Hemingway liberta a Shakespeare & Company na Rue L'Odeon — Por Fábio Pereira Ribeiro

- Metralhadora em ponto de bala. — Fujam seus nazistas desgraçados. — grita Ernest Hemingway enquanto dispara sua metralhadora .30 em direção a um grupo de nazistas que estava estacionado no Carrossel de L’Odeon.

De cima do edifício número 12 na Rue L’Odeon em Saint German dés Prés, Hemingway e mais quatro soldados ajudam a Resistência Francesa a expulsar os nazistas da Paris ocupada.

Depois de uma chuva de balas, de um cano pegando fogo e de alguns nazistas pulando como macacos, Hemingway percebe que o campo está livre, já é hora de descer e avaliar o estrago.

- Graças a DEUS você apareceu Hemingway. Não sei o que seria de nós e da nossa pequena livraria. — brada Sylvia Beach.

- A guerra transforma nosso faro. Senti que vocês estariam desamparadas e lógico, não poderia me furtar em deixar nossa pequena livraria ser tomada por estes seres desprezíveis.

- A guerra sempre lhe transformou. Para você a guerra não significa morte. Vejo em seus olhos que a guerra significa liberdade e sentido para você. — fala Sylvia com os olhos cheios de lágrimas.

- A guerra machuca demais, mas não podemos deixar estes loucos tomarem conta, se um dias eles vencerem, nós sofreremos uma guerra eterna. Prefiro meter uma bala em minha cabeça. — diz Hemingway enquanto bate em sua farda e tira o pó de pólvora que a metralhadora lançou em seu corpo.

Naquele momento Sylvia Beach dá um longo e apertado abraço em Ernest Hemingway. Suas lágrimas limpam a farda suja de Hemingway.

Sylvia Beach é uma verdadeira guerreira e aventureira, além de ser extremamente inteligente e poliglota. Graças às suas aventuras, a literatura universal do século XX se transformou.

Sua maior aventura, para deleite de milhares de leitores em todo mundo, foi a empreitada chamada Shakespeare & Company. Uma pequena livraria situada no térreo do número 12 da Rue L’Odeon, no mesmo edifício em que Hemingway bravamente botou os nazistas para correr. O grande diferencial dessa livraria era somente vender livros em inglês. No entre guerras, Sylvia Beach conquistou corações e cérebros de uma geração de escritores, pintores, poetas e críticos que encontravam em Paris o ambiente perfeito para suas criações e produções, além do bom vinho e do gin de excelente qualidade a preços convidativos.

Graças a Sylvia Beach, Hemingway se alimentou de boa literatura universal em inglês, James Joyce conseguiu publicar seu famigerado Ulysses e Gertrude Stein conseguiu ficar mais crítica, e também mais chata.

A Shakespeare & Company tinha uma mágica só dela, um verdadeiro imã que puxava genialidade em tempos tão bestiais.

- Sylvia, sua mágica um dia transformará esta rua, e Paris também. — fala Hemingway depois daquele longo abraço.

- Quem dera meu querido eu transformar algo. Eu só quero vender livros.

- Não, você não vende livros, você vende sentido para as almas que precisam de liberdade. O livro é o melhor companheiro do homem. Quando precisamos de pureza buscamos um bom livro. Imagina quando não estou em alguma guerra? Eu busco guerras nos livros, assim aquela sensação de liberdade me é tocada através das letras. Prefiro uma rajada de palavras do que deixar minha alma cega em um mundo de realidades nefastas.

- Hemingway, você que é mágico. Suas palavras são o combustível para que continuemos.

- Bom, vou lhe deixar, preciso matar mais alguns desgraçados. Ahhh… nazistas, como são chatos. — fala Hemingway.

Hemingway sobe no jipe que já está preparado com a metralhadora .30.

Se despede de todos e grita.

- Apareçam nazistas desgraçados. Ainda tenho muita munição para vocês!

Naquele instante Sylvia vai ao meio da rua e grita.

- Mate-os! Mate todos eles e faça sua mágica acontecer. — Esse é o verdadeiro Ernest Hemingway.

Sylvia olha para sua pequena livraria e sonha com o futuro.

Ela pouco imaginava que sua mágica transformaria a literatura universal.

Hoje Sylvia não existe mais, mas seu legado literário ficou. A Rue L’Odeon tem sua essência própria graças à Sylvia Beach e todos os grandes ícones da literatura mundial do século XX. Foi-se a verdadeira Shakespeare & Company de Sylvia Beach, mas outras dezenas de livrarias ainda vivem na rua para a alegria da alma irrequieta de Ernest Hemingway.