Cem Gramas e a Feira do Pau de Queimadas — Por Fábio Pereira Ribeiro

Depois de um baba daqueles, o menino Cem Gramas retornava esbaforido ao centro de Queimadas. Foram oito golaços, o goleiro estava perdido tentando entender de onde veio tantos rojões, nem seu Gerúndio conseguia explicar as bola dentro do gol. Seu Romão descascava uma laranja em frente de casa e já olhava para as unhas da mão, assim, para que com o mesmo canivete, suas unhas ficavam um brinco, nem manicure da capital faria igual. Ele já olha para Cem Gramas de longe, o mesmo também já olha para Romão, a cumplicidade dos dois é tamanha que entre o riso e o medo uma linha tênue acontecia de fato.

Romão também observava o furdunço que acontecia lá na frente junto à praça central, era a romaria na delegacia para rezar com o Santo Antônio que estava preso, mas ao mesmo tempo dava risada de toda situação, principalmente das trapalhadas do delegado Lestrade.

  • Menino como foi o baba hoje? — pergunta Romão.
  • Paizinho, foi bão, tinha um moleque traiçoeiro lá, mas tava tudo bem. — responde Tóinho.
  • Mas já que o moleque tá no pique, pegue lá uns ovos e leve para suas duas tias lá na Feira do Pau, e também mande um bilhete para o seu Tio Frei Lucas.
  • Ah Pai! Tá bem, mas já tá tarde, eu to cansado do baba. — retruca Cem Gramas.
  • Eu lá lhe perguntei isso? E peça para Frei Lucas lhe abençoar para o próximo baba.

Assim o pequeno Cem Gramas pegou os ovos, o bilhete para Frei Lucas e mas um punhado de umbu para ir comendo, pois seriam somente uns quarenta minutos de pernas.

O chão batido, rachado do calor, já dava o caminho para a Feira do Pau, povoado pertencente à cidade de Queimadas. O menino ia quase todos os dias até a Feira do Pau, lá vivia parte da família de seu pai, era uma verdadeira ginástica ir até lá, de alguma forma ele mantinha suas cem gramas de peso e agilidade para que o futebol acontecesse. Era uma sexta-feira, e Cem Gramas estava preocupado com o horário, pelo jeito Frei Lucas não o deixaria voltar, somente no dia seguinte logo cedo, e Seu Romão já sabia disso. Quem sabe Cem Gramas receberia bons conselhos de Frei Lucas? E lá foi o menino, no chão batido, o sol se pondo, e logo o caminho iluminado pelas estrelas do sertão da Bahia se apresentava. Tinha chão pela frente, mas ele já estava acostumado, principalmente depois de um futebol, ou de um baba que ele tinha colocado alguns golaços na rede. No andar de Cem Gramas sua mente lhe levava para as diversões em Queimadas, como também trazia a lembrança de que no sábado teria feira, a famosa Feira do Pau.

A Feira do Pau é um povoado que fica distante seis quilomêtros do centro de Queimadas. Na verdade um quadrado formado por mais ou menos quarenta famílias e seus agregados, quase uma cidade, na minha opinião de forasteiro, uma cidade, mas na visão de Cem Gramas, lá é a Feira do Pau. O nome surgiu de uma lenda verdadeira, das verdades que se tornam lendas. Todo sábado acontece a feira do povoado, o comércio acontece e abastece às famílias. Mas uma mistura de vendas e cachaças além da conta, com uma pitada do humor nordestino do povo baiano, no final da feira as peixeiras se conversam, ou melhor, o riscar das facas literalmente vão a pau. Assim, o povoado se tornou Feira do Pau, e haja peixeira para tanto pau.

Mas lá nosso herói, e grande observador de Queimadas, o menino Cem Gramas, chegou esbaforido na casa do seu Tio, o Frei Lucas. O Frei o esperava junto ao pequeno muro enquanto descascava uma laranja. De qualquer forma, como todas as vezes, Frei Lucas sempre abria um sorriso para o pequeno Cem Gramas.

  • Bença Tio. — Cem Gramas pede a benção ao Frei e o mesmo o abraça.
  • Que Deus te abençoe menino. E como foi o baba?
  • Hoje muito bão tio.
  • Que bão, tá com fome moleque? — pergunta o Frei Lucas.
  • To não. Painho lhe mandou estes ovos.
  • Ah Romão, agradeça seu pai, venha aqui para comer um umbu, você quer?
  • Quero! — Cem Gramas corre para dentro da casa e cumprimenta suas tias que estavam a conversar.

Frei Lucas observa a alegria do moleque, enquanto o segue. Dá uma bronca nas irmãs que estavam a fofocar sobre a vizinha. O menino quando chega na cozinha já se lambuza só de olhar o monte de umbu, e não perde tempo em se lambuzar de verdade com aquele fruto que tanto significado tem para o povo nordestino, principalmente o povo do sertão. Frei Lucas passa a mão na cabeça do sobrinho enquanto o mesmo nem respira enquanto come do umbu.

  • Moleque, conta uma coisa para o seu tio, que história é esta que o Delegado Lestrade anda a criar novas leis na cidade? — pergunta Frei Lucas enquanto pega um umbu.
  • Sabe tio, o delegado tá doido, já foi o Santo Antônio que ainda tá preso lá, agora ele inventa umas leis que só da cabeça dele tem sentido. — fala Cem Gramas enquanto parte para o seu terceiro umbu.
  • O que ele aprontou agora? — e mais um umbu.
  • Ele inventou uma lei que agora depois das dez da noite se ele ver duas pessoas juntas sozinhas na praça ele manda prender.
  • O quê? — pergunta o Frei assim que parte para o quinto umbu.

Enquanto Cem Gramas pegava seu oitavo umbu, a história foi contatada. O Delegado Lestrade, o mesmo que arrumou um problema sério com Santo Antônio, agora inventou, por bem da segurança pública de Queimadas, que depois das dez da noite, duas pessoas andando nas ruas de Queimadas atentariam contra a segurança da cidade. Mas em uma bela noite de verão em Queimadas, onde o vento também queima, a praça central estava no silêncio só. Em frente à delegacia o Delegado Lestrado fumava sua palha, e de longe observou que vinha um vulto, pelo jeito, e como também Lestrade o observou, percebeu que o vulto vinha prá lá e prá cá. Um zigue-zague só. Pelo jeito, o vulto estava para lá de Canudos, esse vulto comeu água até dizer chega. Assim que o vulto se aproximou, o delegado se jogou na frente do mesmo.

  • João? É você? — pergunta o delegado.
  • Ops, so, sou eu dotor Lestrade. — fala o vulto, agora João.
  • Tás bêbado safado?
  • Tô?
  • Tá.
  • Mesmo?
  • Tá, não me provoque cabra. Por sinal eu já mandei avisar a todo mundo aqui que duas pessoas à noite andando a sós eu prendo.
  • Mas eu tô sozinho dotor delegado!
  • Tá?
  • Tô! — João nem se aguenta de tão bêbado e cai sentado.
  • E o que eu tô fazendo aqui? Teje Preso! Somos dois!

O menino Cem Gramas nem se contêm, cai na risada. Frei Lucas dá uma gargalhada que até suas irmãs param de falar da vizinha. O pote de umbu quase desapareceu, deu para notar que o pecado da gula não existe para o Frei, tampouco para o menino Cem Gramas. E assim, depois de entregar os ovos, comer um pote cheio de umbu, além de ouvir as fofocas da vizinha, o menino Cem Gramas recebeu a benção do Frei Lucas para voltar mais seis quilômetros, mas considerando o vento que fazia naquela noite de calor, o menino avoaria para Queimadas, e com certeza, no dia seguinte, com a bença de Frei Lucas, o baba receberia mais seis balaços na rede.