
E de Entropia Ortográfica
Palavras não são eternas, têm um tempo de vida específico e finito.
Cada um tem seu fadário, este é o que resta a elas cumprir.
Uma língua se eclipsa na banalidade, quando palavras são usadas sem critério, o significado morre, a força definha, resta apenas a convenção social.
Sem significado, palavras são ruído. Sem palavras, não há civilidade.
Sem civilidade, só resta a entropia.
Logo, as resoluções abaixo foram necessárias, para garantir às palavras uma sobrevida, e também protegê-las delas mesmas.
Em prol da sinceridade, o uso de “eu te amo” é permitido às crianças, apesar da utilização pouco criteriosa e prolixa que as mesmas fazem desta.
Para adultos, o uso é validado para filhos e relações com mais de 20 anos, onde já terá passado pelo teste supremo: o do tempo.
Exceção feita também caso sejam as últimas palavras, em qualquer instância.
Por questões de simetria, “eu te odeio” também tem seu uso regulado. É palavra forte e leviana, de efeito certeiro somente quando usada na ocasião adequada e caso ficasse desgastada pela banalidade uma nova palavra teria que ser inventada, convém deixar as coisas como estão.
Eu te odeio deve ser usada com moderação, só tem efeito satisfatório quando utilizada contra quem preza você.
Exceção aberta para externar injustiças extremas ou sentimentos de indignação coletiva, como por exemplo judeus que odeiam nazistas ou críticos de cinema que odeiam Michael Bay.
“Adoooro”. Caso a palavra persiste, se agarre e se instale no vocabulário, determinadas ações terão que ser realizadas contra ela.
Se usada fora de conotações religiosas, se pagará uma cesta básica para cada “o” extra pronunciado.
“Não estou magoado com isso”. Evidentemente está. Seis cestas básicas e um abraço no seu ofensor.
“Já superei”. Tem que afirmar? Não superou. Cinco cestas básicas.
“Gênio”. Passou 50 anos e sua obra ainda se mantém relevante? Podemos dar entrada na liberação do adjetivo.
Exceção feita se compor a 5ª de Beethoven em vida.
Nada menos que isso.
É também terminante proibido expressar uma opinião antes de prenunciar com “eu acho que”, salvo exceções óbvias e ululantes como por exemplo “eu acho que o céu é azul”.
Se você tem uma verdade, não quer dizer que ela seja universal e precisamos muito de um mundo com menos certezas.
Grato pela atenção.
Na verdade não. E com isso acabo de ter que pagar mais duas cestas básicas.
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