O DIA DE DATENA DA IMPRENSA PMDBISTA

Durante a greve metropolitana do dia 28/4, segmentos da imprensa viveram dias de Datena (lembra da enquete do apresentador em 2013? (então reveja: http://bit.ly/2p1jqWB). Isto é, criaram uma linha editorial em total descompasso com o que vivia 35 milhões de brasileiros que pararam no dia da greve. Diante disso, fiz um pequeno exercício, meio banal, meio óbvio. Extrai todos os posts publicados pelo jornal O Globo, no Facebook, entre os dias 21 a 29 de abril. Somados, o jornal publicou 171 posts. Extrai 10.325 comentários destes posts. E comparei as palavras mais frequentes nas notícias do jornal e nos comentários de seus leitores. Extrai informações do veículo por identificar que houve um catarse crítica contra ele e o Jornal Nacional, antes dos atos. E também porque isso parece ser um padrão no sucesso das manifestações mais à esquerda: obter mudança no padrão editoral de jornais.

NOS POSTS

O jornal carioca mantém o seu noticiário no “Rio”, que é a palavra presente em 31 dos seus 171 posts (que vão de assuntos da cidade aos internacionais). ‘Rio” é uma obviedade esperada. O que não é: o rompimento do silêncio sobre a paralisação grevista. Das 10 palavras mais populares em suas manchetes, 7 estão diretamente associadas com a paralisação do dia 28: ‘manifestantes’, ‘vivo’ (de ‘ao vivo’), ‘presidente’, ‘país’, ‘greve’, ‘sextafeira’, ‘reformas’ e ‘Centro’. Ou seja, se a greve não fosse forte, essas palavras não seriam o tom maior da semana. A solução econtrada para a derrota semântica foi retomar um velho alvo predileto dos editores do O Globo: os ‘manifestantes’ (identificando-os como baderneiro, vândalos etc), um eufemismo encontrado para não se usar o termo ‘grevistas’. A greve era tratada, na véspera, como “movimento contra reformas” (https://glo.bo/2pChSq6).
Não deu certo. Contabilizando todo o engajamento nos posts (curtidas, comentários e compartilhamentos), o resultado nao foi bom para os editores do jornal. Depois do viralizante tema do game “Baleia Azul”, a notícia mais bombada da semana no Face do O Globo tinha o seguinte conteúdo: “Órgão divulga nota assinada por procurador-geral legitimando movimento [grevista]” (lei aqui: http://bit.ly/2oYewZJ). E o comentário mais popular nesse post: “só pro dória que não. daí é vandalismo. mas contra a dilma era legítima. dane-se o dória. total apoio aos trabalhadores da prefeitura de sp que vão aderir a greve.”
Ou seja, o poder semântica dos editores não foi correspondido por sua audiência. Perdia de goleada dentro de casa. O público iria para uma outra direção.

NOS COMENTÁRIOS

O público da fanpage já dava sinais do enorme abalo sísmico que a greve metropolitana estava a provocar em suas vidas, o que fez mudar os protagonistas nos comentários das notícias de O Globo. Uma evidência disso foi o léxico predominante nos comentários: ‘greve’, ‘país’, ‘Temer’, ‘reforma’, ‘Lula’, ‘dinheiro’, ‘políticos’, ‘direito’ e ‘Centro’. Todos, sem exceção, associados diretamente aos acontecimentos grevistas, na sexta.
A conversação dos comentaristas revelou seu alvo predileto: Michel Temer, demonstrando o crescimento contínuo do acúmulo de indignação contra o “presidente” ao mesmo tempo que uma franja de comentaristas percorria as postagens, em desespero, para entoar o argumento da sua fanfiction: ‘a greve é culpa do Lula”, termo também inflado pelas notícias acerca da liderança do petista em pesquisa do Datafolha. A fanfic virou anedota.
Merece também alguma atenção os três comentários mais populares naquela semana na fanpage do jornal fluminense. São eles:
1- “Mereço um descontão porque meu primeiro fora Termer foi quando não votei na Dilma. 😏” (2134 likes)
2- “E quem falar fora temer, fora Lula, fora Dilma, fora aécio, fora renan ganha 100% de desconto?” (1825 likes)
3- “dane-se! é greve. corta ué. não é folga. pra cima dele. total apoio aos funcionários que aderirem a greve (1167 likes)”.
Os dois primeiros são relativos a essa notícia publicada no blog do Ancelmo Gois (https://glo.bo/2pRfbQY). Isso no dia 22/4. Ambos demonstram que Michel Temer é completamente recusado pela audiência do jornal, cujos editores se equilibram na corda bamba da defesa do governo pmdbista, recebendo uma marcação cerrada de seus próprios leitores, distantes da defesa de qualquer petismo. Eessa recusa do governo Temer pôde ser rapidamente capturada por forças de oposição online no dia da greve. Quem vitamina os likes desses comentário é um certo centro opinativo (que agora se localiza na ideia do ‘fora temer, fora todos’). Não por acaso o terceiro comentário ganha popularidade em terras áridas de grevistas, em reação a uma ameaça de Temer (https://glo.bo/2pAEVRW), no dia 26/4.

CONCLUSÃO

Mais do que óbvia: o jornal viverá dias pesados se insistir em lutar contra a notícia. Na véspera, ao tentar criar um clima de medo, um clima de terror contra a greve, acabou, ele próprio, ajudando a atiçar o formigueiro popular. Daí que o noticiário conservador pode estar no meio de uma enorme contradição: se se cala, a audiência das redes detona sua credibilidade. Se noticia tentando criminalizar um “movimento contra as reformas”, amplia o alcance deste, já que a popularidade da máfia política de Brasília está muito abaixo do desprezível.
Há ainda uma outra hipótese, que penso poder ser defendida com mais acurácia: a temática da corrupção adentrou na greve metropolitana, à medida que as reformas trabalhistas e previdenciárias passaram a ser associadas à atuação de muitos marginais que legislam sobre o futuro do povo brasileiro. O tema “corrupção” se desloca de mãos, novamente, confundindo, contradizendo e animando os setores progressistas do país. A ver.

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