A VIRADA DA ESQUERDA E O ERRO DA NOVA DIREITA NO TWITTER

No dia 11 de março, às vésperas das manifestações nacionais a favor do impeachment, o cenário para o movimento #nãovaitergolpe era de derrota por 7x1. O registro disso pode ser lido na reportagem que colaborei com o Zero Hora (http://bit.ly/1Sj51yt). 40 dias depois, no Twitter, o termo impeachment, no período de 09h do dia 10/4 ao dia 16/4, bateu 1.027.561 tweets, destes 582.999 são compartilhamentos (RTs). E há 159.062 usuários únicos publicando sobre o tema em português. Há muita robotização, é verdade, e, desta vez, o número de bots amarelos é três vezes maior que o dos da turma vermelha (juntos são um pouco mais de 10 mil bots, ou seja, 5% da amostra). Da dinâmica dos grafos de RTs, conclui-se: houve uma virada completa no comportamento da opinião em rede em torno do #impeachment no Twitter. Penso que a ocupação contínua das ruas, desde o dia 18/3, seja o fator primordial para explicar por que o núcleo robotizado vermelho conseguiu contaminar uma diversidade tão grande de usuários, atraindo-os para a sua perspectiva, que oscila entre o #naovaitergolpe e o #foracunha (à medida que os contra-impeachment-não-governistas aderiram ao termo em função da rejeição ao presidente da Câmara). Esse avanço vermelho nas redes provocou uma “envelopagem midiática” na rede amarela, que, sem grandes atos de rua, teve que se socorrer no compartilhamento de notícias dos veículos ou de tuiteiros da imprensa nacional — como Eliane Cantanhêde, Caio Blinder, Lauro Jardim, Diego Escosteguy, O Globo Política, Isto é, Veja, para citar os maiores. Compartilhar notícias de determinados veículos serviu para tentar criar um clima de já ganhou, já que registros de imagens e textos de atos de ruas estavam escassos no lado do movimento #impeachmentjá. Essa envelopagem criou, até certo ponto, um simulacro útil, pois os veículos que estão mais próximos à dieta de leitura informativa dos manifestantes pró-impeachment ajudam a criar entusiamos para que essas pessoas participem dos protestos de domingo. Mas basta o clima midiático mudar para que a rede arrefeça. Um dos efeitos desse clima de virada da esquerda foi fazer os esquerdistas mais incrédulos com as dinâmicas do governo voltarem a se aproximar, num primeiro momento para lavarem roupa suja, num segundo para, em uníssono (mesmo com desconfiança), viralizarem opiniões contra o impeachment. O terceiro momento acontecerá na segunda. O certo é que o clima contra Cunha e Temer é pesado, uniu muitos simpatizantes de esquerda. E, agora, na hora em que o impeachment precisa de uma carga viral mais intensa, o lado que está em vantagem é daqueles que formam opinião contra a saída de Dilma.

Eu particularmente tenho uma hipótese: o comportamento da opinião em rede contra os ladrões de merenda, contra os ladrões da natureza (a turma da Samarco — que inclui aí um imenso PMDB) e contra os ladrões da democracia (a turma do Cunha) turbinaram, lateralmente, movimentações esquerdistas contra o impeachment, porque criaram um clima favorável a discursos para lá de radicais. Na História, o curto-circuito é capaz de queimar todo sistema elétrico. Seguimos.

Rede de co-ocorrência de hashtags. Sentidos do impeachment em disputa.