Merdas acontecem

Depois dos 40 anos de idade nas costas e um longo histórico de porcarias sendo consumidas ao longo dessa jornada, chega uma hora que a dita máquina começa a falhar. E não estou falando dos órgãos nobres, considerados "vitais", não — e muito menos, do nosso amigão parceiro das horas mais divertidas! Estou falando do conjunto “intestinos-reto-ânus”.

O ato de cagar é um dos mais (senão o mais) vergonhosos atos naturais, do ponto de vista do ser humano: posição ridícula, vulnerável, excreção do que não nos serve mais, cheiro enfastiante, intragável, nauseabundo.

Cagamos em nós mesmos assim que nascemos e, se passar da média geral de envelhecimento, sinto muito meu amigo — mas são grandes, as chances de voltar a usar um fraldão no final da sua vida. Grandes chances.

Cagar é desagradável (ainda que 99% das pessoas dêem uma boa olhada na sua criação depositada no vaso, para ver se nasceu bonito e saudável, antes de abortá-lo em definitivo, em uma estrondosa descarga de água). Cagar é barulhento, na maioria das vezes e, se você não estiver bem hidratado — você corre o risco de experimentar um pouco, da sensação de parir, por alguns momentos.

Talvez por essa razão estética, não vemos cenas defecais antológicas nas películas de cinema, com lindas mulheres sentadas no vaso sanitário, fazendo a força comum a todos, para expelir o barro alimentar. Talvez por isso — e só por isso — os momentos destas moçoilas no banheiro resumem-se à uma depilada nas pernas longilíneas ou, mais comumente, à esfregação sabonetal pelo corpo, embaixo de uma bela ducha quente. Sim, esteticamente concordamos, que cagar, é feio.

Enfim, não vou segurar mais, o inevitável:

Há uns dois anos comecei a sofrer da síndrome do intestino irritável. Pela experiência das minhas observações, percebi que alguns temperos e principalmente, a bendita gordura, são os botões FIRE & DESTROY do meu esfíncter. Como eu já sei que essa merda (sorry, trocadilho acidental) é tão incontrolável tal como qualquer grande força da Natureza, eu evito comer na rua (pelo menos, não sem ter a certeza de que terei uma “zona de escape” segura por perto).

Então, um dia aconteceu a seguinte situação: Ao visitar uma cliente, as coisas enrolaram, e ela não pode me atender no horário marcado. Como a residência dela era nos fundos do seu escritório, ela me disse:

- Já está na hora do almoço, Fábio. Me desculpe, te fiz esperar bastante, né? Mas olha, vamos almoçar em casa e durante o almoço discutimos o assunto.

Como eu já estava de saco cheio pela espera, nem me atentei pelo fato que eu tinha um intestino que sofria de TPM diária, e que essa situação não seria uma boa idéia.

Por uma porta lateral, seguimos por um corredor, saímos do escritório e lá estava a casa dela. A cozinheira já tinha colocado parte da comida na mesa e assim que nos viu, anunciou o cardápio, com toda a animosidade do mundo, típica de quem adora cozinhar:

- Hoje tem comida mineira, Dona Fulana!

Que maravilha! O que poderia ser o paraíso para uns, para mim era o mármore do inferno. Comida mineira é a comida mais gordurosa do mundo e era tudo o que o meu intestino tinha à disposição, para tornar-se um Vesúvio, em escala reduzida.

E lá estava a mesa posta, lindamente: feijoada, torresmo, couve refogada com bacon e alho, costelinha de porco, farofa de torresmo, calabresa e ovo, feijão tropeiro…

Manjar dos deuses para a maioria — para mim, sáporra é veneno!

Pensei em dizer imediatamente que eu seguia uma rígida dieta macrobiótica (mas não daria certo, pela pança adquirida prazerosamente, ao longo dos anos) ou ainda, eu poderia dizer, aproveitando o fato de que era budista, que estaria me integrando com milenares tradições orientais, e assim comer apenas arroz, mas até a merda do arroz tinha bacon picado com cebola, frita. Fritíssima em boa e lustrosa, gordura suína.

Servi a menor porção que eu pude servir, e juro que parte do cérebro tentava compreender o que a cliente dizia e a outra parte, tentava controlar o estômago para que não enviasse a comida para o intestino até que eu estivesse em uma Green Zone. Mas era inútil. Eu sentia-o remexendo, despertando, da sua hibernação matinal.

A merda (desculpe-me mais uma vez, pelos trocadilhos inevitáveis) é que quando você NÃO quer comer algo, a pessoa sempre INSISTE para que você coma MAIS, não é?

- Nossa, você comeu tão pouco. Não gostou? Coma mais um pouco, está delicioso!

E você, na sua sabedoria neurolinguística de relacionamento cinestésico com a cliente, ao querer agradá-la para fechar o negócio, acaba finalmente cedendo aos seus apelos. Te compreendo, Rei Herodes — sinto muito, João Batista!

E assim, foi. Comi até a merda da sobremesa: pasteizinhos de queijo com goiabada, obviamente, FRITOS. Na altura do campeonato, até marmelada com creme de leite, eu já tinha empurrado, goela abaixo.

Mal deu cinco minutos após a ingestão dessa sessão de laxante na forma de compostos alimentares e todas as guerras conhecidas e travadas pela humanidade estavam ocorrendo, dentro de mim. A temperatura do meu corpo começou a baixar, um suor frio começou a desabar sobre o meu rosto. Minhas mãos começaram a ficar geladas como o cadáver que eu me tornaria, se não colocasse a bomba nuclear prestes a explodir, para fora do meu corpo. Internamente, meu sistema nervoso insistia em transformar meus músculos em britadeiras e ao mesmo tempo, sentia um Mike Tyson boxeando cada dobra intestinal, que eu possuía.

Nem me lembro quais desculpas eu disse, para a cliente. Só me lembro que falei que o almoço estava muito bom, que eu precisava ir imediatamente — pois eu tinha outro compromisso, e que os detalhes finais eu enviaria por e-mail, em seguida.

Subi na moto, com uma dúvida cruel na cabeça: Minha casa ficava a quase oito quilômetros dali — e o escritório, apenas umas oito quadras, de distância. O problema é que eu tinha menos tempo que candidato a vereador de São Paulo, em horário político gratuito — para tirar aquela bomba, de dentro de mim.

Mas espere, a sorte contava ao meu favor! Era Sábado, o escritório estava fechado e eu estava com a chave!

Parti imediatamente para lá. Durante o trajeto, pressionava violentamente minha bunda contra o assento da moto, em uma tentativa desesperada em procrastinar, o inevitável.

Nem me lembro como deixei a moto na rua. Para dizer a verdade, nem me lembro como cheguei lá VIVO, sem cair da moto, sem atropelar, ou ser atropelado por alguém. Minhas mãos suavam e tremiam tanto, que eu não conseguia acertar as chaves das duas portas que separavam o ridículo, do alívio privado.

Entrei correndo, abri a porta do banheiro, abaixei as calças e caguei.

Mas não nessa ordem.

Sim, meus amigos. Quando eu coloquei minhas mãos no BOTÃO da minha calça, exatamente bilionésimos de segundo antes dos músculos das minhas coxas flexionarem para a posição ideal do cagatório, eu simplesmente comecei a cagar — VIOLENTAMENTE — na minha calça.

Observem atentamente, a imagem abaixo.

Imagem ilustrativa

Instintivamente, arriei o jeans (gritando NÃO, NÃO, NÃOOOOO!!!! sem parar) e caguei pelo chão do banheiro todo. Caguei na tampa do vaso, caguei no assento do vaso, caguei no suporte do vaso. Shit everywhere.

Minha cueca, calça jeans, meias, tênis. Uma merda só. Merdamerdamredamerda.

Meu cu me traiu. Uma grande injustiça, pois sempre honrei-o, nunca introduzindo nenhum objeto, pessoa, ou animal dentro dele, mantendo toda sua honra e glória…para um dia, ele me fazer uma merda dessas…

Sim, vocês estão rindo muito. Hoje eu rio muito, também, quando me lembro disso. Mas na HORA, com aquela cena de fossa séptica à céu aberto -quero dizer, em banheiro fechado - que estava ali, exposta na minha frente e pior, eu fazendo parte dela, a coisa era outra. Eu chorava, de raiva.

Lembro-me que cheguei a beliscar meu corpo várias vezes. Até peguei uma moedinha e girei-a no chão, para ver se não estava em um inception em um sonho, na mente de alguém, mas ela girou…e caiu na merda.

Não tinha jeito. O negócio era encarar a realidade: tirei minha roupa, abri o box do banheiro e…MAS QUE MERDA: NÃO TINHA CHUVEIRO! Desativaram o chuveiro e transformaram o espaço do box em um arquivo morto.

Eu no escritório, só de camiseta pólo, e mais nada. Todo o resto da minha roupa, contaminada pela minha própria merda.

Olhei para um abridor de cartas e pensei em cometer suicídio. Quando estava com a lâmina no pulso, eu lembrei que tinha um corredor lateral, com um tanque de roupas. Iria lavar minha roupa e tomar um banho ali.

Lavei minhas roupas, tomei um banho com detergente o máximo que pude e parti para a obra, de limpar o banheiro.

Durante esse ato, eu cheguei a duas conclusões:

- Merda quanto mais se mexe, mais se fede.
- Merda é como sangue. Nunca parece que está 100% limpo.

Fiquei lá, nu, limpando a merda toda com uma tensão infernal, pois se alguém aparecesse no escritório (eu era o único homem que trabalhava lá) e se me pegassem nu, com aquele cheiro todo empesteando o local, a frase “não é isso que você está pensando” não ia colar muito, não. Ademais, pensar o quê daquela merdaiada toda? Não amigos, isso seria a merda das merdas.

Terminei a limpeza, gastei um tubo inteiro de desodorizante aerosol pelo escritório, coloquei um saco de lixo com quase dois rolos de papel higiênico dentro no dispenser de lixo e fui para casa, derrotadíssimo, roupas ensopadas, tênis encharcado e com aquela cara de cachorro-que-caiu-da-mudança.

Para minha sorte, ao sair do escritório começou a chover torrencialmente, e assim minha desventura escatológica passou praticamente desapercebida, pelo caminho: nunca me senti tão bem, ao tomar banho de chuva, em cima de uma motocicleta.

Se algum dia você achar que fez uma cagada — por favor, lembre-se de mim. Acredite, isso não é nada.