H de Hócus Pocus


O que anunciava na vitrine da loja sem nome era “Tudo que você quiser por muito menos que você imagina”.
Ele não estava brincando, claro, mas era impossível saber disso até entrar lá dentro.

Eu demorei um pouco a entrar naquele sebo, entulhado das mais diversas coisas, me demorei um pouco examinando, cumprimentei o dono, a varrer o chão, um Paul Newman envelhecido que acenou em troca, era um sebo mal-iluminado, onde tudo parecia ter um tom laranja-sépia, era um sebo arquetípico, daqueles que vemos em pinturas mas nunca ao vivo, se o sebo fosse uma pintura, Norman Rockwell o teria pintado, se fosse um conto, Ray Bradbury o teria escrito, se fosse um programa, Rod Serling o teria concebido.
Era um sebo único.
Tudo que você quiser.
Por muito menos que você imagina.

Estava na prateleira logo acima, o boneco Thundarcop, uma bobagem, claro, era o que a mente dizia o tempo todo, o que não me impediu, homem feito, de dilatar os olhos, estender a mão e o apanhar.
Não era um simples boneco, eram tardes inteiras de esperas frustradas na minha mão, eram horas e horas olhando prateleiras já distantes no tempo, sabendo que você jamais teria condições de ter ele, era uma longa temporada no pequeno mar de frustrações chamada infância.

— Achou algo que te interessa? — se aproximou o envelhecido Paul Newman, um homem grande, que os anos se esqueceram de curvar, olhos azuis límpidos.
- É, eu sempre quis ter um desses. –respondi, sem nem ter percebido o que acabava de ter feito, sentindo a quilometragem dos anos correrem para trás, sentindo o peso de toda uma vida lentamente desaparecer. — Quanto está? — olhei de novo o boneco, perfeitamente conservado, era ilógico levar, claro e além do mais, aquele deveria ser um item de coleção, a um preço extorsivo e abusivo.
Uma parte minha desejou isto, uma desculpa racional para não levar, para não cometer uma insensatez.
A outra, parou emudecida em suspense, uma parte machucada por longas esperas e promessas nunca cumpridas, desejando o menor valor possível.

O velho examinou com cuidado o brinquedo.
- É um item raro, sabe? Acho que uns…
Sorriu.
- …Ah diabos, menino, uns sete reais estaria de bom tamanho.
Tudo que você quiser…

Eu voltei lá várias vezes depois. Às vezes encontrava coisas interessantes, outras vezes objetos que quais arqueólogos da minha própria vida, traziam à memória fragmentos de eventos à muito esquecidos — mais, não apenas resgatar, a memória era polida, ganhava novo brilho e verniz — às vezes nada disso. Mas sempre encontrava conversa interessante com o velho Jorge, um nome comum mas que nem assim conseguia diminuir aquele Paul Newman.

Às vezes as conversas se estendiam para uma cerveja depois do expediente, que viravam duas, três, quatro ou mais, com o tempo, outros clientes se juntavam a este ritual.
Conheci muita gente legal lá. Conheci a Rita também, ela estava sem trocado para um compacto da Joan Jett e eu tinha 5 reais para comprar para ela, foi aí que começamos a conversar. Tudo que você quiser…
A amizade entre todos se tornou cada vez mais estreita, entre aquela curiosa congregação aberta, os Lanceiros de Jorge, como brincou Gusmão certa vez. Ostentávamos, brincando, o nome dele, mas nós mesmos nunca soubemos muito sobre Jorge.

— Sabe uma coisa curiosa, Jorge? — disse, olhando para a loja, enquanto ele fechava, para mais uma cervejada.
- O que?
- Seu sebo não tem um nome.
Ele parou, olhou, como se só agora constatasse o fato.
- É mesmo.
Caminhamos em silêncio, pelas ruas desertas de um inverno particularmente rígido demais. Rita e os outros esperavam.
- E que nome tu daria para a loja, menino?
- Não sei — sorri- Hócus Pócus talvez. — era uma piada interna entre os clientes, nunca soube se Jorge sabia dela ou não. Ele riu.
- É engraçado. Eu já fui mágico sabe?
- Mesmo?
- Arrã. Faz muito tempo, menino, tu nem era nascido. Um mágico é um arqueólogo do homem, sabe? Busca o que há de mais enraizado nele, tudo aquilo que com o tempo é encoberto pelo barro do cotidiano, não concorda?
- Não sei, nunca… Havia pensado nisso.
Ao longe Rita acenava, os outros já estavam presentes e a conversa mudou de rumo.

Jorge partiu em viagem faz quatro anos, ia visitar parentes no Uruguai, o que descobrimos depois, que nunca aconteceu.
Em uma carta registrada, ele deixou a loja para os Lanceiros, isso foi o mais inesperado. Após algumas semanas de inércia e indecisão, começamos lentamente a seguir seu desejo. Nos revezávamos no atendimento, eu cuidava com Rita, dos sábados.

Itens raros continuavam chegando e sempre sabíamos onde colocar. Um anel de noivado perdido? Terceira vitrine da frente. Pogomonster? Segunda prateleira da entrada. Sentávamos e esperávamos a pessoa que iria entrar, a expressão de surpresa, o algo há muito perdido voltando e seguíamos sempre à risca a regra anunciada pela vitrine: tudo que você quiser por muito menos que você imagina.

Nunca mais tivemos notícias de Jorge e todos sabemos de alguma maneira, que nunca mais vamos ter.Às vezes me pergunto se ele está por aí montando outras lojas e qual é a nossa? A terceira? A vigésima?
Essas divagações nunca duram muito, logo entra outro cliente.
Logo seus olhos se umedecem.

Bem-vindo amigo.
Hócus pócus.

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