A velha vida

Estou almoçando na praça de alimentação de um shopping qualquer de São Paulo. Hoje é sábado, véspera do dia dos pais. A maioria das mesas estão ocupadas por aqui. Na minha frente tem um corredor com um fluxo grande de pessoas passando, nos dois sentidos. Na sua maioria são pais e mães segurando crianças pelas mãos, com passos rápidos. Algumas levam carrinhos de bebê e dificultam um pouco a passagem. Existem também alguns casais de mãos dadas e pessoas sozinhas de cabeça baixa, mexendo nos celulares. As vozes são constantes, assim como o barulho de papéis e talheres no plástico e louça. Ouço alguém falar de política. Presto mais atenção no barulho por mais uns instantes e chega a incomodar um pouco, apesar de já ter me acostumado com ele.

Aí algo me chama a atenção. Entre o fluxo bagunçado, percebo um casal de idosos, andando mais devagar do que o resto. Como dois caracóis num formigueiro agitado. Se fosse analisar, diria que não pertencem àquele ambiente. Param por um instante, aproximam seus rostos e cochicham algo imperceptível. Se voltam para frente e continuam seus caminhos. Não parecem incomodados com a presença das pessoas, apesar de algumas parecerem ligeiramente irritadas com eles ali, atrapalhando a via.

Então me permito uma breve intromissão em suas vidas. Minha primeira impressão é de que vivem uma rotina cuidadosamente planejada. Provavelmente vão dormir cedo. E devem se alimentar seguindo alguma dieta específica também. Ambos tem mais de 70 anos, claramente. Devem ter filhos já encaminhados na vida. Possivelmente netos, que os visitam nos finais de semana que podem. Devem passar a maior parte do tempo sem falar muita coisa. Não é preciso, quase tudo já foi dito durante 7 décadas. Me parece que não tem muitos problemas para resolverem e a aposentadoria os garantem um final de vida pelo menos confortável. E ainda tem a sorte de terem um ao outro. Não estão a par do universo que se retroalimenta nas redes sociais nem almejam o modelo mais novo do Iphone. Sequer devem saber o que é um Iphone. Me parecem incapazes de usar um aplicativo. Se estiver em inglês então, esquece. São limitados pelos seus corpos e talvez pelas suas mentes. Não fazem sexo há muito tempo. Eles simplesmente existem neste espaço de tempo atual e não tem mais muito tempo de existência. Estão esperando o inevitável tranquilamente, já que não existe muita opção.

Ao pensar nesta última possibilidade, sinto um incômodo, uma melancolia. Como seria aguardar o fim da sua existência, agora tão próximo? Estaria eu tranquilo, assim como imagino eles? Porque junto da certeza da morte vem a incerteza de como se viveu, certo? É possível olhar para trás e se sentir satisfeito com tudo que foi construído? Das escolhas não feitas? Satisfeito a ponto de abraçar o fim sem arrependimentos?

Volto a pensar no casal em questão.

Como será que se conheceram? Foi amor à primeira vista, ou algo construído ao longo do tempo? Tiveram outros relacionamentos antes desse? Durante talvez. Será que realmente se amam? Acredito que sim, ou não estariam juntos.

E qual seria a formação deles? 50 anos atrás não existiam muitos dos empregos de hoje. Professores? Talvez. Reparando bem, ela tem cara de professora de inglês. Talvez praticassem algum esporte, como faço atualmente. E parar de fazer algo que gosta por conta dos limites do corpo?Deve ser difícil lidar com isso.

As visitas ao médico devem ser constantes agora. Assim como os exames. Não querem a surpresa de um câncer em estágio avançado. Já estão preocupados demais em manter os órgãos vitais funcionando. Fora as doenças mentais, que apagam a sua identidade, como o Alzheimer. Ouvi dizer que é uma das piores.

E convenhamos, 70 anos é muito tempo. Quais tipos de conhecimento adquiriram nesse período? Foram conhecimentos passados adiante? Espero que sim. Eles devem ter muitas coisas para ensinar, como um baú com incontáveis tesouros largado no fundo do mar, esperando impacientemente ser descoberto por um mergulhador interessado. Eles estão estagnados sem poder fazer muito, enquanto o mundo avança de forma brutal e cada vez mais rápido. Consigo sentir a angústia da situação. É a vida como sempre conhecemos escapando por entre os dedos.

E o tal sentido da vida? Não se pode escapar do pensamento. Para alguns ele chega mais cedo, outros pensam sobre até tarde demais. Mas pensam. E se existe alguém que chegou mais próximo de revelar este sentido da vida, são eles. Porque tiveram a vida toda para encará-lo e quanto mais perto do fim se está, mais reflexões são feitas a respeito da vida. Sendo assim, chegaram a alguma resposta? Talvez sim. Pode ser que tenham elaborado uma resposta convincente o bastante para poderem encarar o fim de forma tranquila.

Será mesmo o fim da vida o fim de todas as coisas, realmente?

Volto para a minha realidade. As pessoas continuam seus caminhos de forma apressada, desviando de todos em um processo automático.