A dominadora no La Closerie des Lilas — Por Fábio Pereira Ribeiro

Seis horas da tarde. O happy hour em Paris é intenso, mesmo em dia de chuva. Paris pode até parecer chata nas chuvas de outono, mas a cidade fica mais bonita, ou melhor, as pessoas ficam mais bonitas.

Paulo Duarte sobe o Boulevard Saint Michel até o Boulevard du Montparnasse. Ele é português e faz um doutorado na Sorbonne sobre literatura americana na França. Sua tese é sobre a chamada “Geração Perdida” que viveu na Paris do entre guerras, principalmente na década de 1920. Mas hoje o seu dia tem um objetivo mais focal, o mesmo se comprometeu em dedicar as horas para um roteiro etílico pelos bares e restaurantes frequentados por Ernest Hemingway, o famoso escritor americano e Prêmio Nobel de Literatura que foi um dos principais protagonistas dessa “Geração Perdida”. O mesmo era o queridinho da escritora e crítica de artes, Gertrude Stein, por sinal foi ela que cunhou o termo.

Na cabeça de Paulo não passava de uma tremenda bobagem, para ele os escritores daquela geração estavam bem definidos e nada perdidos, Paris para eles tinha algumas vantagens, ambiente propício para desenvolver as artes, câmbio ultra valorizado em relação ao dólar americano e muita bebida liberada, diferente da Lei Seca dos Estados Unidos.

Para inicio de sua peregrinação literária e etílica, Paulo escolhe um dos restaurantes que Hemingway mais gostava, o La Closerie des Lilas. O restaurante fica no cruzamento de dois grandes Boulevards, e fica ao lado da Rue de Notre Dame des Champs, nessa rua Hemingway teve sua segunda residência com a sua primeira esposa, Hadley. Praticamente todos os dias Ernest ia ao Closerie, seja para bebericar com amigos, seja para escrever seus livros, o local era praticamente o único American Bar de toda Paris, e para ajudar, o ambiente era frequentado há muito tempo por diversos escritores e artistas plásticos, incluindo algumas dançarinas de boa e má reputação, ou as duas coisas juntas.

Paulo entra no restaurante e pede para ir ao Bar. No bar o mesmo pergunta ao barman.

- Por favor, onde Ernest Hemingway se sentava?

- Aqui na ponta do balcão. Inclusive tem uma placa marcando o local. — afirma o barman apontando para a placa.

- Engraçado, parece com o X que marca o local do tesouro. (risos)

- É verdade. — responde o garçom. — O senhor deseja um drink?

- O que Hemingway tomava aqui?

De repente Paulo ouve uma voz que vinha da mesa atrás do balcão.

- Dry Martini bem seco e com gin. — responde uma bonita moça morena, com cabelos bem escuros.

- Então, por favor um Dry Martini, e por favor, “no shaking”. — fala Paulo para o barman e já se dirige para a morena sentada. — Você gosta de Hemingway?

- Sim sou sua fã. Li tudo o que ele escreveu. Ele me fascina. Ele é o contraponto do que eu faço.

- Interessante, e por que tanto fascínio?

- Ele era louco e dominador. Isso mexe comigo.

- Loucura e dominação? — Paulo pergunta com uma interrogação no rosto.

- Sim, eu sou uma dominadora e a loucura me equilibra para não perder a razão.

- Como assim dominadora?

- Eu sou uma fetichista, uma mistress, uma dominadora. Eu domino as pessoas. Realizo fantasias de dominação e submissão sexual. Por favor sente aqui. Me chamo Cláudia e você?

Paulo sai do balcão e senta-se à mesa.

- Me chamo Paulo, muito prazer.

- Prazer é o meu, o desejo pode ser seu.

- (risos) Como é que é? — pergunta Paulo.

- Deixa para lá. Mas me fala, por que você pediu o drink que Hemingway tomava aqui?

- Na verdade não é muito pelo drink, mas sim porque eu estou realizando um estudo de doutoramento na Sorbonne e minha tese versa sobre os escritores americanos da “Geração Perdida” em Paris da década de 1920.

- Que interessante, foi a melhor época de Paris. O jazz tomava conta da cidade, sem contar os melhores drinks. A produção intelectual fervia. Paris tinha de tudo e para os americanos ainda tinha a vantagem cambial. Tudo se convertia para Paris e tudo exalava sexo com muita bebida. Que época. É um bom estudo, acredito que você esteja encontrando informações valiosas sobre a época.

- Estou sim. Por exemplo, hoje comecei a andar pelos roteiros onde os escritores conviviam, ou melhor, produziam. E nada melhor do que começar pelos roteiros de Hemingway.

- Você já leu “Paris é uma Festa”?

- Sim, foi através desse livro que organizei o roteiro. Por mais que seja, para mim é o melhor livro dele. E o mesmo tem toda uma história interessante por trás e um significado maior ainda.

- Verdade. Mas se prepara, você precisa ter fígado, Ernest bebia demais, por mais que produzisse no mesmo nível.

- Imagino.

O garçom põe o Dry Martini na mesa. O mesmo se mostra muito atencioso com Paulo, seu nome é Sam. Paulo lembra do pianista do filme Casablanca, a simpatia de Sam era o oposto da arrogância de Rick no filme. Paulo começa a observar o bar enquanto Claudia atende o telefone celular.

O bar do La Closerie des Lilas é o típico American Bar. Iluminação incidental, escura, com um belo estoque de destilados. Suas pequenas mesas de madeira, tipo de colégio, apresentam pequenas placas de diversos autores e artistas que conviveram naquele ambiente. Uma grande poltrona de couro acompanha as linhas arquitetônicas do bar. Na parede do bar ao lado da prateleira de bebidas alguns quadros e fotos. Em cada canto uma foto de Ernest Hemingway, além de um medalha em bronze com o seu busto. O território estava demarcado pelo escritor. Logo na entrada do bar um pianista que tocava o jazz da época, além de alguns clássicos parisienses como Edith Piaf ou Charles Trenet.

- Desculpa, precisava atender, era um cliente. — fala Claudia apertando minha mão.

- Não tem problema, estava observando o bar. Será que o mesmo ainda mantém os traços originais da época de Hemingway?

- Pelo que sei sim, salvo algumas manutenções e trocas naturais em função do tempo.

- Mas me fala um pouco mais sobre seu trabalho. — Paulo pergunta com uma cara de fascínio e excitação.

- Eu trato como um trabalho comum aos outros. Eu era uma arquiteta, era infeliz, não me sentia bem e ganhava pouco. Fui estudar arquitetura porque meu pai insistiu. Ele é arquiteto e queria que eu assumisse seu escritório de design. Aquilo era muito chato.

- Imagino, principalmente quando os pais forçam algo que não queremos.

- Então, eu era uma garota com vinte e poucos anos, queria algo diferente para minha vida. E naqueles dias que você precisa de um drink para aliviar o estresses, fui para um bar no Quartie Latin e encontrei uma amiga dos tempos da universidade. Bebemos muito e conversamos mais ainda. Ela me contou que estava trabalhando com algo que a sociedade nunca iria entender, mas que era muito divertido e ainda rendia muito dinheiro. Fiquei curiosa e logo pedi para que ela me falasse.

- E o que era? — pergunta Paulo extasiado.

- Ela realiza fetiches de dominação. Ela é uma dominadora, uma Mistress.

- Mas, desculpa a indiscrição, vocês são prostitutas?

- Para muitos sim, para mim não. Eu não vendo meu corpo, eu vendo minhas técnicas. Eu vendo prazer para as pessoas, na verdade eu faço com que as mesmas tenham prazer com as suas próprias dores e loucuras.

- Interessante observar dessa forma. — fala Paulo.

- Aí minha amiga me perguntou se eu não queria conhecer aquele mundo. Fiquei um pouco com medo e apreensiva em um primeiro momento, mas depois me rendi e perguntei mais sobre tudo. Foram muitos drinks e muitas conversas, além de muitas risadas regadas à muita excitação. E para melhorar, por mais desconfiada que estivesse, ela me convidou para experimentar aquilo tudo naquele momento. Ela me dominando.

- Como? Você é lésbica?

- Sou tão lésbica como você é tonto. Não sou, até tive algumas experiências na universidade, mas gosto de homens. Mas naquele dia eu precisava conhecer tudo aquilo, até porque eu já tinha passado por algumas experiências de dominação e masoquismo, pequenos jogos sexuais, mas nada além de umas cordas e uns tapinhas.

- E o que você fez com a sua amiga? — naquela hora Paulo já está em ponto de bala. Parecia que iria hastear a bandeira nacional.

- Fomos para o seu apartamento. Basicamente um apartamento comum como todos aqui em Paris, mas quando entramos em um quarto ao lado da sala minha cabeça rodou.

- Como assim? — pergunta Paulo com um ar de suspense.

- Um verdadeiro estúdio de sadomasoquismo. Com diversos equipamentos, todo escuro, com paredes vermelhas e uma luz que dava um ar de porão ao ambiente. Na verdade aquele estúdio me dava a impressão de ter entrado em um calabouço da Idade Média, da inquisição. Nas paredes tinham diversos chicotes, mordaças, algumas máscaras de couro e de látex, e em uma outra parede todos os tipos de pênis de borracha com seus respectivos cinturões.

- E o que ela fez?

- Ela simplesmente me perguntou se eu confiava nela e que se ela passasse da conta eu deveria usar uma palavra senha. Lembro até hoje da palavra, Marquês. Acho que ela queria lembrar do famoso libertino Marquês de Sade.

- Sim, foi das obras de Sade que o conceito de sadomasoquismo tomou conta do mundo.

- Assim que dei liberdade para ela, a mesma começou a me preparar. Primeiro me despiu e me pediu que eu colocasse um par de meias de látex e uma máscara branca de látex. Depois ela me conduziu para um aparelho em formato de X e me prendeu. Braços e pernas abertos. Depois me colocou uma mordaça em formato de bola. Fiquei um pouco angustiada e ainda via minha saliva escorrer sobre meus seios. Aí ela começou a me chicotear levemente, mas quando percebia que eu estava excitada com aquilo tudo ela aumentava a intensidade.

Sam, o garçom, interrompe nossa conversa.

- Vocês desejam mais um Dry Martini?

- Por favor Sam, dois! — fala Paulo em risos sem graça para o garçom.

Cláudia dá uma risada de leve e continua com a sua descrição libertina.

- De repente ela coloca uma venda em mim. Já estava me sentido sufocada com a máscara. Mas aquilo me fez gozar do nada. Nunca tinha sentido aquela mistura de medo e prazer. Depois de intensas chicotadas ela parou. Fiquei naquela posição uns cinco minutos sem ela fazer nada. Só sentia sua respiração, mas um silêncio profundo tomou conta do lugar. Do nada ela tira a venda e a vejo, um pouco ofuscada, a mesma estava com uma máscara de látex preta e vestida com um macacão de corpo inteiro de látex. O macacão salientava seu corpo. Ela tinha grandes e maravilhosos seios, sem contar sua bunda, exageradamente grande e dura. Ela carregava em uma das mãos um rolo de plástico celofane.

- Aqui estão os drinks. — interrompe Sam. Paulo até gostou da interrupção, sua cara de excitação beirava a loucura.

- Obrigada. — responde Cláudia.

- Mas por favor, continue. — responde Paulo.

- Então, ela me tirou do aparelho e começou a passar o plástico por todo o meu corpo. Literalmente fiquei toda imobilizada com aquele plástico e de repente ela me deitou com força no chão. E do nada ela sentou com a sua grande bunda em meu rosto. Começou a me sufocar. Só se levantava na hora que sentia que eu não suportava mais. Aquilo me fez gozar mais uma vez. Ela apertava meu pescoço como se fosse me enforcar e fazia aquele movimento com a sua bunda intensamente, pelo menos umas dez vezes. Depois que ela parou aqueles movimentos ela me colocou de quatro. Se levantou e foi até a parede onde estavam os consolos e pegou o maior que tinha. Era um consolo negro, grande e grosso. Do nada ela me penetrou com força e puxava meu cabelo com força. Naquele momento eu entrei em transe. Medo e prazer acabavam comigo. Estava tão molhada que escorria no chão. Depois de levar várias estocadas ela me empurrou para o chão e disse para mim o que tudo aquilo significava e o que eu tinha achado. Literalmente perdi a voz e precisei de um tempo para responder suas perguntas.

- E o que você achou? — pergunta Paulo.

- Aquilo era o que eu queria, mas na verdade eu queria ser ela. Depois daquela experiência tivemos mais uns três encontros, ou melhor, aulas.

- Engraçado, curso para dominação?

- Mas com um diferencial, na segunda aula ela começou a me explicar como lidar com os homens, seus pontos fracos e seus desejos mais ocultos. Depois da terceira aula eu abandonei tudo e aqui estou. Já são dez anos. E descobri os desejos mais ocultos que uma mente humana, masculina, pode pensar.

- E sua amiga continua dominadora?

- Sim, ela é muito requisitada, principalmente por casais. Ela domina o casal ou junto com a esposa ou namorada, elas dominam o homem. Tem fetiche pra tudo.

- Interessante. Mas e você?

- Eu só domino homens. Só tenho prazer e técnicas para dominar homens. Uma vez até tentei dominar minha amiga, mas me rendi às suas dominações. E hoje vivo disso, além do prazer consigo ganhar muito dinheiro.

- Que legal. Fico feliz de você estar feliz.

Depois daquela conversa, Paulo e a dominadora Cláudia tomaram mais uns cinco Dry Martinis cada um, muita conversa sobre fetiches, sobre a vida, boas risadas. Sam não se cansava de trazer os Martinis e ainda pedia para o pianista uma série de músicas que Paulo adorava. Tudo sob os olhos atentos de Hemingway na parede do bar.

- Esqueci de Hemingway! — fala Paulo aflito.

- Esquece! Todos os dias são dias para Hemingway. Lembre que ele tinha uma frase perfeita.

- Qual? — pergunta Paulo.

- “Para escrever você precisa viver a vida”. Então viva, mas com prazer. Mesmo que doa um pouquinho. (risos)

La Closerie des Lilas — Paris — 18/11/2014