Relato de Caso #1

Daqui exatamente quatro dias, completarei um mês de estágio na Clínica Médica Dermatológica de um “Hospital Terciário” ou de “Alta Complexidade”. Isso significa que os casos que chegam até lá, são, normalmente, patologias com prognósticos um tanto quanto complicados.

Desde o dia que iniciei meus trabalhos, passei por experiências únicas que, para pessoas que não sabem escrever, como eu, fica difícil consolidar em forma de texto. Porém gostaria de tentar compartilhar com vocês o caso do Sr. Lázaro*.

Mas antes de tudo: O que é estar em uma Clínica de Dermatologia de um Hospital de Alta Complexidade?

Dermatologia, resumidamente, é uma especialidade médica onde é estudada e realizada intervenções em doenças que acometem o órgão mais extenso do ser humano: a pele.

Ter um problema no coração, por exemplo, como uma Hipertensão Arterial já te causa muitas modificações no dia-a-dia e no seu psicológico. Você precisa readaptar seu cardápio/dieta, precisa colocar mais alarmes para tomar seus medicamentos na hora correta, além de algumas sextas-feiras perdidas por precisar ir ao consultório fazer aqueles exames de rotina. Porém, isso tudo pode ser camuflado. Se você não contar a ninguém, a sua Hipertensão será um segredo somente seu e do seu coração (e do prontuário).

Agora imagina ter uma doença na pele, que já foi definida como o órgão mais extenso do nosso corpo. Imagina que, além do pacote fechado de modificações de alguém com Hipertensão, você ganha de brinde a exclusão social.

Exclusão social sim, pois infelizmente vivemos em uma sociedade onde a beleza é exaltada. Se você não estiver dentro do padrão julgado como normal, você é descartado. E eu percebi isso mais claramente com meus pacientes dessa Clínica.

Como tinha dito no início, os indivíduos chegam em um estágio avançado da patologia. Dá um Googleada em “Pênfigo Bolhoso”, por exemplo, e procure por imagens. Não sejamos hipócritas: isso assusta. E o medo, meus caros, afasta.

E o ato de afastar que me aproximou do Sr. Lázaro. E após essa pequena introdução, vou contar a história dele a vocês.

Esse paciente, de início, não estava sob meus cuidados. Mas em um certo dia, durante o plantão, senti cheiro de cigarro vindo de algum leito. E era o dele. Incrível como toda a equipe se revoltou e quis dar uma bronca nele. Ninguém queria saber o porquê dele estar fumando (é óbvio que ele sabia que não podia, né?). Mas os revoltados estavam todos ocupados, então o caso ficou para a Estagiária. Ainda bem.

Fui até o quarto. Éramos dois desconhecidos em um momento constrangedor: ele havia feito algo errado, e eu estava lá para explicar o óbvio.

Mas nada do que eu deveria ter dito saiu. Ele estava chorando, desolado. Foi quando nosso vínculo se estabeleceu.

Sr. Lázaro é um jovem da terceira idade, pai, marido, pedreiro, natural de Alagoas. Veio para São Paulo há 30 anos, a procura de uma vida melhor.

Tudo estava conforme o planejado: lutou para conquistar seus bens, trabalhava mais de 18h/dia, suou, chorou, porém montou sua Oficina, que era seu sonho desde criança. Casou com a mulher que se apaixonou no pagode e teve filhos.

Até que um dia um pedaço de madeira fincou sua mão.

Há dois anos e meio, Sr. Lázaro está com uma ferida na mão que não cicatriza, onde por negligência, foi diagnosticada tardiamente como um tipo de Câncer Maligno de Pele.

A mão sempre foi seu instrumento de trabalho, e Sr. Lázaro está prestes a perder. Perder o trabalho significa perder uma parte da vida que ele construiu com tanto esforço.

A mão sempre foi seu meio de comunicação e expressão de afeto. Sr. Lázaro conquistou sua esposa assim, convidando-a para dançar pagode, segurando a mão dela. Conquistou sua esposa dando cafunés e dengos. E também está prestes a perder. E perder a esposa significa perder outra metade da vida que ele construiu com tanto amor.

E essa perda toda, além de funcional, é social. A ferida tem cheiro forte e um aspecto fora do padrão, com uma dor de escore 10, que não passa nem após doses cavalares de morfina. As pessoas não ficam ao lado dele. As pessoas têm medo dele. As pessoas acham que é contagioso.

As pessoas excluem ele.

Essa exclusão já fez com que Sr. Lázaro pensasse em desistir da vida. Inclusive naquele dia em que conversamos por minutos, ele realmente estava decidido em parar o tratamento. Mas fizemos um trato: eu não desistiria dele, e ele não desistiria de si mesmo.

Desde então, muitas coisas mudaram.

Sr. Lázaro possui uma força interior e uma esperança invejável. Mesmo em dias de profunda tristeza, ele sempre tem uma palavra para te motivar. Nada o faz cair. Ele sempre está de cabeça erguida.

Nos momentos de trocas de curativo, ele sempre está sorrindo. “Ainda bem filha, que tem alguém fazendo curativo em mim”. A positividade contagia.

É por isso que estou contando essa história a vocês. Essa história de altos e baixos, mas sobretudo de esperança e positividade. Que é possível sim enxergar coisas bonitas em tempos de caos, de perdas. Que um pingo de empatia e amor ao próximo pode mudar o destino de uma pessoa.

Eu cuido da patologia dele, mas quem está cuidando da minha alma é ele.

Sr. Lázaro é um jovem da terceira idade, pai, marido, pedreiro, natural de Alagoas. É isso tudo e mais: é guerreiro.

*Sr. Lázaro autorizou que publicasse o pedaço da história dele, junto com a foto que tiramos. Obrigada por nos inspirar.
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