DEMO…

Não consigo terminar a palavra… Foi assim… Um verdadeiro inferno!

Depois de muitas batalhas, fui aposentado e virei comentarista de situações políticas. Via manifestações nas ruas e achava aquilo uma perda de tempo, uma tremenda falta do que fazer, uma baderna… Até o dia em que mexeram com meu bem mais precioso, a única coisa que me faria voltar a lutar: a minha família.

Minha intenção era ver de perto aquelas coisas que eu via e ouvia na TV pra poder dizer com mais propriedade que aquilo não prestava, que eles eram baderneiros, que a mídia e a polícia tinham razão. Então, dia 15 de março de 2017, estava eu na rua. Era uma manifestação a favor de um serviço público de qualidade, segundo os organizadores. Cheguei às 17h na Candelária, ouvi diversas colocações dos líderes do movimento, e com a polícia organizando o trânsito como eu esperava que fosse, pois, a manifestação estava agendada e por isso um planejamento da ordem se fazia necessário. Às 18h começou uma marcha em direção à Central do Brasil pela Av. Presidente Vargas. Tudo em ordem! Na paz! Organizado! Com palavras e cantorias de protestos! Mas, não vi atos de depredação ou violência, eu estava estranhando…

Ao chegarmos no destino, por volta das 19h, um outro comício se instaurou para contemplar quem tinha chegado depois do início da marcha. Como eu já tinha visto o bastante e me surpreendido com aquela calmaria, resolvi voltar pra casa e refletir sobre minhas impressões daquilo que vi e ouvi in loco e comparar com o que eu ia ver e ouvir pela TV e até pelas redes sociais.

Um pequeno detalhe deixou-me estarrecido! Como tudo estava calmo e como confiava na proteção policial, andei bem perto das linhas de contenção e eis que um companheiro de farda, um profissional que devia velar pela integridade da população, dá uma olhada no relógio — “vou acabar com isso, já está tarde, quero ir pra casa”, deve ter pensado — e simplesmente resolve jogar uma bomba com gás ao lado de uma senhora com o filho no colo!!! (Sim! Nesta manifestação, eram em sua maioria mulheres com seus filhos e muitos profissionais da Educação). Eu consegui chutar a bomba pra longe dela, lembrando-me de momentos que passei em guerrilha, mas o caos começara…

A partir da primeira bomba, pessoas desesperadas em busca de abrigo e sair dali tentaram entrar no metrô e eis que a empresa fecha suas portas!!! Uma multidão desesperada tentando salvar sua pele e de seus filhos corre para tudo quanto é lado, sitiado por forças policiais que continuaram a atirar suas munições de borracha junto as bombas. Como eu disse, um caos…

Fui pra casa refletindo sobre essa experiência que, por sorte teve poucos feridos. Mas, ao ler as notícias veiculadas pela mídia e a repercussão nas redes sociais percebi o quanto a falta de experimentação pode influenciar nos “julgamentos” públicos. Eram recortes de tempo e espaço, narrados com clara intenção não de levar a verdade dos fatos, mas a de desmoralizar e desmobilizar quem tentasse fazer algo do tipo. Um desastre midiático. E, para piorar, a imprensa estrangeira relatava o fato que realmente aconteceu. Era uma tragédia mental o que sofria. Estava sendo enganado todo esse tempo?

Nada mais do que via ou ouvia pela TV ou pela grande mídia tinha credibilidade. Eu tinha a certeza de que para que eu pudesse ser um comentarista melhor nas redes sociais eu deveria experimentar. Assim o fiz. Dia 28 de abril de 2017, após um ataque a todos os direitos trabalhistas e também previdenciários promovidos ilegitimamente, a toque de caixa, sem que o povo trabalhador pudesse fazer suas colocações, foi convocada uma greve geral e uma manifestação às 17h na Cinelândia e pra lá eu fui.

Desta vez, levei meu filho para que ele também pudesse experimentar viver no mundo. A democracia em sua essência, participando do que lhe afeta. Chegamos por meio do metrô. Ouvíamos apenas gritos de ordem e denúncias, eram as armas do povo. Infelizmente, o ato pacífico desmoronou. Foi duramente massacrado, silenciado, aviltado pelas forças policiais militares.

O ato nem bem tinha começado, alguns poucos falaram ao microfone do carro de som, e em 2 minutos de ato, ou menos, eu e meu filho tomamos 4 bombas estourando acima de nossas cabeças. Na confusão, um ex-aluno meu se juntou a nós. Coitado, estava só porque não conseguiu nem chegar perto daqueles com quem tinha marcado. Nos assustamos porque nada havia acontecido que justificasse aquilo, a não ser a vontade de destruir! Nós víamos o sangue nos olhos dos policiais e perplexos ficamos.

Pois bem…mantivemos a calma, nos afastamos calmamente do olho do furacão, mas os efeitos do gás eram muito fortes e nos afastamos mais…e mais…sabem o que aconteceu? Percebemos que a intenção não era dispersar, era causar danos físicos e psicológicos mesmo! A multidão estava sendo encurralada. As estações vizinhas como a Carioca e a Gloria foram fechadas mantendo o povo todo na linha de tiro e sofrendo por tentar gritar, sim, gritar.

Não teve jeito, tive que lembrar de todo o treinamento militar que eu possuía e orientei meu filho e meu ex-aluno. Como nos movimentarmos, por onde irmos, como respirar e mantendo a atenção e a concentração no nível máximo. Nos destacamos da correria, tentamos ir para a Carioca, mas havia tiros e bombas. Demos a meia volta e tentamos a Glória, mais tropas massacrando pessoas desarmadas. Não teve jeito. Para que a maioria pudesse se proteger e conseguisse escapar, os chamados Blacks chamaram a atenção da polícia: queimaram ônibus e quebraram algumas vidraças de bancos (repare que nenhuma banca de jornal, nenhum outro pequeno comerciante teve nada depredado, os alvos também foram escolhidos por serem parte de toda esse acinte ao povo trabalhador). Isto oportunizou que realmente houvesse a dispersão sem maiores danos às pessoas. Isto levou o contingente policial a diminuir seu ímpeto sobre os manifestantes. Só assim as pessoas se salvaram. Os Blacks se arriscaram pra nos salvar, essa foi a certeza que tivemos. Só quem estava nessa trincheira saberá a sensação.

Ainda cuidando para que meu filho e meu ex-aluno ficassem em segurança, voltamos da Glória em direção a Cinelândia, estrategicamente era um local com menor concentração de pessoas e por isso deixou de ser o foco policial. Enquanto voltávamos, algumas ruas secundárias precisavam ser atravessadas vendo as principais totalmente engarrafadas. Numa das ruas, nos deparamos com um policial com uma arma de munição de borracha às mãos tentando abrir caminho para uma viatura passar. Paramos, pensamos e recuamos calmamente andando de costas para não deixar de ver a ação policial…

Para nossa sorte, eles estavam indo atrás de outros Blacks. Enquanto abria caminho, o policial bateu com a mão e a arma num táxi parado no engarrafamento que não conseguia chegar pra frente para a viatura passar e quando conseguiu a viatura lascou um pedaço do para-choque de um carro logo atrás do táxi. Víamos tudo com receio de levar um tiro de borracha ou algo pior. Assim que a viatura passou, o policial com toda a calma do mundo pega uma bomba e solta no meio do engarrafamento soltando aquele gás que arde a alma. Ato sem sentido, sem justificativa…

Meu filho assistiu a tudo horrorizado. Meu ex-aluno e outras pessoas extremamente indignadas não conseguiam falar. Esperamos que a viatura se afastasse e, observando a disposição que a tropa tinha tomado, decidi passar pelas vielas das ruas do Centro do Rio. Passamos por trás das tropas que a cada esquina estavam posicionadas a espera sabe-se lá do que. Mais uma vez, essa disposição foi graças aos Blacks. Só então pudemos andar, ainda que temerariamente, e chegar em segurança à estação de metrô da Uruguaiana. Ufa! Relaxamos…eu principalmente. Meu filho estava lá.

Meu resumo: não há democracia! Estamos num estado de exceção e de guerra! Há inversão de valores, os policiais estão defendendo corruptos e massacrando o povo e o povo está valorizando os Blacks e com medo dos policiais. Não houve vandalismo por parte dos manifestantes. Houve defesa, e muito bem feita, da integridade física e psicológica dos manifestantes. Enfim, a PM PRECISA acabar…e essa é a primeira vez que digo isso. Afinal, estamos numa DEMO…

…digo, numa demonização da DEMOCRACIA!

Nas manchetes nacionais a desqualificação e a formação de opiniões torpes. Meu filho me olhou indignado com tanta mentira! Tanto recorte como “quem conta um conto aumenta um ponto”. Olhando em seus olhos disse-lhe:

- Estamos aqui e podemos contar nossa história. Mas, cada um escolhe em quê e em quem quer acreditar. Bem-vindo ao meu mundo!

Voltei à ativa! Só que agora o meu inimigo é outro!

- Que inferno é este? Alguém na escuta? Câmbio!

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