O dia em que conheci um eleitor de Bolsonaro

A grande maioria dos meus amigos e conhecidos mais próximos têm quase a mesma opinião sobre os fatos políticos de hoje.

Com uma ou outra diferença, é unânime entre eles, por exemplo, que Temer não deveria ser o presidente hoje. Ou então que esse crescimento visível da extrema direita tem um impacto ruim sobre o mundo.

Nenhum dos meus amigos próximos nutre qualquer simpatia por um político como Bolsonaro. Nem os mais a direita, que o consideram um radical conservador que traria danos à democracia e à sociedade.

Isso tudo até ontem.

Em uma mesa de uma sanduicheria da cidade, a conversa com essa minha nova amiga ia muito bem. Pensamentos em comum em alguns pontos, bom humor, uma comida gostosa até que — como se quisesse me impressionar — ela falou que era capitalista

Provoquei um pouco mais e ela se disse de direita. Com um certo ressentimento no tom de voz, disse que uma vez a chamaram de “extrema-direita”, rótulo que ela despreza.

Perguntei, de forma irônica, se ela votaria em Bolsonaro. Ela me olhou com seriedade e respondeu que sim.

Os argumentos

Eu nunca tinha conhecido pessoalmente alguém com voto declarado em Bolsonaro.

É claro que já vi as milhares de mensagens de apoio que ele recebe internet afora, mas ouvir isso de uma pessoa mais próxima de mim, pessoalmente, e que tem algumas características em comum comigo, foi um pouco chocante.

É a primeira vez que tenho um contato direto, fora do mundo virtual, com alguém que está além da minha bolha.

Decidi cavar um pouco para entender o porquê de ela considerar Bolsonaro a melhor opção para o país. A ideia era tentar compreender os conceitos que nutrem parte do eleitorado dele.

O primeiro ponto que ela deixou claro é a sua total rejeição ao PT e ao ex-presidente Lula. O primeiro argumento pró Bolsonaro que ela me ofereceu foi o de que ele seria o candidato da direita com maiores chances de derrotar o petista nas próximas eleições.

É o voto útil. Aquele que você usa do seu direito de ir as urnas não para eleger alguém que você tem convicção de que é o melhor para o país, mas de fazer questão de um adversário perca.

É algo que ocorre com certa frequência no Brasil e foi visto na eleição de Dória em São Paulo. Na ocasião, os eleitores mais a direita se uniram em prol do candidato para evitar o segundo turno com o ex-prefeito Haddad (PT).

Decidi perguntar se valia a pena votar em um candidato que faz declarações absurdas contra minorias, que é abertamente preconceituoso, militarista e nacionalista, em nome de, apenas, evitar que outro ganhe.

A segunda resposta está no trunfo que a esquerda usou por anos, mas que hoje foi apropriado pela direita — sobretudo a mais conservadora: ela respondeu que não acha que ele é tão mal assim e que a mídia faz sensacionalismo sobre as suas declarações.

Aqui é onde o fenômeno Bolsonaro parece com o fenômeno Trump nos Estados Unidos.

Querendo ou não, ambos candidatos correm por fora da grande mídia e, beneficiado pela pós-verdade, se tornaram rivais dos veículos de imprensa tradicionais. E, para determinados segmentos, com mais credibilidade que ela.

O que aprendi com esses argumentos

A primeira coisa é que a comunicação da ala mais progressista do país sofre de graves problemas.

Um deles é o hábito de desqualificar a pessoa se ele não concorda com algum dos princípios, ou se ele apenas gosta de se dizer capitalista.

Tudo bem, as pessoas mais identificadas com a direita também gostam de desqualificar. Mas usar essa estratégia tem sido muito mais benéfica para eles.

É infrutífero do ponto de vista de comunicação chamar alguém de “extrema direita” só porque se declara capitalista. Ou chamar de fascista só porque ela tem preferência por determinado político em detrimento de outro. Desqualificar uma pessoa que acha que não entende a importância da luta pelo direito das minorias, por exemplo, é um erro.

Essa desqualificação leva a pessoa a uma radicalização. Ou invés de você tentar trazer o discurso dela para outro ponto de vista, você faz com que ela reforce a posição ainda mais a visão que ela tinha. Esse jogo só contribui para a radicalização dos dois lados. E as coisas ficam cada vez mais feias.

Primeiro é preciso entender que pessoas têm ponto de vistas diferentes. Analisam fenômenos sob óticas diferentes. E que ninguém é necessariamente “mal” ou “bom” porque interpreta os fatos sob um outro olhar.

O debate franco e respeitador, neste caso, é fundamental. Tentar criar pontes, achar pontos em comum, dialogar. Criar empatia é uma arma muito mais poderosa que a simples e pura desqualificação pessoal.

Uma sociedade não é composta só com pessoas que vivem na nossa bolha. Ela é muito mais complexa, estruturada em nuances que é praticamente impossível entendê-la por completo.

A democracia é uma arma para criar pontes entre bolhas diferentes, avançar por meio do diálogo e do acordo. Qualquer coisa fora disso tem raiz necessariamente opressora.

Olhar através do olhar do outro e, usando argumentos que são comuns a ambos, é possível dissuadir uma pessoa de fazer uma besteira tão grande que é, por exemplo, votar em Bolsonaro.

Vim, vi e venci (na real, convenci!)

Óbvio que meu dever cívico era rebater cada um dos argumentos, utilizando como base o princípio que ela se declarava uma capitalista liberal.

Um liberal de verdade é contra um estado forte, se posiciona de forma contrária ao nacionalismo, a possível regime militar e a qualquer intervenção do estado, mesmo que seja na vida pessoal.

Ela não enxergava que Bolsonaro representava exatamente o oposto deste princípio.

Era preciso mostrar isso para essa amiga procurando argumentos em comum com que ela acredita. Não com que eu e minha bolha acreditam.

Convencer alguém é difícil porque não podemos partir do princípio da nossa crença, da nossa interpretação dos fatos. Mas precisamos sair do nosso ego e tentar olhar as coisas com o olhar do outro. E, a partir daí, desmontar uma tese.

Classificar Bolsonaro de fascista, por exemplo, embora seja algo com dois pés na realidade, não surtiria efeito argumentativo. Afinal, segundo ela, a mídia faz “sensacionalismo” com ele. É uma estratégia inútil.

Mas expor que ele defende um Estado forte e centralizador na economia, nos moldes do regime militar, e que esse modelo foi responsável pela hiperinflação dos anos 80 teria mais peso.

Embora o Brasil seja um país racista, machista e homofóbico, em geral, as pessoas não gostam de se admitir ou de se enxergar como tal. Mostrar (mostrar é diferente de acusar) o quanto o discurso dele leva o País a mais preconceito também foi útil.

Ao final da conversa, ouvi aliviado dela a promessa que ia rever seu voto. Ainda bem.

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