Como tirar proveito de um erro vergonhoso

Como podemos voltar atrás e aprender melhor através dos nossos tropeços

A ideia de escrever este texto surgiu quando descobri que errei no título deste artigo. Há quem se sinta extremamente ofendido quando apontam um erro ortográfico em seus textos e, de fato, por algum motivo, isso vai no cerne da alma humana. Talvez porque gere uma certa vergonha, afinal, isso seria uma prova de que “não sabemos escrever”. É como levar um soco no estômago. No entanto, é possível usar a filosofia Aikido, do mestre Morihei Ueshiba (e do Steven Seagal), para tansformar a energia de um golpe contra você em algo positivo.

Não lembro das aulas que ensinavam as diferenças dos usos dos "por quês" (ou seria "porque"?), mas sei que elas foram muitas e repetitivas. Tampouco sei se o conteúdo delas foi correto, afinal, ao que parece, não aprendi, pois foi justamente isso que errei no título. Só que eu lembro bem de uma aula que levei orgulhoso para o meu professor de Português um "livro" que eu havia escrito. Fiz uma capa no Powerpoint, mandei encadernar e dei pra ele. Na frente de toda a turma, ele pegou, olhou e falou:

Legal, mas o título está errado. Não é "Viajem às Índias Orientais", é "viagem", com "G" — e completou explicando as razões e diferenças.
A capa está num .ppt antigo e não abre, mas o erro ainda está no .doc

Todo mundo riu e eu também, de nervoso. Quem manda querer palco com um professor que sabia falar até latim? E essa história foi uma lição que, assim como a dos “porquês”, eu não aprendi, ao que parece. De qualquer forma, ficou ali uma lição que eu tentei evitar até hoje. Ao que parece, não consegui!

Errar no título é o pavor de qualquer pessoa que escreve. Pra mim, um karma. Eu me reviso, sim, ainda mais o título, mas neste último caso foi confusão mesmo. É tanta regra com os “porquês” que talvez a melhor solução seja aquela que a gente usa na língua moderna: “pq”. E o melhor é que, se mesmo assim você errar, é só acrescentar mais um “p”, e fica tudo devidamente xingado.

Fiquei sabendo desse meu último erro através de uma plateia um "pouquinho" maior que a minha turma do segundo ano: o Facebook. Alguém comentou no post do meu chefe (o.O) e eu só pude agradecer e correr para corrigir. Eu acho isso algo bem bacana: alguém informar um erro. Quantas coisas poderíamos ter evitado se soubéssemos que era um erro, mas ninguém avisou? Talvez a melhor boa ação que se possa fazer seja alertar alguém sobre algo errado.

Para isto, temos que levar em consideração que se tem certeza que o erro está errado. Ora, esta é uma missão bem mais complicada que a de errar o primeiro erro. Significa que, se o conserto estiver com defeito, estariam evitando um acerto! E isso é um erro bem mais grave.

Voltando ao meu erro do último texto, acredito que só fui avisado muito tempo depois porque simplesmente a maioria nem notou. Esses "porquês" são tão confusos que somente os revisores sabem de fato. Não só os carros precisam de revisão, nós também. E nossos textos mais ainda, porque neles estão enraizados nosso sistema nervoso. Em cada letra tem uma terminação nervosa que, se estiver fora do lugar, causa um incômodo pior do que a agressão à mãe. Quem dera pudéssemos ter “revisores” conosco o dia todo evitando ou consertando rapidamente nossos erros. Será? Que chato seria, não?

Uma das coisas mais legais ao se compor uma música é errar quando se tenta repeti-la. "Aquela nota errada soou tão melhor!" Nesse caso, o erro é a representação da liberdade, e usá-los para desvendar novas criações é o motivo pelo qual a humanidade chegou até aqui. OK, esse último parágrafo só serve mesmo como reflexão. Não é pra ninguém achar que errar é legal.

Existe um meio termo que podemos notar entre quem escreve e quem revisa: um gostaria de nada errar, e o outro gostaria da liberdade de tudo escrever. É um equilíbrio. Um precisa do outro, uma dança bem bonita de admiração mútua.

No filme Nelson Freire, um documentário de João Moreira Salles sobre o maior pianista brasileiro, tem uma cena bem interessante. Nelson assiste vidrado a um vídeo de Erroll Garner e diz que o que mais gostaria de fazer era sentar ao piano e poder improvisar como ele. Nelson Freire é um exímio pianista, dono de uma técnica incrível e o que ele diz, resumindo, é que gostaria de poder errar como Garner, que, no vídeo, esbarra sem querer em algumas notas, mas acaba que seus erros viram acertos ao serem repetidos logo depois.

Nelson Freire e Erroll Garner

Não pretendo repetir o mesmo erro nos meus títulos para que eles se tornem acertos. Ortografia não permite improviso (poetas dirão que é mentira). Só que resolvi falar sobre isto aqui porque sempre achei esse tema bastante fascinante e que não deve afligir as pessoas. A gente escreve errado e, provavelmente, no Português mais rígido, devem ter muitos outros erros nessas linhas. Só que se a gente for deixar de fazer as coisas com medo dos erros, talvez a gente imponha limites a nós mesmos e à nossa vida. Então, erre com cautela, aprenda a lição, conserte sem acreditar que nunca vai repetir. Pois, se repetir, conserte de novo. Só não deixe de criar, porque sempre tem algo novo para aprender e para errar.