T de Ternos Brancos

Por Fábio Ochôa

Se você tiver sorte, você nunca vai se cruzar com os homens de branco, meu amigo. Vá por mim. Porque se um dia isso acontecer… Bem, é um grande sinal que sua vida virou de ponta-cabeça, eu sei, vá por mim, eu sou um deles. Os homens de branco estão sempre de branco, ternos brancos, óculos brancos, é algo meio atávico, que intimida as criaturas da escuridão e, vamos ser honestos, fica estiloso pra caramba. O que é em parte um dos motivos para eu estar nesse emprego ainda. Os homens de branco são uma agência do governo que só investiga casos sobrenaturais, amigo. Tem vampiro, lobisomen, zumbis, saci, curupira e mula sem cabeça na parada? É com a gente, companheiro.

Como no caso que houve em Houma há pouco, onde havia a suspeita que bandos de lobisomens vândalos estavam fazendo símbolos misteriosos em plantações. Chegamos lá na parte da manhã e a área já estava coberta pelos homens de preto. Conversamos e trocamos informações, os homens de preto, como sempre, diziam que os culpados eram alienígenas, claro, claro, concordamos como quem concorda com uma criança. No fim das contas eles eram colegas de trabalho, não valia a pena magoá-los, deixem eles com suas crendices.

Alienígenas, ah! Homens de preto, sempre tão crédulos. Nos despedimos educadamente e fomos lá procurar vestígios de lobisomens.

Existe uma política atual de tolerância entre as duas agências. Não é mais como nos anos 60, os velhos dias, como falam. Discussões são coisas raras. Acho que é melhor assim, eles falam os seus absurdos, você concorda polidamente e vai lá fazer o que tem que fazer. O primeiro contato que eu tive com os homens de preto foi nos anos 80, em um dos piores verões nova-iorquinos. Sabíamos que estavam ocorrendo desaparecimento de pessoas dentro de vagões de metrô, os vagões partiam cheios e chegavam na estação seguinte vazios. Para nós, era claro: ataque de vampiros, mas os homens de preto, sempre a complicar com suas teorias extravagantes, achavam que eram abduções.

Eu estava na agência faziam dois meses já. O que sei é que o caso foi resolvido, embora confesso que não me lembro bem como. Tudo bem, no fim das contas tenho certeza que a gente tinha razão. Para manter essa boa vivência, temos os churrascos quinzenais de fim de semana. É meio estranho, pensando bem, passadas as amenidades iniciais nunca temos muito assuntos.

Até tentamos falar de casos, mas os detalhes sempre nos escapam. É esquisito quando você pensa a respeito. Eu sei que eles tem uma espécie de caneta que causa esquecimento, eles dizem, muito boas para controle de multidões. Meio ridículo, eu sei, mas eles dizem que tem, fazer o que? Cada louco na sua.

Já nós temos o totem senegalês Ugarukotê Umbalacabaca, é um pequeno boneco feito de treliça e vime, feio pra diabo, mas quatro segundos olhando nos olhos deles e você esquece tudo que ocorreu nas últimas duas horas. A primeira vez que vi um desses em uso foi justamente no caso do metrô, tivemos que apagar a memória de alguns homens de preto envolvidos, não me lembro bem porque, já havia um relatório escrito, com o esquecimento de todos os envolvidos, o nosso setor prontamente preparou uma segunda via, corrigindo os erros — sejam lá quais forem — da primeira. Eu sei que pode parecer meio antiético, mas tem tudo a ver com a sobrevivência do setor: se existe uma atividade paranormal na área, temos que apagar as lembranças de todos os envolvidos, se a explicação é qualquer outra, bem, temos que apagar também e contar a nossa versão da história, afinal, são tempos de verbas escassas e nunca se sabe quando algum departamento pode ser visto como inútil e todos serem mandados pra rua.

Além do mais já é complicado por si só ter que ficar por aí duelando verba com lunáticos que caçam OVNIS, não é mesmo? Eu tenho uma certa pena deles, é muito fácil se perder nas próprias fantasias. O chefe de campo fala que há grandes chances do esterco recolhido ser oriundos de licantropos. Eu concordo com ele, com a mente um pouco distante.

E me pergunto porque afinal o relatório do vagão de metrô tem 38 vias.

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