Sem acordo entre facções, não haverá paz em Alcaçuz

Os ataques de hoje aos ônibus de Natal são represálias do Sindicato do Crime ao que acontece em Alcaçuz desde o final de semana. A facção criminosa, a maior da cidade, comandava o presídio até sábado, quando foi massacrada por presos do PCC. O resultado parcial são de 26 mortos de um lado. Do outro, sede de vingança.
Uma agente penitenciária me revelou na segunda-feira que o objetivo do ataque era o controle do presídio. Membros do PCC temiam que o Sindicato do Crime fizesse com eles o que a Família do Norte fez em Manaus. Na expectativa de um ataque, eles tomaram a dianteira e se lançaram contra os outros presos. “Barbárie”, foi o que ela me disse, depois de me contar o medo que teve de entrar no presídio no domingo para contar os mortos.
Desde então, não há paz em Alcaçuz. Controle efetivo do Estado nunca houve, as facções operavam em um acordo que foi quebrado no início de 2017 com os ataques em Manaus. Agora estão em guerra, Deus sabe até quando. Para resolver a situação, o Governo decidiu transferir os presos do Sindicato para outras cadeias. Separar as facções. A ideia é, em princípio, boa, mas uma pergunta ficou: por que não transferir os do PCC, já que eles são minoria e seria tecnicamente mais fácil? A resposta do secretário de segurança, Caio Bezerra, me pareceu bem insatisfatória. “Falta de logística”, ele disse ao UOL.
Os ataques a ônibus na noite desta quarta-feira são resultado de toda esta crise. Insatisfeitos com a atitude do Governo e querendo vingança contra o PCC, o Sindicato do Crime ataca ônibus e símbolos do Estado (delegacias e carros de polícia). As mulheres dos presos do Sindicato protestaram em Alcaçuz, temendo a segurança dos presos ligados à facção que ficaram no presídio. Há muito mais que 220 presos do Sindicato do Crime em Alcaçuz, que foram transferidos nesta quarta-feira. O restante ficará à própria sorte, em uma cadeia controlada agora pelo PCC. Não há nenhuma garantia até o momento que outro massacre como o de sábado volte a acontecer.
O que nos resta é torcer. Se as facções não quiserem paz, vai ser difícil o Estado garantir. Os anos de incompetência na segurança pública e na situação carcerária aqui jogam contra e vai ser necessário um bom jogo de cintura para as coisas voltarem a um grau mínimo de normalidade. É bem provável que terá de ser feito algum tipo de acordo com os bandidos para amenizar a crise.
É lugar comum dizer que tudo isso é resultado de erros e ausência do Estado na gestão dos presídios e da segurança pública. Mas é. Erros que não foram cometidos agora, mas que sistematicamente vem se repetindo, há anos, por políticos da situação e da oposição. Em parte porque a classe política nunca quis, de fato, tentar resolver o problema do crime organizado do Brasil. A serpente agora cresceu e vai ser bem mais difícil deeliminar.
Resolver este problema passa desde uma reforma no judiciário. Primeiro, por leis que não joguem pequenos criminosos na mesma cela de bandidos perigosos. Segundo, garantindo que presídios atuem como centros de ressocialização de presos, não como universidades do crime. E terceiro: por uma política de drogas sem a hipocrisia que beneficia apenas o crime organizado e o tráfico.
Quando isso vai mudar? Talvez nunca saberemos.
