[Fanfic] DWTH Temp. 1, Ep. 2: 1888 & A Liberdade - Parte Um

ANTERIORMENTE: ESTRANHAS, ESTRANHAS CRIATURAS PARTE 1 & 2

DOCTOR WHO, SEUS PERSONAGENS E IMAGENS SÃO DE PROPRIEDADE DA BBC. ESSA FANFIC NÃO TEM FINS LUCRATIVOS.

CONCEITOS E PERSONAGENS, CRIADOS NESSE ARCO, SÃO CRIAÇÕES DE VICKY CRISTINA (@vickycristinasantos). OUTROS SÃO CRIAÇÕES DE FABIO FARRO.

ARTE DA CAPA POR MARIA MACHADO.

1888 E A LIBERDADE Parte UM

Escrito por Vicky Cristina

A Tardis voa pelo o vórtex do tempo e espaço. Dentro dela, Marcela olha e aprende alguns controles da máquina junto do Doutor. Já Vicky está olhando os livros que estão na Biblioteca, quando abre um livro antigo e cheira as páginas, sorrindo de boa, com os olhos fechados para aproveitar o momento. O Doutor e Marcela olham a cena e estranham.

Doutor: Isso é alguma parafilia estranha por ácaros velhos ou algum costume da sua Terra?

Marcela: Se for costume… Acho que não é de São Paulo…

Vicky ri baixo.

Vicky: Não é nenhum costume, é um hábito… Eu gosto do cheiro dos livros, principalmente antigos, como esse… (Ela diz fechando uma edição antiga de Pablo Neruda e alisando a capa) Mas ainda não achei livros sobre o Brasil ou algo que fale sobre a história do Brasil, tem algum Doutor?

Ele pensa um pouco e olha em volta.

Doutor: Tem, sempre tem… Só um momento e eu já vou encontrar a pilha que tem livros de autores brasileiros e outras coisas sobre o Brasil, tem um que tem até uma réplica bem fiel da carta de Pero Vaz de Caminha para o rei de Portugal, de quando o Brasil foi descoberto. Um bom livro, muito bom… (Ele tagarela, enquanto ia abaixando e olhando pilhas e estantes).

E ele continua procurando, então acha.

Doutor: Ahá!

O grito dele assusta Vicky que estava procurando o lugar certo para colocar o livro e manter a ordem alfabética da prateleira enquanto Marcela olhava uma do outro lado com obsessão por organização ouvindo o Doutor falando sozinho, tendo certeza que era a mais normal ali. O Doutor pega um livro grande, de capa de couro marrom, assoprando a poeira enquanto Vicky e Marcela se aproximam a tempo de esvaziar a mesa para ele colocar o livro e ir abrindo.

Doutor: Esse livro tem registros da história do Brasil feitos através de cartas, bom, na verdade cartas que foram trocadas e perdidas ao logo da história…

Marcela: Cartas de quem?

Doutor: De pessoas importantes, lógico!

Marcela: E pra quem?

Vitória ia olhando as páginas sendo folheadas, arqueando a sobrancelha.

Vicky: Acho que roubar correspondência alheia é crime em qualquer lugar no tempo e espaço, não? (Ela pergunta tornando aquilo um quase interrogatório).

Doutor: Ah, vocês duas! Eu não roubei a correspondência, eu as ganhei de alguém que trabalha num lugar que tem cartas históricas!

Vicky e Marcela: Aham! (Elas se entreolham, dizendo e concordando com a cabeça enquanto o Doutor procurava algo nas páginas do livro).

Ele folheia enquanto as duas olham por cima do ombro dele.

Vicky: Peraí! (Ela fala alto enquanto coloca a mão, parando a virada de páginas do Doutor e voltando uma página, sorrindo).

Doutor: O que é? (Ele diz, franzindo o cenho).

Doutor e Marcela olham a página, que era composta por uma página velha, escrita numa linda caligrafia antiga.

Vicky: 13 de Maio…

Doutor: Tá, e o que tem demais? Seu aniversário?

Marcela: É o ano, 1888… Abolição dá escravatura no Brasil, não é isso?

Vicky: Sim, sim! (Ela diz, sorrindo para os dois) Já pensaram no que pode ter significado aquele dia para os escravos libertos? Vocês já imaginaram como deve ter sido bom para eles saber que seriam livres?

Os dois olham para ela, sem entender muito.

Vicky: Doutor, podemos ir para esse dia?

Ele pensa um pouco e coça a cabeça.

Doutor: Talvez seja possível, até porque não depende só de mim, sabe como a Tardis é temperamental às vezes, ela pode gostar ou não, depende dela…

Vicky sorri e encosta-se a um dos controles da Tardis.

Vicky: Hey, garota, pode me ajudar a realizar esse sonho, por favor?

10 de Maio de 1888, Rio de Janeiro. Ao pousar, Vicky é a primeira a abrir a porta para sair da Tardis, empolgada, e logo se depara com uma floresta de árvores nativas, de troncos altos e folhagens vastas. Enquanto isso, o Doutor a observa encostado na batente. Marcela corre para fora da Tardis, mas é parada pelo o Doutor.

Marcela: O que foi?

O Doutor sorri e faz um gesto com a mão dizendo a ela para esperar.

Doutor: Ei, Vicky!

Vicky: Sim, Doutor?

Doutor: Não está esquecendo nada? (Ele diz, olhando para ela de cima a baixo).

Vicky: O quê? (Ela diz, olhando para si mesma sem entender).

Doutor: Essas não são roupas adequadas…

As duas olham, com reprovação, para ele.

Doutor: Para alguém do século 19! (Ele diz, olhando confuso para elas) Não me olhem assim, nem eu estou vestido para esse século!

Eles entram na Tardis e, momentos depois, saem já vestidos com roupas apropriadas para aquela época. Vicky e Marcela com vestidos longos, enfeitados, cheios de rendas, espartilho e babados; enquanto o Doutor usava um conjunto masculino, elegante e sóbrio. Caminhar com aquelas armações gigantes ao redor dos saiotes é um exercício de paciência, o que causa certa impaciência nas duas: para passar pela porta, tiveram que revezar e serem empurradas pela abertura. Marcela corre em direção da Vicky, ambas compartilhando da mesma empolgação por causa da primeira viagem das duas na Tardis. Vicky caminha na frente, em passos rápidos, empolgada.

Vicky: Onde será que estamos?

Doutor: Eu não sei, não vejo nada que possa nos dar alguma referência…

Marcela pára e olha para sua esquerda.

Marcela: Peraí, pessoal, eu acho que ouvi algo para o lado de lá… Vem, acho que tem gente pra lá… (Ela diz, seguindo para o lado que indicou, fazendo Vicky parar e seguir com ela, o que obrigou o Doutor a seguir com elas também).

Após alguns minutos de caminhada, eles se veem perto de uma plantação, onde homens, mulheres e crianças estavam trabalhando. Vicky sorri, até ver aquela cena, onde pessoas estavam usando roupas em farrapos e tinham a pele com marcas dos maus tratos. Ela olha para Marcela, que também ficou perplexa e olha para o Doutor.

Vicky: Doutor… Acho que tem algo errado… Eles ainda… São escravos… Será que chegamos cedo demais?

Doutor olha para ela e depois para Marcela, olhando as pessoas.

Doutor: — Talvez seja verdade… Acho que podemos perguntar para alguém. Venham, vamos procurar respostas…

As duas seguem o Doutor, que caminhava pelas beiradas da plantação, em direção a um casarão colonial e pelo caminho mais escravos trabalhando aqui e ali em condições terríveis. Quando chegam ao pátio em frente ao casarão, ouvem gritos e coisas batendo, até que uma criança negra sai correndo do casarão, sendo seguido por uma mulher branca.

Mulher Branca: Peguem esse ladrãozinho, açoitem esse negro imediatamente!

O garoto corre para o pátio, onde é interceptado por um homem branco, alto e forte, que segura o garoto pelo braço e o levanta.

Homem Branco: Seu negrinho ladrão! Agora você vai pro tronco… (Ele diz, aos gritos).

O menino se debate, pedindo ajuda, enquanto o homem leva o garoto para um mastro no meio do pátio, o amarrando com uma corda que havia ali. Marcela e Vicky olham horrorizadas enquanto o homem terminava de amarrar o garoto. Ao terminar a amarração, o homem se afasta alguns passos e ia desatando um chicote de couro trançado da cintura, ajeitando o instrumento para então dar a primeira chibatada.

Homem Branco: Vai se arrepender de ter feito isso negrinho!

Aquilo estava fazendo o sangue de Vicky ferver, então ao ver o homem levantando o braço, ela abraça as costas do menino, levando a chicotada no lugar dele. Ela solta uma exclamação baixa de dor, o que fez o Doutor e Marcela interferirem, já que nenhum dos dois achou mesmo que ela seria corajosa (ou maluca) de interferir dessa forma. Ambos se colocam entre Vicky e o feitor.

Doutor: Pare com isso seu monstro, como pode ser tão desumano? É uma criança!

Marcela: Seu monstro! Vicky você está bem? (Ela se vira para olha-la, enquanto Vicky ainda estava abraçada ao menino, com a marca do chicote na pele já avermelhada,).

Vicky só começa a soltar o garoto quando Marcela a toca no ombro. Ela se levanta e faz uma meia careta, enquanto começava uma discussão entre o feitor de escravos e o Doutor.

Feitor: Você não pode se intrometer, não manda nessa fazenda!

Doutor: Você não pode bater numa criança, isso é errado e desumano! Eu quero falar com o seu chefe imediatamente!

Vicky e Marcela soltam o garoto do tronco, e depois de avaliarem se ele está bem, o garoto sai correndo e se perde no meio dos escravos que estavam se aglomerando para olhar a discussão, até que as duas se viram para olhar o feitor, que bradava com o Doutor.

Feitor: Eu sou o chefe desses escravos, se o garoto roubou, ele merece ser castigado! A sinhá mandou!

A mulher branca que havia ordenado as chibatadas estava observando tudo, ainda sem interferir. Vicky olha a mulher na sacada do casarão e olha os outros escravos, toca no ombro do Doutor que estava prestes a responder.

Vicky: Doutor, somos criminosos aqui… Invadimos uma fazenda, precisamos sair antes que as autoridades cheguem…

Marcela: Ela está certa, isso era crime antigamente e provavelmente aquela mulher vai reagir e chamar ajuda, temos que ir… Antes que nós sejamos colocados naquele tronco…

O Doutor olha as duas, olha o homem e fecha a cara em seguida.

Doutor: Nós ainda não acabamos isso, eu vou voltar e vamos resolver isso, seu monstro…

Vicky e Marcela seguram no braço do Doutor, o afastando dali, para então seguirem a estradinha de terra que levava até a saída da fazenda.

Durante o caminho, o Doutor ia reclamando.

Doutor: Aquilo não é certo, mas não podemos alterar o fluxo temporal, seria difícil consertar, mas ele merecia uma lição…

Vicky fica mais calada, mais pensativa, enquanto Marcela reparava nos dois.

Marcela: Tem certeza que estamos na data certa? Às vezes a Tardis pode ter nos enviado para o dia errado por acidente, isso pode acontecer, não pode Doutor?

Doutor: Sim, pode sim, mas ela não costuma errar. Ela sempre tem um bom motivo quando faz algo do tipo… Mas por que ela fez isso?

Vicky: Talvez tenha sido para o menino não apanhar…

Doutor: Talvez, nunca saberemos…

Marcela: É um gesto nobre, mas ainda não sabemos em qual dia nós estamos, não é? E além do mais…

Ela interrompe sua fala após ouvir um ‘psiu’ vindo do meio do mato, todos param e olham na direção da floresta que margeava a estradinha de terra. O som se repete, quando o Doutor avista e indica, escondido junto a uma árvore, o mesmo menino que quase havia apanhado anteriormente os chamando com a mão. Os três se entreolham e maneiam a cabeça em positiva, aceitando se aproximar. Quando eles estavam perto o suficiente, o menino sorri com cara de sapeca.

Menino: Senhora, minha mãe quer lhe agradecer, por ter me ajudado e não terem deixado que me batessem… Vem, vou te levar até ela…

Vicky olha os dois, em seguida o menino e concorda com a cabeça, então segura o vestido para subir a barra e ia adentrando por entre as árvores, sendo guiada pelo menino. Marcela e o Doutor também seguem logo atrás dela, cada um com sua dose de desconfiança pela situação ser um tanto estranha. Seguem alguns minutos floresta adentro, até encontrarem uma mulher negra de meia idade, carregando um bebê amarrado numa faixa transversal junto ao corpo, recostada próximo a uma árvore.

Ela sorri e acena para os quatro, enquanto o menino corre para perto dela e a abraça. Os três se aproximam e ela faz um cumprimento antiquado.

Anastácia: Prazer, senhoras e senhor… Gostaria de agradecer por terem salvado meu filho, ele só estava com vontade de comer um pedaço de bolo e a sinhá não queria dar, então ele pegou… Eu avisei para não fazer, mas o Anísio é teimoso que só… Meu nome é Anastácia… Agora estamos indo embora, vamos fugir da fazenda antes que algo pior aconteça…

Vicky: E enquanto a abolição? Vocês não vão ser libertos?

Anastácia: Não sinhá, dificilmente nós seremos libertos, os grandes senhores não libertam escravos, se não, ninguém cuida das terras e faz os serviços pesados sinhá…

Doutor: Sabe em que dia estamos Anastácia?

Anastácia: Não sei não sinhô, não sou letrada…

Marcela: Então estamos ainda no período da escravatura, mas sem abolição a vista…

Vicky: Sabe em que lugar nós estamos?

Anísio: No Rio de Janeiro sinhá, capital do Brasil! E a sinhá fala de um modo estranho, é do Brasil mesmo?

Vicky sorri e olha os dois.

Vicky: Não, somos… Err… Da… (Ela diz, maneando a cabeça).

Marcela: Inglaterra!

Doutor e Vicky: Isso! Inglaterra…

Doutor: E viemos falar com a Princesa, para que ela assine a libertação de todos vocês…

Anísio: Viu mãe, eu disse que eles eram bons, eles vão nos libertar! (Ele diz, sorrindo).

Anastácia: Ah, meu filho… (Diz fazendo um cafuné leve na cabeça raspada do garoto.) Tudo é possível… Só precisamos ter fé… Vamos rezar para que eles consigam, né? (E olha para os três) Obrigada, mas agora precisamos ir… Escravos fujões não duram muito tempo, logo nos encontram e é pior…

Vicky: E pra onde vão?

Anísio: Para o Quilombo…

Anastácia: Sim, fica longe, tentamos ir antes, mas pegaram meu marido, em seguida a Vitória nasceu… Ele morreu e… Nós ficamos mais um tempo até a menina crescer mais e aguentar a viagem, então aconteceu o que aconteceu e ficamos…

Logo, eles ouvem barulhos de passos, vozes e então todos se alarmam.

Anastácia: Temos que ir. Vamos, filho. Obrigada, sinhás e sinhô! Vamos Anísio! (Ela diz, segurando na mão do menino, ambos se embrenham no mato, correndo).

O Doutor, Vicky e Marcela se entreolham.

Marcela: Acho melhor começarmos a correr…

Vicky: Ótima ideia! Vem Doutor, vamos!

Ela pega a mão do Doutor, para puxa-lo mata adentro, junto com Marcela e os três correm. Eles ouvem os sons enquanto mãe e filhos iam sumindo na floresta, temendo por suas vidas.

Vicky: Doutor, temos que sair daqui…

Marcela: É, acho que seria uma boa ideia correr, não sabemos quantos são, nem como vão agir…

Doutor: Mas o que há com vocês? Tudo o querem é correr e se esconder! (Diz ele já um pouco impaciente).

Então, Vicky segurava no braço do Doutor, enquanto caminhava um pouco apressada, com Marcela ao lado dela.

Vicky: Acho que já bagunçamos demais por aqui, não podemos arriscar mais nada por hoje, vamos indo… Precisamos descobrir em qual ponto da linha do tempo estamos para ajustar a Tardis e ir para o dia certo… Isso se nada impedir que abolição aconteça…

E os três começaram a caminhar para voltar à estrada que seguia em direção à cidade, afinal, naquela época qualquer estrada desembocava na cidade, onde os mantimentos eram comprados para reabastecer as fazendas. Vicky tenta organizar os pensamentos enquanto cozinhava naquele vestido cheio de frufrus, O Doutor conversa com Marcela sobre como o tempo parecia mais fresco no Rio de Janeiro naquela época, em comparação aos dias atuais onde as duas estavam acostumadas com mais calor, afinal, a presença das árvores que ainda eram predominantemente espécies nativas auxiliava a manter o ambiente mais úmido e agradável. A estradinha seguia mais um pouco até eles finalmente chegarem ao centro de uma vila de zona cafeeira, onde havia os barulhos de pessoas conversando, cavalos e alguns carros puxados por bois, escravos carregando sacas de café de um lado para o outro e guardas de uniforme azul e branco, armados com mosquetões a pólvora. Vicky solta o braço do Doutor discretamente, todos se entreolham.

Marcela: (sussurrando) Vamos perguntar a quem sobre a data?

Doutor: Acho melhor um comerciante…

Vicky: Se fizermos da forma mais discreta, talvez o guarda seja uma boa ideia… Aí já podemos tentar descobrir algo sobre a Lei Áurea…

Doutor concorda com a cabeça, então os três seguem para perto de um agrupamento de guardas, que conversavam sobre coisas rotineiras do trabalho. Vicky sorri e um deles faz uma mesura a ela.

Vicky: Boa tarde, cavalheiros! Poderiam, por gentileza, nos dar algumas informações?

O guarda olha para ela, estranhando, franze o cenho e olha para Marcela, em seguida olha para o Doutor.

Guarda: O senhor é dono dessa escrava? Ou ela é mucama de sua filha? (Ele pergunta, em seu português coloquial e voz propositalmente engrossada, para dar seriedade ao momento, demonstrando que suas conclusões eram as mais óbvias para o momento, de que o Doutor era um senhor de terras, Marcela sua filha e Vicky seria a escrava de um dos dois).

Marcela olha para Vicky de soslaio e faz um gesto com a mão.

Doutor: Ela não é escrava de ninguém, ela é uma mulher livre e dona de si mesma…

Guarda: O sotaque do senhor é estranho, sois de onde? De algum estado ermo do reino?

Marcela: somos da Inglaterra, somos do estrangeiro e viemos falar com os seus políticos… Viemos a mando da Rainha…

Guarda: Qual rainha?

Marcela: A Rainha da Inglaterra, lógico!

Guarda: E qual seria essa rainha?

Marcela começa a se embaraçar, tentando se lembrar.

Vicky: A Rainha Vitória, rainha do rainha do Reino Unido da Grã Bretanha e Irlanda…

Doutor: Sim, e Imperatriz da Índia!

O guarda franze o cenho olhando os três.

Guarda: Certo… Não parecem ser locais mesmo… Então, em que posso ajudar esses moradores do além-oceano, que representam a Rainha Vitória?

Vicky: Gostaria de saber a data do dia de hoje, por gentileza…

Guarda: Hoje é dia 10 do mês de maio do ano de 1888, algum motivo especial?

Vicky: Não… Por nada…

Marcela: Ah sim, mais uma coisa, onde ficam os seus políticos?

Guarda: Depende, a maioria deles fica no Senado, mas vossa princesa e a família imperial ficam no palácio da Quinta de Boa Vista, ela está representando a realeza enquanto seu pai, vosso senhor, Rei Pedro II se ausentou para resolver assuntos inacabados…

Vicky: E estamos longe do palácio?

Guarda: Não, mas entrar é praticamente impossível, vossa princesa é uma mulher que deve ser protegida… Sabem, a instabilidade nas relações entre senhores de fazendas e os políticos tem gerado problemas para vossa majestade…

Doutor: Que tipos de problemas?

Guardas: Existem abolicionistas e os não abolicionistas, e temos apoiadores de ambos os lados aqui na República… E por falar nisso, são de terras além-mar e tem estadia por aqui? Por acaso a vossa princesa já foi avisada que chegaram?

Doutor: Não houve tempo de avisar, viemos com urgência, nossa rainha pediu que trouxéssemos uma mensagem à princesa.

Vicky olha para Marcela discretamente, torcendo para que o guarda engolisse aquela história estapafúrdia que estava sendo contada, por sorte, ele aparenta não ser tão inteligente.

Guarda: Será um tanto complicado, audiências devem ser marcadas com antecedência, e a fila de espera está em quase três meses… (Diz ele olhando diretamente para o Doutor).

Vicky olha para Marcela.

Vicky: (sussurrando) Não temos todo esse tempo, né?

Marcela concorda com a cabeça.

Marcela: Obrigada pela informação, tenha um bom dia…

O guarda faz uma mesura para os três, voltando para perto de seu colega, para comentar como os ingleses eram estranhos em chegar sem uma comitiva chamativa ou em se interessar por assuntos como a escravatura. Vicky olha para Marcela e o Doutor enquanto caminham.

Vicky: Isso não está certo, já existe a lei do ventre livre e a lei que alforria os sexagenários, mas não faz o menor sentido a Tardis nos colocar três dias antes da abolição e ninguém falar sobre o assunto! Será que eu fiz alguma besteira quando ajudei o garotinho e alterei a linha do tempo, a ponto de prejudicar o fluxo normal da história?

Doutor: Espero que não… Quero pensar que ela nos mandou aqui por um motivo especial…

Quando Marcela ia falar sobre o assunto, eles ouvem barulhos de vidros e coisas quebrando, em seguida um homem é lançado voando porta a fora. Os três dão um passo para o lado para liberar o caminho para um segundo homem que voa pela porta, então olham para o estabelecimento de onde eles haviam vindo: Hotel França. Pelas portas abertas era possível ouvir risadas altas, música e conversas animadas. O Doutor sinaliza com a cabeça para seguirem até lá, o que ninguém questiona, pois as duas também queriam saber por que cargas d’água aqueles homens haviam sido expulsos dali, numa época onde a educação era tão importante e era um dos pilares da sociedade. Ao se aproximarem da porta, ouvem uma voz feminina com um forte sotaque.

Alexandra: E aqueles outros que forem contra, podem pedir à Bastien uma carona para fora via aérea!

O bar explode em risadas, ao chegarem à porta, veem um modesto, porém elegante bar composto de um grande balcão de madeira, mesas espalhadas aqui e ali, uma banda tocando uma melodia animada, enquanto uma mulher negra se posiciona atrás do balcão, pegando um copo e bebendo. Ela olha os três na porta e arqueando a sobrancelha, sorrindo de canto.

Alexandra: Oras… Forasteiros… (Ela fala mais alto) Sejam bem vindos, entrem… Espero que a cena de dois brancos voando para fora do bar não os tenha chocado, não admito senhores de escravos na minha casa. Sou uma mulher livre, e aqui todos somos livres… (Diz ela revelando que a voz ouvida anteriormente lhe pertencia).

Vicky não consegue retribuir o olhar de surpresa que seus companheiros trocavam, pois está perplexa e ao mesmo tempo feliz em ver uma mulher negra numa posição melhor do que Anastácia que encontrara mais cedo, então a mulher convida novamente, com a voz mais altiva.

Alexandra: Entrem! Eu sou Alexandra e esse é o Hotel França, centro da liberdade no Rio de Janeiro!

Fim Da Parte Um.

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