S de Salvis Presli, Rei do Rock Surrealista

Por Fábio Ochôa

Selvis Presli morreu várias vezes, provavelmente pela última vez neste mês de dezembro. As circunstâncias — como jamais poderiam deixar de ser- são obscuras.

Caso exista alguém que ainda não saiba, Selvis Presli foi provavelmente o maior cantor popular do século XX, criador do Rockabilly Surrealista, criador da Lobster Dance e um homem que contra todas as probabilidades, conseguiu se projetar para as massas e para o diminuto círculo de apreciadores de finas artes. Surreal, mas jamais poderíamos esperar menos dele.

É muito fácil subestimá-lo, de ver ele como a figura extravagante e caricata que se tornou ao fim da vida, uma curiosa mistura de Howard Hughes com cientista maluco de história em quadrinhos e com certeza nos últimos 30 anos ele fez de tudo para ser subestimado, onde cada espalhafatosa aparição pública que ganhava os tabloides acabava por eclipsar o verdadeiro talento do homem. Um caso único. É fácil ver ele como uma figura caricata, mas isso de maneira alguma apaga seu profundo impacto em nossa cultura.

A primeira morte de Salvador Jacinto Aaron Presley , — como, pergunto-me, um sujeito com este nome não estaria fadado ao surrealismo?- filho de imigrantes latinos, espanhóis segundo ele, porto-riquenho, segundo seus biógrafos, Salvis Presli, segundo o próprio, ocorreu em seu nascimento. No parto de gêmeos, seu irmão morrera ao nascer, ele possuía uma deformação gastrointestinal. Mas Presli sempre defendeu que foi ele próprio quem morreu. Que apenas assombrava o corpo do sobrevivente. E, bem, imagine o que era você afirmar isso com toda a seriedade do mundo em pleno programa Johnny Carson nos anos 50.Com certeza muitas adolescentes não dormiram à noite

Devido às poucas posses da família –de maneira nenhuma opcional, ao contrário do que ele sempre defendeu — foi lanterninha de cinema, pintor de paredes, e motorista de caminhão, até sua gravação de That´s All Right Mama cair nas mãos do sinistro empresário Coronel Ed Parker, que sempre estava acariciando gatos com as mãos de ferro que manejava seus negócios. Daí, tudo foi história.

As canções eloquentes, as letras surrealistas sobre ovos e camarões telepatas, a coreografia sensual, os bigodes, o topete, o figurino, latino, americano, tocando música de negros, obviamente, ele foi perseguido por todos, obviamente ele foi amado por todos aqueles que não tinham opções, por todos aqueles que simpatizaram por aquela figura tão chocante contra o certinho stabilishment dos anos 50. Ele não foi o primeiro bad boy da mídia, vale lembrar que há muito tempo Sinatra, Prima, Picasso e Duchamp já faziam das suas, mas com certeza ele foi o mais interessante.

Presli morreu pela segunda vez em plena turnê de 1954, com um telegrama avisando sobre o falecimento da mãe. Ele comentou o assunto apenas uma vez em público, no ano seguinte, durante a divulgação de Destino em Acapulco uma bizarra obra em parceria dele e — vejam só- Walt Disney, onde cada pergunta era respondida com colocações evasivas e longos monólogos circulares, absolutamente desprovidos de qualquer sentido. Eu estava razoavelmente irritado e cansado da viagem até a Flórida e definitivamente sem humor algum para tentar acompanhar ou decifrar as charadas que as respostas propunham. Minha pergunta, quando chegou a minha vez, foi espontânea, não estava em minha pauta e nem sequer seria aprovada se estivesse, foi uma combinação de elementos que me levou a ela e antes que eu desse em conta, já havia falado.

Havia pedido que falasse da morte da própria mãe.

Seus olhos se arregalaram e um silêncio tenso tomou conta do saguão, achei que ele fosse se levantar e sair em ultraje, que fosse ordenar minha expulsão, diabos! Era Salvis Presli! Eu esperava qualquer coisa! Mas ele apenas olhou para mim, pediu que me levantasse, o que prontamente fiz, e falou, com um tom de voz sério e comedido, ao contrário do seu habitual histrionismo, parecia alguém ensinando uma valiosa lição a uma criança. Foi o maior golpe que eu havia experimentado em minha vida. Eu adorava-a… Eu não podia resignar-me a perda de um ser com quem eu contei para tornar invisíveis as inevitáveis manchas da minha alma”. “Uma parte minha foi pra sempre junto com ela”. E logo depois mandou que os seguranças me expulsassem do hotel e gentilmente me mandassem de volta para o Canadá. Um momento verdadeiro com Salvis Presli, os repórteres presentes ganharam o dia. E eu, uma carreira.

Após isto, as coisas voltaram a ser como sempre foram. Presli protagonizou O Pistoleiro Andaluz, um bizarro western com a famosa cena do olho sendo cortado, decretou-se monarquista e anarquista, entrou para o exército, acusou Luis Buñuel de ser ateu e comunista, fato que custou um emprego no Museu Metropolitano ao seu amigo de infância e se pôs a executar seu maior empreendimento, o Museu Graceland, localizado nas areias de Las Vegas.

Ele era o mesmo Salvis, o Salvis filmado sempre da cintura para cima, a cultivar um bigode fálico.O Salvis que traiu a juventude entrando para o exército. Mas que outra coisa poderíamos esperar de um surrealista? Coerência? Ou o que dizer do Presli que aceitou participar do programa de Frank Sinatra e fez carreira nos cassinos de Las Vegas? Vendeu-se ou apenas estava gargalhando às nossas custas? Chamaram-no de várias coisas, canastrão, pretencioso. Até mesmo de gênio.

E foi em Vegas ele fez o que ninguém esperava: morreu pela terceira vez. Em 12 de abril de 1968, junto com a mulher Gala, entrou em pleno tribunal regional com um pedido para declarar-se legalmente morto –um processo que se arrastou ao longo de uma década, apenas agora resolvido com sua morte física e incontestável- passando a se apresentar em cassinos apenas através de vários cantores covers, todos usando seu nome, todos atraindo multidões na esperança de ver o verdadeiro entre os falsos. Um jogo de espelhos fora de controle. Quando indagado porque persistir durante tanto tempo no direito de ser reconhecido morto, ele apenas respondeu que não suportava os vivos e a vida e nada queria ter com eles, mas ao mesmo tempo, amava demais os prazeres para simplesmente partir. E o mundo em troca gradualmente se esqueceu dele, o que poderia ser considerado afinal a vitória pela qual ele tanto batalhou nos tribunais. Não se esqueceram do mítico Salvis, isso era impossível, esqueceram do verdadeiro Presli, há muito tempo, soterrado dentro do mito, do artista talentoso, ocultado em meio ao performer exibicionista. Nunca mais visto em público, nunca mais fotografado.

Até a nota de sua morte definitiva chegar até nós, agora, quinze longínquos anos depois de sua última aparição pública. Em seu testamento a vontade de ser enterrado em pleno deserto, o corpo no porta-malas de um Cadillac. Falou também de mães e como todas as casas parecem vazias sem elas. Morreu dormindo em Graceland, cercado por seus relógios, seus elefantes, seus ovos, caramujos, formigas e gafanhotos, cercado por sonhos empoeirados, cercado por infinita solidão.