Como a prática de roubar conteúdo pode acabar com o jornalismo de Natal

Blog do BG: o rei dos veículos parasitas de Natal

Não é nenhuma novidade falar sobre crise no jornalismo e sobre como o atual modelo de negócio de mídia é preciso ser repensado para sobreviver

Muita gente já se dedicou a explorar o assunto e fazer apontamentos sobre como o mercado de mídia precisa se adaptar aos novos tempos da comunicação.

Mas coibir uma prática tão esdrúxula como comum do mercado natalense poderia fazer com que os jornais deixassem de perder parte do faturamento para veículos parasitas.

É de tomar as medidas cabíveis contra quem rouba conteúdo para evitar que o dinheiro investido numa história seja usado por outros veículos para eles se promoverem.

O caso mais recente aconteceu com o Novo Jornal.

Depois de publicarem uma matéria sobre o caso de desaparecimento da menina Sthefany Rhilenny da Silva, de 13 anos, a equipe viu o conteúdo completo do jornal ser copiado na íntegra pelo blog TodoNatalense.

O blog, que é um dos que tem maior audiência no Facebook da cidade com cerca de 200 mil fãs, simplesmente copiou e colou todo o conteúdo no site e usou nas redes sociais para se promover.

O crédito da matéria original ficou só pelo nome do jornal, bem pequeno, abaixo do texto.

Sem pagar um centavo para o autor original do texto e nem para o veículo, que provavelmente gastou uma fortuna com telefone, transporte e estrutura para veicular a notícia. Sem, sequer, colocar link para a matéria completa no portal do jornal.

O autor da matéria, o jornalista Igor Jácome, chegou a publicar no Facebook pessoal um desabafo sobre o ocorrido, em que pede ao editor do TodoNatalense que retire a matéria do ar, sob a possibilidade de entrar na justiça.

  • Na manhã deste sábado, depois da repercussão negativa nas redes sociais, o blog retirou o conteúdo.

Prática antiga

Acontece que a prática ao qual Igor e o Novo Jornal foram vítimas é comum na cidade. É só dar uma olhada rápida no blog TodoNatalense que o usuário vai encontrar uma série de matérias copiadas de outros veículos.

E a prática não é exclusiva dele.

O Blog do BG que é hoje o único empreendimento de mídia em Natal que opera com uma boa margem de lucro cresceu assim: copiando conteúdo de jornalistas profissionais e o promovendo na internet sem pagar nada para os autores originais.

Até hoje, se você entrar no blog do BG, com exceção de um ou outro conteúdo original, há muita matéria copiada de veículos de imprensa — sejam locais, sejam de outras cidades.

O Apartamento 702, que é o site que eu administro, também já passou por problema semelhante.

Nesta semana, o portal AgoraRN copiou na íntegra — e sem o devido crédito à repórter e sem o link para o texto original — uma lista que fizemos sobre as principais tatuadoras da cidade.

Depois que reclamei, eles linkaram a matéria original e derem o crédito à repórter.

Eu também desautorizei que copiassem qualquer conteúdo do meu site sem a minha prévia autorização.

Problema

O problema da prática de copiar conteúdo é que esses veículos gastam dinheiro para uma matéria, que depois é reaproveitado por blogs menores que usam disso para se promover.

Uma história como a da menina Sthefany Rhilenny da Silva, para ser bem apurada, é necessário que você tenha (e pague) um bom profissional de jornalismo e banque custos de transporte do repórter e de telefone para a apuração.

O salário médio de um repórter profissional em Natal é hoje de cerca de R$ 1.500,00, sem falar nos custos trabalhistas.

Um remuneração baixa, em parte, porque os veículos de imprensa estão em situação financeira péssima por manterem estruturas grandes (espaço físico, carro, telefone, equipe de fotografia e reportagem) e terem poucos canais de receita.

Quando outro veículo copia o texto, usa para melhorar os acessos do site ou das redes sociais onde, posteriormente, ele vende publicidade, ele está se aproveitando do custo alheio para gerar lucro para si mesmo.

A prática colabora não só para que os órgãos de imprensa — que já têm as finanças em situação alarmante — percam ainda mais dinheiro, como também para a desvalorização do repórter.

No limite, isso pode significar até mesmo o fim do jornalismo profissional em Natal.

A César o que é de César

Quando eu trabalhei como chefe de redação do Novo Jornal em 2011 presenciei o roubo descarado de um dos furos do jornal pelo Blog do BG. Acionei a direção do veículo e sugeri que a empresa processasse o blog.

O que aconteceu? Nada.

E é o que sempre acontece quando se rouba conteúdo dos grandes jornais da cidade: nada, nem a direção do Novo nem a da Tribuna tomam medidas judiciais.

A falta de uma ação enérgica alimenta a prática de roubo de conteúdo e colabora para o crescimento de veículos parasitas.

Em termos de mercado, hoje a operação do Blog do BG é muito mais rentável do que a operação do Novo Jornal: porque ele não precisa investir em profissionais de jornalismo, nem em estrutura, nem em nada.

Eles copiam e colam o conteúdo, promovem, vendem publicidade, ganham influência e enchem a bucha de dinheiro.

A situação já é tão surreal que o autor do Blog do BG hoje é diretor da TV Assembleia e virou articulista do jornal que ele sempre roubou conteúdo.

Enquanto uns ganham vendendo publicidade e desfrutando da influência que ganharam na cidade com base no trabalho alheio, os dois únicos jornais profissionais da cidade: Novo Jornal e Tribuna do Norte ralam para pagar os salários dos jornalistas e manter a estrutura.

Ou seja, além de terem de enfrentar o desafio de diversificar fontes de receita e vender publicidade em tempos de internet, os grandes jornais ainda perdem ao não tomar atitude contra quem rouba conteúdo e os usa para ganhar dinheiro.

Na prática, eles rasgam um dinheiro que já é escasso no mercado.

É preciso parar de reclamar e agir

Se os jornais de Natal não quiserem ser engolidos pela crise do jornalismo eles precisam, antes de tudo, proteger o direito autoral das histórias que produzem.

Isso vai ajudá-los a não só deixarem de perder dinheiro, como na profissionalização do mercado local e na valorização do profissional de jornalismo.

Claro que só isso não será a salvação deles, até porque as equipes de marketing dos jornais precisam aprender muito sobre como vender publicidade na internet e sobre como diversificar canais de receita.

Mas tomar uma atitude enérgica contra veículos parasitas é o começo. É seguir o exemplo do que grandes redações fazem lá fora.

A Folha de São Paulo, por exemplo, decidiu processar o Senado Federal por disponibilizar a clipagem na dos jornais, na internet, de forma gratuita — o que colabora para a perda de receita da empresa e para a subsequente desvalorização do profissional de jornalismo.

Espero que o caso do repórter Igor Jácome seja um exemplo de uma virada de atitude no mercado local.

Não adianta fingir que o problema não existe: se os jornais querem valorizar o conteúdo que produzem e os profissionais envolvidos no processo, eles precisam proteger o direito que eles têm sobre o uso desse material.

Caso contrário, eles vão continuar rasgando dinheiro em tempos de crise o que ameaça o jornalismo profissional da cidade.