porque amar e dar vexame pode ser a solução dos seus problemas

aconteceu comigo a minha vida inteira: eu vi o amor destruir a capacidade das pessoas de amar. e amar, óbvio, pode significar muitas coisas. tantas coisas que pode ser complicado (e vai ser) dizer o que é amor e o que não é, porque a gente realmente se perde. se perder também pode ser uma forma de amor.

a márcia foi minha babá desde a minha adoção e tinha esquizofrenia. ela não tomava os remédios com regularidade e tinha surtos frequentes. havia sido abandonada pela família biológica ainda pequena e, vinte anos depois, foi atrás deles que, novamente, a recusaram. negra, pobre e doida, quem vai querer? numa dessas estabilizadas, casou com o dono do asilo que morava. mas os filhos do cara odiavam ela e, depois de levar mais da vida, foi abandonada por mais uma chance de amor. quando ela finalmente decidiu que não aguentava mais incomodar ninguém com a sua própria existência, fez o sinal da cruz e entrou no mar. uma morte poética e cheia de amor, algo que talvez nunca tenha sentido na vida.

desde o ano passado, acompanhei histórias diversas de casais que tiveram relacionamentos finalizados por motivos insuportáveis. uma amiga enjoou do namorado depois de alguns anos. outra, descobriu que ele, na verdade, gostava de homens. um amigo meu trai tanto a companheira que me impossibilita de sequer citar o assunto quando estamos juntos.

“você está mais que certo! se não está feliz, vai insistir nesse chiclete por que? sai dessa, tem muito peixe no mar. se não te agrada mais, algo está errado. o que importa é a sua felicidade!”. esses e outros conselhos foram dados por mim para tantos que cheguei a acreditar em mim mesmo e nunca duvidei de que estava tudo bem… até eu entrar em um relacionamento instável e sair dele um ano depois e perceber uma coisa: está tudo errado.

sim. com o mundo, sim, com as pessoas também. mas, principalmente, com os relacionamentos, com as virtudes, com as buscas de sintomas, com as buscas internas. a garantia de que as coisas estão “indo como devem ser” e que “tudo tem um tempo certo para acontecer” nos levam a conceitos como o de amor líquido, que sistematiza que o que sentimos é um amor “até segundo plano”, já que podemos usufruir dele enquanto a satisfação for o bem-mor. teoricamente, não é o que fazemos com tudo que estraga? trocar por algo novo? não. fazíamos isso há cinquenta anos atrás. é difícil dizer, hoje, pessoas que trocam de aparelho celular porque ele quebrou, por exemplo. trocamos por um novo porque o nosso, comprado há meses, já está ultrapassado.

imagine que relacionamentos (o meu incluído) acontecem por meio de aplicativos. você vai numa loja e leva um sutiã pra casa, ou uma cueca. e usa. usa o tempo que quiser. aí, você emagrece vinte quilos, os peitos diminuem, a cueca fica frouxa. e você não precisa sair da sua cama pra trocar aquela roupa íntima: alguém entra na sua casa e troca pra você. sim, pode parecer dramático e de fato é, mas são comparações que fazem muito sentido se você refletir um pouco.

os relacionamentos seguem a base de que as coisas tem um tempo, quando, na verdade, os conceitos estão invertidos. esse texto não simboliza um desespero, nem uma manifestação de que o amor deve ser eterno. mas, com a rapidez e a pressa para ser bom o suficiente para si e para os outros, tudo que lemos, hoje, é: SEJA FELIZ. SAIA DO EMPREGO. MUDE O APARTAMENTO. TROQUE DE CASA. NÃO TENHA FILHOS. SEJA INDEPENDENTE. LARGUE A ESPOSA. TROQUE O MARIDO. e isso é 100%. é ótimo. finalmente, uma capa de revista tende a dizer mais sobre o que você não precisa fazer do que o que você precisa fazer. uma menina de quinze anos acaba querendo saber muito mais sobre algum assunto do seu interesse pessoal do que como conquistar um garoto mais velho. e um cara passa a se valorizar mais e valorizar mais a figura feminina, talvez. são processos.

mas, e os processos que não são tão factuais assim? o amor NÃO é líquido. apaixonar-se não acontece várias vezes na vida. o amor não acontece várias vezes na vida. mesmo que cada um seja cada um, as coisas não são tão simples quanto o famoso “troco por outros”. se você tiver dúvidas sobre a sua decisão, seja ela qual for, a pressa não deveria ser um fator determinante para ninguém. porque você está lidando com outra pessoa. e SIM! RELACIONAMENTOS ENVOLVEM.. DUAS PESSOAS! RELACIONAMENTOS CONVERSAM EM DIÁLOGOS! NÃO MONÓLOGOS! E O AMOR NÃO É LÍQUIDO! PORQUE SE ACABA PRA VOCÊ, NÃO NECESSARIAMENTE ACABOU PARA OS DOIS!

veja: a menina que enjoou do namorado não está errada. a culpa de não ter dado certo também não é da outra, já que tinha um ex homossexual. e o cara que trai a namorada toda quinta-feira também não está errado. são processos. e os processos, por mais individualizados que sejam, estão dentro de um relacionamento que deve ser democrático porque parte do caminho da dualidade, das duas vertentes, do diálogo. por isso, se você está com alguém, tudo o que fizer vai refletir no outro em algum momento. se você é gay e namora uma mulher, se você trai com a mulher do chefe, se você acorda na sexta e não aguenta olhar para o que vê ao lado… isso tudo, é sim, problema que precisa ser resolvido em conjunto.

não entrando no mérito da empatia, mas, chegamos ao início do texto: amar é dar vexame, sim. porque a sua justificativa de que o amor é líquido pode desestruturar outrem, pode aniquilar uma confiança construída com base sólida, pode destruir o psicológico de uma pessoa que você, teoricamente, ama.

e aí, o que você ouve? SUPERA. que tal a gente pensar que o outro é um lixo? VIDA QUE SEGUE. vamos acabar com tudo? ACEITA QUE DÓI MENOS. é pra frente que se anda, não é mesmo? CHEGA DE SOFRER POR ESSE AMOR RUIM!

o amor não é ruim— o conceito é ruim. porque não existe mais conceito. todo o esforço aplicado é “anulado” com a frase “eu fiz tudo que podia”. fez, mesmo? fez. então, ok. quem tem que “aceitar” é você, que decidiu terminar um namoro que não fazia mais sentido pra você, mas que talvez para o outro não seja tão simples de esquecer. “a gente não tinha futuro”. será? você conseguiu uma máquina do tempo para ver o que acontecia na sua vida em três anos ou é mais fácil sofrer agora porque tem medo de sofrer depois?

dê vexame SIM, se você descobrir que seu namorado é homossexual. mas pense nos motivos dele para estar em uma relação assim. pense na situação esdrúxula que pode causar caso tome atitudes precipitadas. pense no sofrimento do outro ao enjoar de alguém. e dê vexame SIM se você for aquele que motivou tal enjoo. dê muito vexame se o relacionamento não der certo, se você ainda amar aquela pessoa que foi embora, se você ficar preso em uma paixão que dura anos mas que nunca foi correspondida como deveria, ou nunca foi sequer correspondida. o vexame serve, entre outros motivos, para liberar todas as angústias, para tornar-se uma pessoa livre de amarras, livre de tensões, livre de amor líquido.

foda-se o que os outros pensam. não existe alguém “que não consegue superar” e sim pessoas insuperáveis. não existe alguém que “só passa vergonha e se humilha”, e sim, alguém que ama tanto que talvez não saiba o que fazer com o que sente. não existe alguém “sozinho”, e sim, alguém que talvez, desesperadamente, gostaria de estar com alguém indisponível. liberte-se da culpa: amar nunca deve ser sinônimo de sentir-se inferior. ninguém é melhor que ninguém.

e o fato é que ninguém está errado em pensar em si e tomar as atitudes que bem entender para a sua evolução pessoal, como relacionamento, como indivíduo e como ser disponível e vulnerável à sentimentos. porém, você NUNCA, e eu repito, NUNCA (!) deve julgar alguém por não aceitar algo que aconteça (in)voluntariamente em uma relação. o aceitar, o superar, o reagir, o seguir, esses sim, são processos próprios, específicos, feitos no singular.

não confunda a sua necessidade de estar sozinho com o processo alheio de ajuste alheio. muitos demoram para achar o caminho do amor. e muitos acham o caminho do mar.