Dez mitos ditos pela “esquerda” pós-moderna que nem deveriam ser levados a sério

Esta imagem resume bem o problema

Nesses tempos confusos e extremos de internet, as militâncias virtuais (e, raramente, as do mundo real off-line) vem trazendo à tona problemas que, do ponto de vista prático, não são relevantes ou significantes para a melhora das condições de vida da classe trabalhadora, que não seleciona raça ou gênero enquanto alvo de sua opressão.

Além disso, graças a uma fatia cada vez maior da classe média alienada, que adentra na esquerda sem nenhum tipo de preparo intelectual e emocional, acaba por usar os movimentos como forma de autoafirmação, tal qual a ideia de ser portadora de virtudes superiores aos demais mortais. Nisso se rotulam como feministas, como anti-racistas, como pertencentes a qualquer tipo de movimento pelos grupos socialmente oprimidos. Que nunca foram exatamente uma minoria, visto que no sistema capitalista, o grupo minoritário é sempre aquele composto pelos grandes detentores do capital.

Marx certamente teria pena desses militantes ruins

Por conta dessa leva alienada que adentrou à esquerda, que ignora o materialismo dialético do Marx, que nunca leu coerentemente nenhum texto sobre os problemas do proletariado, que enxerga na ascensão social uma forma de “vitória”, muita gente passou a reproduzir, de forma bastante incoerente, argumentos insustentáveis por si só. Eles não contribuem para uma mudança no status quo, apenas reforça uma série de estereótipos que reduzem pessoas a tipos comuns.

Não moça, você não tem mais poder porque pode consumir mais

O primeiro deles é o EMPODERAMENTO, utilizado como forma de fortalecer, via poder de consumo e acumulação de capital, pessoas de grupos sociais marginalizados. Originalmente o termo foi cunhado por Julian Rappaport, em 1988, referindo-se à capacidade das pessoas de construírem maior autonomia e auto-determinação para conseguirem se representar no meio social e político, defendendo, de forma democrática, seus interesses e necessidades enquanto pertencente a uma parcela social que compartilhe dos mesmos caracteres.

Contudo, essa ideia se tornou a desculpa perfeita para que o consumo, a posse do capital, a exposição de corpos, o uso de cosméticos e de determinadas roupas, entre outros, fosse sinônimo de empoderamento de pessoas. Um artigo do The Guardian apresenta essa mudança e seus aspectos mais negativos e recomendo a leitura.

Um homem roubando o lugar da fala

LUGAR DA FALA é, sem dúvidas, uma das piores coisas já inventadas por essa galera que gosta de não ser contrariada. Primeiro porque, do contrário do item anterior, esse apontamento não tem origem em nenhum estudo ou tese, tampouco parte de algum pressuposto epistemológico. Segundo, busca uma hierarquia de quem pode e não pode discorrer sobre um determinado assunto, criando monstruosidades como “somente se você é negro pode falar sobre racismo”, “somente mulheres podem falar sobre o feminismo”, entre outras idiotices.

A ideia é partir para o uso de falácias para legitimar um argumento que não tem lógica ou peca no uso dela. Pode ser considerada uma variação da falácia do tipo Ad Hominem, uma vez que ataca o interlocutor no lugar do seu discurso. Neste caso, é tentar deslegitimar uma ideia, que pode ou não ser coerente, com base no gênero, na etnia ou na orientação sexual do indivíduo. É reforçar também papeis de gênero, na qual existem coisas “para meninos” e coisas “para meninas”.

Uma outra coisa recorrente é o uso de TERMOS EM INGLÊS QUE NADA DIZEM, tais como mansplaining, manterrupt e outras bobagens do tipo. Mesmo em sites mais sérios, como o Think Olga, se valem dessas nomenclaturas que são inócuas e tentam demonstrar algo que poderia perfeitamente ser explicada em língua portuguesa. Em línguas como o inglês estes termos surgem justamente porque se dá preferência a este tipo de junção, onde também é muito comum que uma palavra represente um conceito inteiro. Como prova, experimente colocar no português algo equivalente aos Perfect Tenses no inglês.

Não obstante, isto também traz um outro problema semântico muito importante: coloca de fora quem não tem nenhum conhecimento de um segundo idioma e, como se não bastasse, imprime um ar pseudo-acadêmico ao fato de diferenciar algo que é falta de educação ou de respeito mesmo. Interromper outra pessoa enquanto discursa nem sempre tem ligação com o gênero dela, muito embora possa ocorrer (e ocorre) com frequência a interrupção da fala de alguém por conta de um homem ser visto como “mais capaz”. Mas isto não quer dizer que se converta em algum tipo de opressão ou qualquer coisa do gênero.

Segundo especialistas do Tumblr, essa é a quantidade de gêneros humanos existentes

Talvez a concepção de GÊNEROS FLUIDOS OU QUALQUER MERDA DA TEORIA QUEER possa ser entendida como a dissociação entre os estudos da biologia, das ciências cognitivas e também da própria sociologia. O que na verdade deveria ser enxergado é que a forma como se representa os gêneros masculino e feminino e os intergêneros pouco tem relação com os estereótipos estanques de nossa sociedade. Deste modo, deveria ser questionada a noção do que é ser homem, mulher, hétero, homo, bi, trans e cis e como eles são representados socialmente.

Deste modo, ser homossexual masculino não deve ser representado sempre como aquela bichinha afetada que se coloca em produções televisivas, muito menos a mulher lésbica ser vista como machona. Ou ainda a bissexualidade e a forma como as pessoas são atraídas por outras, sem que isso necessariamente se configure numa opção sexual diferenciada, a ponto de exigir pra si uma taxonomia própria. Nenhum cientista sério ou séria defende este tipo de coisa. Vale a pena dar uma lida neste texto, retomando inclusive a questão do intergênero.

Seria muito triste se homens brancos não-africanos também usassem turbante…

Algo que anda muito em voga nestes tempos sombrios é a maldita APROPRIAÇÃO CULTURAL, como se a cultura fosse algo exclusivo, impossível de ser mesclada com outras culturas. Surge sobretudo dentro do movimento negro pós-moderno, que exige para si exclusividade no uso de vestimentas, costumes e hábitos que, sem nenhum embasamento, dizem ser de origem africana.

Mais paradoxal que isso é o fato deles acreditarem que são africanos, quando na verdade muitos deles tiveram suas raízes bem diluídas ao longo dos séculos, além de esquecerem que não existe unidade num continente tão plural quando a África. Também são pessoas que não abrem mão de objetos culturais de outros povos, incluindo o consumo massivo de música enlatada americana. Também pintam as unhas, hábito que veio no Egito e também da China, usam calçados e também estudam e se comunicam em língua portuguesa, no lugar de algum idioma africano.

Muita gente gosta de colocar sua VIVÊNCIA COMO ARGUMENTO, tal qual como se cada experiência individual correspondesse a uma verdade generalizável. Mais sofrível que isso é o fato das pessoas, de forma bastante sofrível, vendesse essa ideia como incontestável, pois a experiência parece ter uma forma comunicativa enorme, de maneira similar àquelas histórias de domingo do pobre sofredor que conseguiu com muita luta vencer na vida. No fim, a vivência é quase como isso.

A experiência pessoal nunca deve ser desprezada, ela deve ser o ponto de partida e, por meio da racionalização, separá-la em categorias para conseguir uma análise mais profunda. Qualquer pessoa que minimamente tenha feito alguma pesquisa decente sabe que não se parte de achismos. Nem todo negro experimenta racismo da mesma fora. Nem toda mulher sofre os efeitos do sexismo da mesma forma. Isso depende de muitos fatores, incluindo aí a classe social.

Não é algo razoável dizer que existe SILENCIAMENTO em meio virtual. Este termo, aliás, foi subvertido para ser usado como argumento quando não existe resposta plausível para as bobagens que alguém escreve. Então basta discordar de uma bobagem que você automaticamente silencia esta pessoa, mesmo que seja num ambiente aberto como a internet e mesmo que ela tenha o poder de rebater diversas vezes o que é escrito.

Existe silenciamento quando não se dá oportunidade para que as categorias sociais oprimidas possam se expressar e isso normalmente ocorre em regimes ditatoriais, relacionamentos abusivos e ambientes de trabalho extremamente tóxicos. E são quase sempre casos muito pontuais, uma vez que se silenciam indivíduos pela ausência de poder enquanto classe social, em primeiro lugar. A discordância, portanto, não pode ser considerada como silenciadora, uma vez que um debate sério é regido, sobretudo, pelo diálogo e pela contraposição de ideias.

Muito parecido com as antigas reinvindicações racialistas, a PALMITAGEM é a versão pós-moderna do segregacionismo praticado por grupos como a Ku Klux Klan. Parte da ideia que pessoas de etnias negras do sexo masculino devem se relacionar apenas com mulheres negras, para não contribuir com a solidão delas. Mas, de forma bastante hipócrita, muitas das pessoas que defendem isso são mulheres negras que se relacionam com homens brancos.

A desculpa que se dá é a ideia do status social em se namorar ou ter relacionamentos com pessoas brancas. Como se todas as mulheres brancas fossem ricas ou como se isso também não acontecesse em outras situações. Este tipo de imagem parte de uma ideia errada de que o fato de muitas mulheres serem preteridas é sinal de racismo, quando muitas vezes existem muitas questões a serem levantadas. Até mesmo porque pode ocorrer sim este tipo de coisa, na esfera individual, nunca na coletiva.

A generalização grosseira leva muitas e muitos a dizerem que QUALQUER COISA É MACHISMO OU ESTUPRO. Para muitas, um olhar malicioso é sinal de estupro e qualquer coisa mais “decotada” representa machismo. Este tipo de problema faz com que exista hoje uma banalização do termo machismo e do estupro, o que dificulta o atendimento e o apoio às pessoas que realmente sofrem ou sofreram por conta disto.

De forma bastante categórica, a quantidade de falsos estupros é muito grande, ao ponto de a polícia ter muita dificuldade em investigar. Quase metade das denúncias são falsas, uma vez que, para a sociedade em geral, a moça pode ser culpada por ter sofrido um estupro, MAS ninguém põe em dúvida o fato dele ter ocorrido ou não. Muitas vezes inocentes são presos ou têm sua vida destruída por conta disto, o que também serve para que movimentos de cunho fascista ou que propagam ideais de misoginia tenham argumentos para diminuir a importância de pautas feministas.

E, por último, temos o famoso USO DOS TRIGGER WARNING, uma forma de indicar para a pessoa um conteúdo que pode acionar algum gatilho mental e provocar alguma reação desagradável. Como falar de estupro para uma pessoa que foi abusada na infância, falar de violência doméstica para uma pessoa que apanhou muito do marido, entre outros problemas. Isto é de uma demência tão grande que está contribuindo para a formação de pessoas incapazes de lidar com a realidade, no lugar de ajuda-las a lidarem com suas crises de ansiedade.

Segundo um artigo da Rational Wiki, este tipo de atitude induz a coisas como censura, infantilização de adultos e banalização de traumas reais, pois não existe nenhuma base cientifica que explique ou corrobore com este tipo de coisa. Também tem permitido a criação de “zonas seguras”, onde as pessoas estariam livres de elementos opressivos ou que não consigam lidar muito bem e, quando confrontadas com o mundo de verdade, ficam chocadas, tal qual esta moça ao assistir a um show de black metal[FFM1] .

Mas temos um bônus aqui para todos vocês, o tal do PROTAGONISMO. Na verdade, ele anda de mãos dadas com a tal da REPRESENTATIVIDADE e também serve, para algumas pessoas, como EMPODERAMENTO. Em suma, é uma subversão do que o termo realmente expressa, uma vez que seus e suas adeptas colocam para si mesmas a incumbência e a seletividade em quem pode ou não participar ou ajudar num determinado movimento social. É algo como “somente mulheres podem ser feministas”, “somente negros podem lutar contra o racismo” e demais bobagens.

Talvez com a necessidade de auto-afirmação, essas pessoas querem para si algum tipo de exclusividade. Enquanto isso, os problemas que dão origem aos movimentos sociais se agravam, pois mulheres ainda são vítimas do sexismo, negros ainda morrem por conta do racismo, transexuais ainda têm sua expectativa de vida reduzida e pouco acesso a um trabalho que não seja a prostituição. Então ter um movimento inclusivo não somente ajudaria ele a crescer, mas também seria mais efetivo para promover mudanças sociais. Mas parece que o desejo dessa galerinha é que as coisas não mudem nunca mais.

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