K de Kalanga Joe, Taxista

Por Fábio Ochôa

Kalanga Joe é taxista e como todo taxista ele sabe a história oculta do mundo.

Não foi um caminho fácil até chegar onde chegou, dono do ponto 19 do Aeroporto de La Guardia, mas Kalanga conseguiu, com a mesma garra e persistência que tinham seus ancestrais nas savanas. E como seria diferente? Era o mesmo sangue a correr em suas veias!

Os taxistas são os ouvidos invisíveis da humanidade. Os taxistas levam pessoas de cá para lá, de lá para cá, ouvindo suas conversas, suas confissões, seus celulares, os taxistas são o sistema vascular de suas cidades, ligando os pontos A ao B, um pé só sabe que tem que dobrar quando a informação do cérebro chega até ele, mas o primeiro a saber disso é o fóton ou o sangue, ou o sei lá que transmite essa informação. Seja lá o que for, isso sabe antes do próprio pé.

Com os taxistas é a mesma coisa.

Para relaxar, todos os dias Kalanga Joe encerra seu expediente no Bar do Tortuga, um dos primeiros homens a levantar a causa gay na América, segundo o próprio, um bar kitsch como o Natal, mas inegavelmente acolhedor.

Às vezes ele fala sobre o seu dia.

Às vezes ele apenas escuta.

Frequentemente ele conversa lá com Capo Kid, o único assassino de aluguel a ter carteira assinada pela Máfia Corsa.

Ele nunca mostrou a tal da carteira.

Capo disse ter matado Al Capone, Che Guevara, Jimmy Hoffa e Richard Nixon, o verdadeiro, não o falsário mentiroso que tomou seu lugar na Casa Branca. Kalanga nunca soube ao certo. Capo sempre mentiu demais.

Capo disse também ter matado Miles Davis, mas na mesma noite Kalanga pegou ele em uma corrida no Blue Noite. Foi aí que Capo foi desmascarado.

Ele tinha até uma foto autografada para provar, mas nunca desmentiu Capo. Kalanga sempre foi educado com os mais velhos.

Kalanga descobriu diversas conspirações ao longo dos anos, dirigindo de cá pra lá. Descobriu que o telefone para o mundo dos espíritos já foi inventado, apenas nunca foi implementado porque ninguém sabe ainda em quanto tributar o serviço, descobriu quem são os ghost writers das piadas que todo mundo conta (é terrível, velhos humoristas presos em uma fábrica de fachada em Utah, tendo que escrever piadas o dia inteiro, na esperança que uma pegue), descobriu que o Colosso de Rhodes está sepultado logo abaixo da Estátua da Liberdade, como um símbolo a mostrar a superioridade americana perante o velho continente.

Kalanga descobriu muitas coisas.

Talvez um dia ele publique As Crônicas de Kalanga Joe.

Sua última descoberta foi que a Terra na verdade é um grande reality show de aliens. Ou melhor: a Terra foi criada por uma rede TV, uma cultura de milhares de anos, capaz de gerar milhões de anos de programação. Com tudo que é tipo de atração, aventura, drama, erotismo, humor, horror… Diabólico, com certeza, mas também tremendamente engenhoso.

Os líderes mundiais sabem disso, claro, é por isso que eles incentivam tantos combates e sanções econômicas, o show não pode parar. Os rumos que norteiam os destinos do mundo não são os indicadores econômicos, não seja ingênuo, são os índices de audiência.

Nunca soube porque o homem nunca conseguiu a paz? Agora você sabe. A paz e a felicidade são o final de filmes improváveis.

Mas Kalanga Joe tem um plano. Kalanga Joe pensa muito.

Um dia, Kalanga Joe irá pegar algum líder mundial em uma corrida. Por isso ele anda rondando muito o prédio da ONU, mesmo com toda a incomensurável distância entre ele e seu ponto de negócio.

E quando pegar um numa corrida, ele vai começar a conversar.

E então falar sobre o seu plano de expansão espacial.

Kalanga irá dizer que países desenvolvidos deveriam voltar a investir pesado na expansão para o cosmo. Que drama maior do que se aventurar no desconhecido? Que aventura mais épica do que descobrir o que a noite esconde de nós, entre suas luzes e sombras? Que programa maravilhoso não daria, sem contar que pode pegar um grande público saudosista das Grandes Navegações.

E a expansão irá crescer, e crescer, e a cada nova galáxia, novas histórias, novas emoções e índices de audiência nunca vistos.

Até o dia que a humanidade finalmente irá alcançar o planeta que nos criou.

E neste dia, irão matar um a um deles, enquanto suas câmeras transmitem a sua própria extinção. Esse será o dia em que seremos livres.

Particularmente Kalanga Joe espera muito que isso aconteça em um 4 de julho, mas se não der, azar.

Kalanga Joe sabe de tudo isso porque Kalanga Joe é um taxista.

E os taxistas conhecem a história oculta da humanidade.

Isso daria uma grande série de TV, pensa Kalanga Joe.

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