Guia de Sobrevivência Política para os Próximos 4 anos

Olá, eu sou do futuro. Venho compartilhar experiências, frustrações, lições e aprendizados de quem já passou pelo cenário político turbulento no qual o Brasil acabou de se jogar — de cabeça, no rasinho, e com um sorrisão aberto — e, talvez, possa ajudar a salvar seus cabelos, sua esperança e, claro, sua sanidade.

Em 2016, Hillary Clinton e Donald Trump disputaram a presidência dos Estados Unidos da América. Depois de ter passado toda a administração Obama, e um pedacinho da Bush, morando em Los Angeles, eu vi a tempestade chegando. Eram duas versões de um país em rota de colisão: 1) uma focada na continuidade socioeconômica, na postura boa praça (com limites, claro) e manutenção do status quo; 2) outra calcada na tragédia anunciada, no país destruído e que precisava ser reconquistado (do negro na Casa Branca e dos liberais do Mal). Sim, é uma versão simplista da coisa. Só serve para mostrar duas mentalidades COMPLETAMENTE DISTINTAS e sem nenhum ponto em comum, exceto por existirem no mesmo país.

Pois bem, Donald Trump ganhou no Colégio Eleitoral, Hillary Clinton ganhou no voto popular, Trump assumiu a presidência e o pesadelo começou. E é daí que vem as lições capazes de evitar muito sofrimento nos primeiros seis meses do novo governo brasileiro. Vamos a elas:

  1. Sim, o outro lado ganhou. Se é o pior, melhor, ou seja lá o que, não vem ao caso. O ponto é, "eles ganharam". E eles vão jogar na cara, estão felizes, celebrarão como final de futebol e vão botar a medalha no peito. O que há de errado aqui? Nada. O cenário é bipolar, um lado festeja, o outro sofre. Mas é preciso aceitar: eleição confirmada, presidente em vias de ser empossado, nação sob nova direção. Ficar dizendo "não é meu presidente", "não aceito", não isso ou não aquilo, não altera em absolutamente NADA o cenário. Por que digo isso neste manual de sobrevivência? Por uma razão simples: cada vez que você ouvir algo, ou bradar sua contrariedade, uma pessoa sofre: você. Há modos mais inteligentes de se fazer oposição — e festejar, claro — pense nisso, não em fazer, ou rechaçar, pirraça.
  2. O ciclo de notícias ainda está só aquecendo no Brasil, com as mudanças ministeriais, algumas nomeações estranhas aqui e ali. Depois da posse, todo vai ficar ABSOLUTAMENTE INSANO, por uma razão simples: todas as decisões do novo governo soarão absurdas, abusivas, descabidas, nocivas e etc. A imprensa vai cair matando (falamos mais disso abaixo) e, se você vive nas redes sociais, especialmente no Twitter, seu dia vai virar um inferno de indignação. Em 2017, muita gente resolveu acompanhar tudo que acontecia, para ficar informado, fazer oposição e etc, mas o resultado generalizado foi depressão, desespero e uma sensação crescente de incapacidade, afinal, como os votos já foram dados e tudo se oficializou, o governo VAI fazer o que bem entende. Foi para isso que se elegeram. Escolha bem as fontes (de ambos os lados, menos o canal que, eventualmente vai virar a Fox News, afinal, nem os lobotomizados que assistem aquilo ali merecem), leia as matérias INTEIRAS e só por um tempo limitado (1h, no máximo) todos os dias. Manchetes de Twitter são feitas para causar indignação e alavancar engajamento social, não caia no truque e mantenha sua saúde mental.
  3. A imprensa norte-americana (e em breve a brasileira) percebeu a cagada que fez ao dar palanque para o Trump, mas quem está no inferno tem mais é que abraçar o capeta. E eles precisam gerar cliques, ou ganhar assinantes (o New York Times fez uma campanha pesada para atrair assinantes, depois de sofrer ataques de Trump que o chamou de "failing NYT"; o resultado foi impressionante). Por essas e outras, a cobertura (de todos os lados) foi redirecionada para o impacto imediato, para o absurdo (mesmo quando a razão é inegável, como em casos de nomeação de pessoas contra o Meio Ambiente ao respectivo ministério nos EUA e, no Brasil, a mistura de Agricultura e Preservação, por exemplo), para fazer todo mundo reagir "olha, que ridículo este presidente/partido/decisão". Isso estressa demais e colabora para a criação de um estado de espírito de sítio, um bombardeio constante de tudo que se tem como bom e certo (se você está no "lado perdedor", termo usado sob protesto e apenas para pontuar o argumento). Sim, a guinada para a direita vai engatar a ré do aspecto social e acelerar até bater no muro? Vai. Mas quando este circo se arma, a mentalidade de guerra constante só tem um efeito: minar esforços e convicções. "Ah, mas eu sou resistência, não desistirei". Querido/a, depois dos primeiros 3 meses de loucura, decisões para lá de questionáveis e as inevitáveis trapalhadas (afinal, estamos falando de política e não existe político perfeito), não há defesa ou luta constante que resista. É muita porrada, é muita derrota, é muita gente comemorando os retrocessos. Então, aprenda com cada notícia, decisão ou fato que você discorda, não necessariamente responda indignado nas redes e se prepare para o próximo disparate da lista (sim, serão vários… POR DIA).
  4. Redes Sociais: "ah, o presidente foi eleito pelo whatsapp… temos que lutar nas redes". Então, Hillary tava ganhando nas redes, o Eduardo Jorge também tinha uma bela base na disputa pela prefeitura e Scott Pilgrim era o filme favorito da internet… o que os três tem em comum? Fracassaram retumbantemente. Nada contra usar as redes para declarar princípios, reunir quem pensa como você e fazer algo a respeito, porém — e isso não deveria mais ser novidade — REDES SOCIAIS NÃO MUDAM VOTOS e não alteram o cenário. Pensemos assim: existe um universo finito de usuários do Twitter, a maioria já sabe em quem vota — ou no que acredita — , então ficar falando ali não altera esta percepção. O Whatsapp mudou o cenário por ter ido direto a gente que nunca chegou perto do Twitter e, por erro de TODOS os envolvidos no processo político brasileiro ao longo das últimas décadas (é, não tente se eximir; se chegou nisso, foi cagada geral), estava propício a aceitar as manipulações, os factoides, as "fake news" e as invenções da campanha vencedora. É interessante ver um monte de gente usando #tag no nome e etc, mas a efetividade é negativa. É como se você só ficasse se lembrando, o tempo todo, de que algo errado aconteceu e esse é o limite do seu engajamento. Detalhe: todo mundo manipula, Trump, por exemplo, achou os medos certos para energizar a base (tomaram nosso país, terroristas por todos os lados, liberais são bobos e feios, ser inteligente é horrível, vamos voltar a cavar montanhas para extrair carvão e correr o risco de morrer soterrados pq isso é trabalho de macho; ps: no Brasil foi kit gay, etc) e a estratégia local foi similar. O resultado foi o mesmo. Mas é importante pensar que: essa desinformação caiu em ouvidos propícios a aceitarem a ameaça, a tragédia, o perigo. Aí vem o perigo de só ficar militando na timeline: além de só afetar as mesmas pessoas que, como disse, não vão mudar de opinião, esta opção mantém a "Tia do ZapZap" alienada de outras ideias, de outras realidades, de outras possibilidades. Veja só, a Tia do ZapZap não comprou uma mentira, ela aceitou uma realidade viável para ela. E, agora, assim como com Trump, ela vai continuar vendo tudo pela mesma ótica, a não ser que…
  5. Você participe do processo político, aprendendo com quem pensa igual, debatendo com quem pensa diferente, filiando-se a um partido ou criando um seu, apoiando iniciativas que fazem a diferença na vida da Tia do ZapZap. Isso parece até algo utópico, não é? Bem, lá no futuro, muitos amigos meus encontraram meios de extravasar, manter a sanidade e serem úteis fazendo exatamente este tipo de trabalho social, local, humanitário… produtivo. É o famoso liderar pelo exemplo e, em certo ponto, redescobrir o seu lugar nisso tudo. Pense assim, sendo exatamente como você é, neste momento, qual foi o resultado? Você viu tudo aquilo que discorda, abomina e tal, chegar ao poder. Como disse Einstein, "A definição de insanidade é fazer a mesma coisa, uma vez atrás da outra, e esperar por resultados diferente/The definition of insanity is doing the same thing over and over again, but expecting different results". Alguma mudança, por mais mínima que seja, é necessária. Uma evolução seria melhor ainda, pois todo mundo ao seu redor — independente de partido ou ideologia — será capaz de observar.
  6. Fique calmo. Não confronte, não brigue, não gaste seu elemento mais precioso — TEMPO — guerreando com bots, cegos e zelotes. Toda vez que você perde tempo tentando socar a pedra, você perde a chance de construir uma casa ao redor dela. Mantenha-se são, organizado e nunca perca o foco. Os próximos seis/oito meses serão os mais difíceis, depois pode até piorar um pouco, mas melhorar as coisas, as pessoas, as ideias e o lugar onde vivemos são feitos de ação e reação, avanças e retrocessos, mas, note, sempre noções de movimento. Se ficarmos ilhados, e estáticos, em nossas frustrações, indignações e raivas, quem nunca sairá do lugar somos nós mesmos.

É fácil fazer tudo isso? De jeito nenhum. Se precisar, procure o psicólogo; procure alguém em quem confia e desabafe; escreva um post e nunca publique; encontre um meio de manter o equilíbrio. Não ignore sua tristeza, dane-se o que a Tia ZapZap ou o BotDoente pensam, ou digam, só você sabe como os últimos acontecimentos afetam sua mente, sua saúde e seu estado de espírito. Acima de tudo, você é um ser humano digno de bem-estar. Como os preceitos do druidismo estipulam, "Cure a si mesmo, cure a sociedade, cure o mundo". Então, enquanto esse furacão doido para jogar tudo para o ar — e espancar quem quer desfazer tudo aquilo que você acha certo, necessário ou bom — ainda estiver no comando, você estará resistindo a apenas uma coisa: seu próximo passo.