Década de 2000 — Rap, lírica e estética

Parte I

E aí fellas, como estamos? Seja qual for a sua sensação, te peço para me acompanhar nessa jornada. Por que? Canto rap a 13 anos, estou no movimento Hip Hop a 16. Sou de uma geração que mesclou a utopia de dias melhores e de dinheiro no bolso em virtude da arte.

Lógico que são utopias. Grande parte da minha geração não conseguiu alcançar necessariamente, mas os poucos que ainda se mantém, são alimentados por algo além de um mero desejo pessoal e é disso que tô afim de tratar.

Sem pretensões maiores, mas o rap na Década de 2000 foi tão prolífico, tão rico, tão potente e pouco reconhecido. Seus artistas realmente dedicaram-se em uma forma, uma ideia, um conceito que ultrapassou a barreira de compreensão da época sobre o que estava sendo feito.

Xis, passando por Racionais, indo no Quinto Andar, no desafio do Contra — Fluxo, alimentando o Facção Central com sua Realidade Cruel. E como não bastasse Tarja Preta suficiente, o jeito foi se esconder no Subsolo e proliferar rimas certeiras, reflexivas, realistas e clássicas. No balaio o que que veio? Sabotage!

A proposta é analisar esses discos, dentro das minhas limitações básicas, mas com a legitimidade relativa de ser um Mc, ter escutado todos esses e ter pirado. Pensava num futuro próximo poder ser considerado um momento de revolução estética no rap brasileiro, caso alguém realmente desse bola pra essa época.

Bom, tô dando bola e o convite é chama-los pra fazer parte disso. Digo de antemão que não é uma linha de análise definitiva. Porra, nem se eu quisesse, isso ia ser possível. Vou falar de alguns discos, algumas letras desses discos e naquela de pedir por mais reconhecimento pelo nossos. Entender que estamos reinventando a roda o tempo todo, mesmo sem o reconhecimento devido do poder hegemônico e a nossa miopia.

Quem vem?

Disco de 2002, produzido por KL Jay, Marcelo Munari, Plinio Profeta, Zé Gonzalez e DJ Marco. Foi um disco de afirmação do selo 4P (Poder Para o Povo Preto), tanto no sentido de estética, também no sentido de associações e pessoas envolvidas no processo.

A 4P se associou com uma grande gravadora para lançamento do disco que foi a Warner Music e talvez tenha sido uma das grandes tretas do rap brasileiro no momento. Tentando contextualizar: O Xis já era considerado uma figura controversa por não ter pudores em aparecer na TV aberta.

Lembrando que a relação do rap brasileiro com a mídia tradicional nunca foi harmônica, primeiro pelo próprio questionamento dos artistas pela forma como suas quebradas eram retratadas e segundo que para a mídia tradicional, o rap brasileiro nunca dava o IBOPE necessário para suas páginas e telas.

Xis meio que chuta a porta e aparece no instinto programa “Casa dos Artistas” do SBT, um programa de reality show com artistas e celebridades brasileiras. Prontamente não foi bem aceito pela comunidade do rap, só que o Xis tinha outra visão da parada, uma visão mais empreendedora.

Encarar a mídia, dizer o que se tem que dizer e ainda sim conseguir vender seus produtos era uma meta da 4P. Meta romântica? Uma pergunta ainda hoje sem uma resposta satisfatória, mas o Xis tentou e o auge da tentativa foi o Fortificando a Desobediência.

Com uma estrutura razoável de gravação e produção, Xis pensou de maneira mais coesa uma ideia daquilo que resumia ele no momento e ouvindo o disco, dá pra traçar o seguinte: É um disco que trabalha a afirmação de um preto vindo da COHAB 2 (Sua Quebrada) que tá afim de não só rodar o Brasil, mas o Mundo, com a preocupação com o seus, seja seus amigos ou parentes.

É um arquétipo do preto de periferia com acréscimos. Valorização do território e sua rotina; valorização dos manos que colam junto; valorização dos filhos e a mãe dos seus filhos, incluindo a sua mãe.

Só que tinha uma coisa bem marcante que reverbera em quase todas as músicas. Quem não tá com Xis, que se foda. O Xis deixa bem nítido que aquele era o caminho dele e quem tivesse falando demais, simplesmente, saísse da frente, pois ele ia continuar fazendo o bagulho dele acontecer.

Chapa o Coco começa o disco já com um flow diferenciado, dizendo que o Pretobomba chegou no jogo, chapando o coco de geral sem pedir licença e tem uma sutileza no meio da música. Ele aparentemente para a gravação e perguntar pro engenheiro de som ou produtor se dá pra entender o que ele fala e depois dá um foda-se e continua.

A sacação é: Entendeu minha caminhada? Não? E daí, tô aqui passando que nem trator. Simples e sutil Xis manda o recado pra quem tá enchendo o saco dele desde sempre. E Chapa o Coco é seguida por Pá Doido Pirá 2 onde se descreve praticamente o Brasil todo, reafirmando o preto rompedor de limites, sejam eles espaciais, de conduta ou estéticos. O preto em busca de poder, não só pra ele, mas pros dele.

A Faixa que dá nome ao disco é uma participação de MCs Cubanos, gravada em Havana. Desobedecer às regras impostas tem mais sentido quando você se descobre cidadão do mundo, pois as fronteiras são limitadoras de mercadoria, de pessoas e ideias. E qual país sofre até hoje por se desobediente das regras mundiais impostas? Cuba. Ponto pro Xis.

“Fortifico fico desobediente passando no teste. Duplo Xeque, um salve, um viva a quem merece, vitorioso um povo orgulhoso prevalece e cresce, teste. Se Alamar é a COHAB de seu coração, manos e chicos formaremos uma só nação, vamos em frente e juntaremos a nossa gente, dizem que o mundo é um gueto, então o rap é o nosso continente, estou presente em qualquer canto e não me calo bro, 4P Pretobomba de São Paulo”.

6… da manhã é a rotina de sua quebrada, de um cara comum, trabalhador e que gosta de um rolê. Aí vem a Ei Hey e Abraça Quem Qué. Dois sons dizendo para a nação dos filha da puta cu de porco o básico. Parar de falar mal, parar de copiar e parar de atrasar o rolê. Não tá afim de colar, não atrapalha e nem provoca. Ideia consumada de fato na faixa Foda-se.

Xis além de valorizar seus filhos e os filhos dos seus parceiros e pedir paz na quebrada, denunciado a parada de nos matarmos enquanto os boys tão comendo caviar, aborda uma questão pouco assumida em nossa comunidade: A Depressão.

Sonho meu é o pensamento de um preto deprimido. A depressão na nossa comunidade não é encarada como algo sério, sendo confundida como preguiça ou frescura muita das vezes. Temos que ser sempre fortes o tempo todo, pois precisamos trabalhar, arrumar um troco ou fazer qualquer merda que seja.

O racismo nos prostra. Prostra nossa mente e nosso corpo em função de um mundo onde não somos aceitos em nossa plenitude. Isso nos faz sonhar numa outra direção, numa utopia de direitos básicos garantidos e respeitados. Ser humano para o preto ainda é sonho. Sonho meu, seu, do Xis, dos nossos.

“Tento acreditar que foi um sonho Nossa… pra explicar ou entender vai ser foda, um rolo compressor como se fosse o mais fudido impacto fulminante, Não me restou uma saída ou outra chance não, Por um instante pensei que era aquilo e só, Tristeza desilusão com tudo, caiu meu Mundo, me senti só o pó…”

Xis tinha noção da rejeição de uma parte do rap brasileiro, mas foi corajoso e abriu uma era estética onde outros beberam da fonte e tiveram mais êxito, pelo menos em reconhecimento, vide Sabotage. Xis foi exitoso em fazer um disco de rap além de formulas básicas consagradas e não foi em vão.

Xis foi injustiçado? Foi, sem dúvida que foi, pois ser vendido no rap brasileiro é pena capital. Ele foi vendido de fato? Não sei, só sei que ele defendeu uma proposta e que bom que ele defendeu essa proposta, pois é matéria prima pra quem se ligou.

Rap é poesia, mas também é arte. Rap é mensagem, mas também é arte. Rap é postura, mas também é arte. Rap é atitude, mas também é arte. Xis fortificou a desobediência pra passar essa ideia. Ainda bem…