato, quis construir algo por aqui. O Brasil era (era?) terra pra tirar onda, matar umas onças, umas pessoas e depois cair fora com o bolso cheio dos lucro.

Bons historiadores dizem que nossa independência foi piada por um longo tempo. Que continuamos dependentes de Portugal e da Inglaterra por décadas a fio. Que a família real só veio pra cá porque fugia de Napoleão e de sua revolução francesa. No Grito do Ipiranga não havia qualquer intenção de se construir uma nação, mas apenas um jogo de poder pra que o rei, o imperador — o caralho que for — fosse o manda-chuva por aqui.

A abolição da escravatura, afirmam, não foi feita por uma princesa altruísta e que tinha empatia pelos negros explorados há séculos, mas sim assinada de qualquer maneira por absoluta pressão internacional. Fomos o último país a abandonar o sistema escravocrata. O absurdo da escravidão durou exatos 358 anos no Brasil. Três séculos e meio tratando seres humanos como produto.

Mesmo após receberem suas cartas de alforria, os negros continuavam a se foder na vida. Poucos lhes davam emprego; na mesma época em que abolimos a escravidão, passamos a estimular a imigração planejada de europeus para trabalharem na lavoura. Assim os negros se manteriam à margem. Dito e feito.

No século XIV nos proibiram de fazer uma revolução industrial. A Inglaterra não deixava e ponto. Só fomos realizar nossa primeira revolução capitalista na era Vargas, na década de 30. Foi aí que começaram a surgir os primeiros pactos pra se formar uma nação. Ou, ao menos, tentativas de pacto.

Porém, as elites, muito bem estabelecidas, continuavam a tratar o país como colônia de exploração. Essas elites não tinham a intenção de tornar o Brasil um lugar maneirão pro coletivo, mas de manter vivo o status quo. A lógica que guiou as elites políticas, econômicas e culturais fundadoras do Brasil é a do extrativismo; físico e moral. Tirar da terra, do povo e por no bolso. Aumentar a quilometragem de latifúndios pelo Brasil afora. Por isso, qualquer tentativa de alterar as coisas por aqui passava pelo crivo de quem não queria, de fato, as coisas tão diferentes assim.

E assim seguimos por décadas. Passamos por uma ditadura sangrenta e altamente corrupta. O Brasil crescia, afinal, estávamos alinhados com as lógicas liberais norte-americanas e as indústrias chegaram ao ápice de sua capacidade produtiva. Porém, em meio a esse crescimento havia uma forte lógica desumana, patrimonial e repressora. A arte brasileira, crítica por essência, foi varrida do mapa pelos coronéis. Nossa capacidade criativa estava toda exilada; que era pra não morrer.

Caiu o autoritarismo e surge a Constituição de 88. Hora da verdade. Hora da mudança. Mas não foi bem assim. O Brasil é grande demais; difícil de administrar e fácil de se perder na burocracia. Tá desenhado o paraíso da corrupção. E assim foi (foi?). Os desvios de verba nos são culturais. A nossa elite política reflete a sociedade. Somos canalhas reclamando e gritando que canalhas não nos representam.

‘Isso não é problema meu’ poderia ser o lema do Brasil. Aqui cagamos e andamos pra vida do outro e temos orgulho disso. Temos orgulho de instituições policiais assassinas. Colocamos a culpa da cultura de estupro nas mulheres. Dizemos ‘alguma coisa ele deve ter feito’ se vemos um negro algemado. Afinal, quando algo — como a miséria e suas consequências — não é um problema nosso, sobra bastante tempo pra achismos de Moema.

Vivemos no século XXI, mas continuamos a explorar o espaço público como se estivéssemos em 1515. Seguimos uma busca incessante por levar vantagem; por fazer a festa e levar a uma parte do ouro pra nossa Portugal particular. Essa nova Portugal são nossas casas, nossos carros, nossas famílias.

Por aqui, dizer ‘hey, sua família é mais especial que aquela ali’, é um discurso que funciona bem. Queremos muito ser melhores que os outros. Se a família inteira for melhor, então, que maravilha. Esqueçamos do tio alcoólatra, do avô sonegador de imposto e dizemos que desgosto mesmo é ter um filho gay, uma filha que decide abortar; uma esposa que abandona o lar.

Por aqui, ainda é o fazendeiro dono de latifúndio que tem razão. Sabe aquele senhor branco, bem rico e com uma barriga enorme cheia de picanha e vinho Bordeaux? Pois bem, ele que manda no congresso e o senado. Ele que decide os fluxos da nossa economia. Ele, o senhor branco, gordo e rico tem nas polícias militares seus melhores capatazes. Desde 1800 e bolinha.

Agora, com toda essa estrutura continuadamente perversa, com toda essa sujeira histórica impregnada nos partidos, nas instituições e na sociedade, você acredita — de verdade — que temos uma solução pra 2018? Não temos. Não há representantes. Não há líderes. Não há ninguém disposto a arrancar privilégios desiguais das elites, refundar as estruturas do país e que, junto com esses objetivos, tenha a simpatia da nossa sociedade.

Eu pensei na hipótese de nomear esse texto com um título como ‘Brasil, país em estilhaços’, mas aí, conforme os argumentos históricos foram surgindo no meio dessa minha redação, refleti. Estilhaçado é aquilo que se quebra. O Brasil nunca quebrou. Nunca. Só quebra aquilo que um dia foi moldado, construído, planejado, estruturado. O Brasil é empurrado com a barriga há 5 séculos. ‘Deixa a vida me levar. Vida leva eu.’ Planejamento é coisa de mané.

O nosso negócio é farra. Mas, olha, na boa: nosso negócio faliu. Procura-se alguém disposto a redescobrir o Brasil.

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