O que podemos aprender com esse filho de 2 mães do Altas Horas

André Lodi soltou o verbo e foi ovacionado num programa da Rede Globo.

E com Bruno, que foi desmoralizado em Rede Nacional. Motivo: Curiosidade.

Hoje cedo vi pessoas compartilhando esse vídeo, como se o garoto tivesse dado o maior XEPO (que aqui em Salvador, significa exatamente isso que aconteceu no video) da semana, merecesse a aclamação pública e um troféu de ouro. E ganhou, o famoso óculos de Thug Life da internet.

O garotinho filho de duas mulheres, foi aplaudido como se tivesse feito um discurso revolucionário. “Uma minoria que quebra com os padrões estabelecidos. Que desconstrói. Que quebra paradigmas.

O que eu vi foi ele sendo aplaudido por ter rebatido, de uma forma super grosseira, a pergunta de alguém que estava apenas sendo curioso. Que em não teve a intenção de ofendê-lo. Isso é tão evidente que se você assistir o vídeo um pouco de calma, vai perceber a mesma coisa. Foi uma pergunta humilde, sem preconceito. Ele apenas não foi feliz em formular a pergunta (timidez? dificuldade em falar em publico?) e recebeu uma patada no meio das costas.

E o loirinho foi aplaudido. Sem nem precisar falar muita coisa. Sabe por que? Por que ele é uma minoria. E por isso ele pode falar o que quiser.

E Serginho achando tudo uma maravilha mesmo.

Vivemos uma época em que temos que tolerar uma série de absurdos verbalizados, por parte daqueles que consideram minoria, como se apenas o fato dela ser minoria a garantisse que contra sua fala, não existe debate. Aceita-se e pronto. E haja de você falar alguma coisa. Vão querer te queimar na cruz, te chamar de mensageiro do satanás, por que você reagiu a fala de uma minoria. Se uma minoria abre a boca, ela tem que ser aplaudida. É quase uma regra social. Não há raciocínio, não há critica. As minorias falam, a gente escuta e não questiona. Isso tá quase virando uma regra.

Só que regras no mundo dos humanos não funcionam. Não somos massa, não pensamos igual.

E longe de mim debater a questão das minorias. Existem perspectivas que só quem vivencia na pele a situação pode falar. Eu legitimo o debate das minorias, porém acredito que precisamos debater com consciência e mais respeito, mesmo quando estamos diante de uma minoria ou fazemos parte dela. Acredito que precisamos considerar que mesmo que uma pessoa faça parte de uma, que ela possa ter uma leitura distorcida da realidade e é função do debate despertar consciência e lapidar conhecimento. Que não dá pra ficar se escondendo atrás do véu da minoria diante de qualquer debate, se fechar atrás dessa perspectiva. A questão tem que ir mais a fundo.

Mas o assunto aqui não é minorias. É o caso do garoto. E é sobre isso que eu quero falar. Raciocinem comigo.

Então o garoto, Bruno, no video, simplesmente pergunta ao jovem minoria o que ele sentiu ao “descobrir”/perceber que estava sendo criado em estrutura diferente das outras. Uma estrutura que era de “mãe e mãe”, não de mãe e pai, como ele vivia a realidade dele e percebia a realidade ao redor dele. Ele foi criado nessa estrutura, observando essas estruturas em seu universo. Em sua rua, com seus amigos, enfim, na realidade em que ele vivia.

Para Bruno, uma realidade diferente dessa, em uma estrutura com duas mães é, no minimo, um fato curioso. E por curiosidade, ele perguntou. Uma pergunta que ok, ____foi muito mal elaborada___, mas que ele tinha a intenção de saber como o garoto loiro percebia essa situação. Fez uma pergunta a alguém que já tem uma resposta na ponta da língua e foi vitima da sua incapacidade de formular corretamente a pergunta.

E é claro que o garotinho loiro sabe da particularidade de sua situação, por que ele também observa o universo ao redor dele.

Ele também observa que a estrutura familiar dele difere das estruturas da maioria dos amigos, que tem pai e mãe. Em algum momento ele percebeceu, se questionou e provavelmente questionou as mães sobre isso. Como ele se sentiu nesse momento, em que percebeu que vivia uma relação diferente, fora do padrão, dentro de casa? Era que isso que o Bruno queria saber.

E ai nosso garoto branco, loiro ~sem querer julgar, mas julgando~, com a maior cara de classe média, o famoso “cheio de privilégios”, com uma mistura de postura defensiva e preprotente, debocha do garoto. Finge não entender a pergunta e, de uma forma cínica, ridiculariza a pessoa a quem lhe dirigiu a pergunta. Ele provavelmente sabe que vive uma situação anormal, sim, e faz-se de vítima diante da situação.

E ai vem a questão principal: Uma estrutura familiar de duas mulheres é anormal? Sim. É anormal.

Anormal, segundo o dicionário, é “Irregular; contrário ao que é normal, habitual, regular / Que foge ou se afasta das normas e dos padrões. / Que transgride as regras e os preceitos de dignidade pré-estabelecidos em uma sociedade.” Então, SIM, uma estrutura familiar composta de duas mulheres e uma criança é sim anormal. E mesmo sendo anormal. Não significa que é uma coisa ruim ou algo pejorativo. Não é uma questão de qualidade. É simplesmente uma estrutura diferente, que foge padrão.

Casal homossexual (fora do padrão), de duas mulheres (mais fora do padrão ainda), criando um filho é sim uma situação bastante fora do padrão. Foge dele. A nossa sociedade, queira você ou não, obedece a estrutura tradicional. E chamar de anormal é apenas reconhecer que ela não faz parte disso. Do comum. É uma modalidade nova de estrutura. Uma novidade. Uma quebra de um padrão que está relacionado a estrutura familiar.

Então, será que existe, de fato, alguma discriminação em perguntar a um outro ser humano, como ele se sente vivendo em uma situação anormal? Acho que você sabe a resposta.

Sabemos, é claro, que essas estruturas, ao se chocar com o habitual, geram conflitos de ideias e debates. Existem pessoas que discriminam e abominam tais relações. Isso é fato. Mas e o garoto que fez a pergunta, ele estava se utilizando dessa carga de discriminação para fazer a pergunta? Eu digo que não. Ele perguntou por curiosidade. E será que ele merecia esse tipo de resposta? Acho que não. Onde é que você acha que está a maior parte da discriminação entre essas duas pessoas? Não vou responder. Eu sou portador da verdade e você tem que acreditar em tudo que eu digo? Também não. Essa é só mais uma perspectiva. O meu ponto de vista da situação.

Mas por que então o garotinho loiro foi ovacionado mesmo?

Essa é a hora que você para de ler e vai pensar.

PS: Qualquer termo pejorativo usado nesse texto foi usado com o a intenção de chamar sua atenção. Obrigado pela atenção.