A prisão de Santo Antônio ou Os olhares do Menino Cem Gramas — Por Fábio Pereira Ribeiro

Era uma vez, em uma cidade onde o chão rachava de quente, lá onde uma vez Lampião passou, e onde também um menino só observava, e observava muito, que esta história aconteceu. E olha que aconteceu!

Em um belo dia, João das Neves acordou aflito, e lá pelas tantas, saiu pelas ruas rachadas de quente da pequena cidade de Queimadas. O sertão da Bahia já não era o mesmo, até Lampião tinha se cansado de lá com seu bando, nem Maria Bonita queria mais a benção do padre antes de meter a navalha na garganta de algum soldado, mesmo que fosse da volante sergipana. Dizia a boca miúda que Lampião antes de sair de Queimadas matou sete soldados dentro da delegacia, fez mulher algumas meninas, e ainda pediu a benção ao padre que também negou, mas este foi encontrar São Pedro antes da hora. Mas Queimadas também já tinha história, lá pelas tantas do século 19, o Exército Brasileiro, ainda em formação, por mais que a experiência de Guararapes ainda não lhe desse o devido crédito, parava em Queimadas na estação de trem da Leste para que os canhões e as tropas tomassem marcha até Canudos, assim o beato poderia ter medo, bom, foram quatro viagens até de fato mandar Conselheiro conversar com DEUS, ou receber os seus devidos conselhos.

Mas voltando a pequena história, João das Neves tinha feito coisa feia noite anterior. Ele simplesmente se apaixonou pela mulher do Padre, bom, não o padre da Igreja, mas sim o Padre, o famoso tenente da volante sergipana que descansava em Queimadas e matava em Aracaju. Seu apelido se tornou Padre pois ele tinha fama de benzer todos os defuntos que mandava para conversar com o tinhoso. E João das Neves, cabra arretado, valente, mas medroso por um par de coxas, se meteu a se meter com Aliana, a mulher do Padre, ela também com as suas formosuras, suas ancas e peitos, não deixava ninguém sossegado naquela pacata, outrora bagunçada, Queimadas. João das Neves era um cabra bonito, corpo de parede, cabelo alinhado na vaselina, quiçá no ovo, e perfume de dama da noite. Só tinha um problema, os dois eram vizinhos, ou melhor, os três. E quando seu Padre saía nas volantes e demorava alguns dias para retornar, o calor de Queimadas aguçava outros calores, até que um dia João das Neves não teve neve para suportar o calor, e aí, deixa para as candinhas contarem o resto.

Mas naquela última noite, João das Neves compreendeu o incompreensível, na saída da alcova de Aliana e de Padre, ele viu um vulto, como um fantasma passar por si e lhe observar. Assim, no dia seguinte, depois do sono profundo, chegou a hora de partir, sua brilhante e pouca idéia era se proteger em Serrinha, ledo engano. Assim que parou em frente à Igreja de Santo Antônio, fez o sinal da cruz, mas antes de chegar ao Espírito Santo, um balaço lhe cortou o ventre. Fulminante para pintar a terra carmim de Queimadas em vermelho sangue e pecado. Era cedo, ninguém na rua, somente João das Neves, o vulto, e um menino que acabava de sair de casa com um pote com ovos de galinha caipira para vender na estação da Leste. O menino deixou cair o pote no chão com o barulho do estampido. O vulto somente piscou, foi embora tranquilamente. O corpo de João das Neves jazia ali, o menino olhou e percebeu que João dava risada, mas o menino estava mais do que preocupado, pois do pote, pelo menos uns dez ovos se quebraram. Esse menino não tinha medo de Padre, tampouco de João das Neves, quiçá de barulho de revolver, ele tinha medo é de Seu Romão, cabra da peste que fazia farinha virar açúcar e não deixava nenhum trem passar pela Leste sem ver as linhas com precisão. Dizia a lenda que seu pai, o avô do menino, fez Lampião mijar de cócoras em Queimadas. O sangue fervia à valentia. O menino pensou consigo, "ai, ai, ai, o que meu pai vai pensar?".

Dias antes, o menino, Tóinho, foi apartar uma briga de seus dois irmãos, e tentar um diálogo com Romão e apanhou junto para aprender que se fizer merda, a chinela vai comer solta. Aprendizados da roça e do sertão. Mas aquela chinela lhe atrapalhou no baba, na bola, no jogo de futebol. Tóinho era fera, ficara conhecido como Cem Gramas, pois era tão magro, mas tão magro, que quando corria, chegava antes da bola, não tinha goleiro que lhe pegava, parecia uma asa de galinha. Esse moleque jogava bola, tinha até aposta entre os moleques, e até mesmo dos apostadores das rinhas, que Cem Gramas faria além da conta.

Cem Gramas estava preocupado, perdeu dez ovos e ainda viu o morto na frente da Igreja, mas e o assassino? Ele até imaginava quem era, mas o que falar? Bom, Cem Gramas foi dar um jeito nos dez ovos, e já percebeu que o delegado, José Lestrade, acabará de sair à rua, de pijama, pois morava em frente à Igreja, para analisar o fatídico. Cem Gramas correu para a Leste. Lá com certeza ele resolveria o mistério dos ovos quebrados.

Dias depois, depois do enterro do morto, do sumiço de Aliana e de seu marido, o Delegado José Lestrade estava mais perdido do que outra coisa. Tentou incriminar todo mundo, principalmente quem tinha contato com João das Neves. Cem Gramas continuava vendendo seus ovos, e também teve uma estratégia para os dez ovos quebrados, fez uma cola. Bom, isto dá um outro conto. Mas como em um momento inspirador, o delegado teve a brilhante idéia de resgatar boletins históricos para tentar alguma pista, e o mesmo se deparou com a seguinte história ocorrida em Queimadas. Um dia, um defunto apareceu na porta da casa de um tal de Senhor Wilson, e como na época não conseguiu prender nenhum suspeito, o tal do Senhor Wilson foi preso para averiguação até que o suspeito de fato fosse preso, assim a teoria era, onde o defunto jazia o suspeito era o dono da terra. Bom, naqueles últimos dias o Padre Zé estava em Nordestina cobrindo as férias de outro padre, e levou consigo a estátua de São Sebastião para as rezas do mês. Na Igreja somente Santo Antônio, o português que virou italiano graças ao amigo São Francisco de Assis. Queimadas é devota de Santo Antônio. A Igreja é a santidade do povo de Queimadas.

Mas o delegado, em sua fúria de ignorância, resolveu criar a seguinte tese:

  • Já que o morto morreu na frente da Igreja, ninguém foi encontrado como suspeito, e o Padre Zé está em Nordestina, levaremos Santo Antônio como testemunha, cúmplice e suspeito para averiguações!
  • Mas dotor delegado, o senhor não está exagerando? — pergunta o cabo Genésio, seu assistente.
  • Genésio fique quieto, perceba, eu sou o doutor aqui!
  • Mas dotor, prender o Santo faz mal! É pecado!
  • Fique quieto! Vamos lá, pegue algemas e vamos prender o Santo!

Enquanto o Cabo Genésio, com aquela cara de choro, apanhava as algemas e seu revolver, Cem Gramas passava em frente da Igreja.

  • Menino Cem Gramas! Hoje apostei em ti, quero ver três bolas no gol! — grita o delegado.
  • Ohhhhhh seu delegado, pode deixar, vou fazer é seis! — responde Cem Gramas.
  • Ah, avisa Romão que preciso lhe falar hoje!- fala o delegado.
  • Pode deixar! Meu pai tá lá na farinha, acho que já saiu da linha.

Cem Gramas senta na frente da Igreja e observa o movimento do delegado e do Cabo, ou melhor, as trapalhadas dos dois.

O delegado junta todo ar no peito e adentra à Igreja, quando abre, pede benção a Jesus Cristo e já aponta para Santo Antônio. O Cabo, em prantos, pega a estátua e leva para fora. Enquanto isto lá fora um monte de gente se aglomera. Duas senhoras, gêmeas, irmãs, começam a gritar.

  • Você está louco?????? Você perdeu o bom senso homem?
  • Santo Antônio teje preso! Você está sob custódia do poder policial de Queimadas para averiguações da morte morrida de João das Neves! Sob a suspeita de que o morto morreu mortinho na frente da Igreja! — grita o delegado para todos que querem ouvir.

Cem Gramas morre de dar risada, e pensa consigo, dez ovos, seis boladas na rede, um morto, um matador e a chinela de Seu Romão. Doía pensar na chinela do Seu Romão.

Depois de meses, Santo Antônio estava preso na delegacia sob a custódia do brilhante e ignorante delegado Lestrade. As missas foram transferidas para a delegacia, única concessão que a besta do delegado deu à cidade. O Cabo Genésio pediu transferência, achava que tudo aquilo era quebrante.

Mas um belo dia, depois daquele baba onde Cem Gramas fez dez balaços na rede, todos comemoravam o campeonato do sisal, Cem Gramas resolve falar de emoção.

  • Sabe, nossa cidade está passando dificuldades agora. Vejo meu pai, e sua chinela, reclamar que na Leste o futuro não será mais o mesmo. Acho que terei que ir para Capital, ou até mesmo para Alagoinhas viver outra vida. Acho que vou estudar, vou deixar o baba! Mas preciso contar uma coisa!
  • Fala Cem Gramas, o que acontece? — pergunta Alessandro, um dos moleques que jogava na ponta esquerda com Cem Gramas.
  • Sabe por quê Queimadas tá passando o que está passando?
  • Por quê?
  • Prenderam Santo Antônio! Enquanto ele estiver preso, mulher não casa, chuva não cai, ouro e diamante não aparecem, e eu tenho que ir para Salvador! Só por isso! Eu vi o morto, morrido de morte, mas tenho minha suspeita de quem seja o matador do morto.
  • Mas quem é?
  • Foi o Padre!
  • Ai Jesus! Seu Zé? Padre Zé? Eu sabia, ele gosta de um rabo de saia além da conta!

E assim, Queimadas não foi a mesma, o Santo sumiu, a terra rachou, mas o povo continua divertido….. ah, sobre o Cem Gramas, ele continua fazendo gol, mas agora na Educação! E encontraram ouro e diamantes no entorno de Queimadas…. mas e o Santo Antônio????? Ah, João de Alice tentará mudar tudo….