Kiki de Montparnasse — Por Fábio Pereira Ribeiro

Paris tem diversos personagens que ainda vivem em suas ruas, cafés, restaurantes, boates e bibliotecas, mesmo mortos. Em cada década do século XX, Paris teve a sorte e a alegria de abrigar nomes que ajudaram a mudar e transformar a história da cultura mundial. Muitos escritores, artistas plásticos, pintores, escultores, cantores, cientistas, políticos, prostitutas, dançarinas e loucos desvairados que deram um pouco mais de sentido para a vida e para o próprio mundo. Imagina para Paris?

Pelos becos de Paris, personagens foram escritos pelas verdadeiras razões da vida. Montparnasse conheceu muito bem. Becos e ruas sentiram os cheiros, quiçá o sexo, mas de alguma forma, a vida deu corpo e tomou corpo em Paris.

Todos os dias Alan ia até Montparnasse para encontrar seu espírito. Ele procurava em todos os bares e locais, que de alguma forma, ainda representavam o que o seu passado deixava de legado. Ela pedia mistério, principalmente no desejo e no sexo, mas de alguma forma extrapolava os mais irreais sentidos da vida humana, principalmente aqueles onde os valores carnais estavam acima dos valores morais.

Alan estudava cinema, e nas horas vagas, quase todos os dias, rascunhava pequenos textos, pequenas poesias, e algumas possíveis peças de teatro. Ele migrou em alguns estudos. Fez o que a mãe queria, como todo potencial artista, estudou direito, quase se formou em engenharia, tampouco terminou filosofia. Nada lhe dava prazer, somente literatura. Todos os dias ele carregava consigo um pequeno caderno de anotações, dois lápis bem apontados e dois ou três livros que falavam sobre as histórias da “geração perdida” dos anos 20. Era fascinado pelas histórias de Gertrude Stein e companhia. Mas seu maior desejo foi pela obra do fotógrafo americano Man Ray, principalmente quando conheceu a mesma na escola de cinema. Alan morava em um pequeno sótão na Rue Racine. Pouca comida, muitos estudos, lia tudo, e observava tudo de sua pequena janela, Paris era um verdadeiro exercício para seus experimentos e sentimentos, principalmente fotografia e escritas. Tinha mais proveito em escrever roteiros e ideias, do que realmente fotografar.

Paris era um grande experimento para Alan, todos os dias quando flanava pelas ruas de Paris, sua plástica transformava sua tentativa de arte. Ele se confundia, um dia fotografia, outro tentava escrever um roteiro para o melhor filme, noutro escrevia algo que poderia se tornar um romance. Seu foco sempre foi o engajamento da “geração perdida”. As ruas de Montparnasse apresentavam a verdadeira Paris, inclusive as casas que todas as tolerâncias toleravam.

Depois que Alan conheceu a arte de Man Ray, ao mesmo tempo conheceu os desejos dela. Todos os dias imaginava suas loucuras pelas ruas de Montparnasse, principalmente pelos cafés que circundavam o bairro. As tolerâncias invadiam as casas, mas não os desejos dela. Ele sonhava todas as vezes que estava sentado em um café, principalmente quando escrevia algo, ou pensava em um novo roteiro. Kiki de Montparnasse dominava os mais loucos desejos e sonhos de Alan, fetiches eram construídos, iluminuras de uma noite de verão, ou até mesmo de inverno, mostravam o quanto o lado animal de Alan poderia ser disparado com uma noite de sexo, desejo e calor com Kiki. Ela era a última loucura de Montparnasse. Alice Prin, nascida em 1901 em Chântillon-sur-Seine, foi cantora, dançarina, puta, amante, modelo e triste, essa foi Kiki. Amou e deu para todos os possíveis artistas que fizeram a modernidade universal, mas também comeu todos, ou melhor, ela devorou todos, Man Ray durou alguns anos, foi sua maior loucura, a única que lhe dominou, o restou ela dominou, sem frescura, mas dominou. Alan conhecia todas as suas loucuras.

Um dia, depois de alguns cafés no Dome, Alan foi até o Le Jockey. Um antigo cabaré que se tornou mais um restaurante parisiense para alimentar turistas com a nostalgia da antiga Paris. Nada lembrava o verdadeiro Jockey, tampouco as lembranças de Kiki. Mas naquele dia, depois de uma longa aula sobre técnicas de fotografia, Alan precisava de algo mais forte. Tomou alguns cafés no Dome para fechar suas pesquisas, mas já estava cansado, ainda com força para aguentar algo mais forte.

No Le Jockey sentou perto do bar. Pediu um Dry Martini enquanto observava os quadros históricos que representavam o restaurante no passado. Já passavam das nove da noite. Passou a rascunhar algumas ideias, precisava projetar seu trabalho final de curso, ou filmava algo, ou escrevia um roteiro original. O diploma de cinema tinha algum valor para ele, não necessariamente o seu futuro. O Barman deixou o drink em sua mesa, o mesmo pediu desculpas, pois os garçons estavam na área de fora do bar. Ele deu um grande gole do drink, a cabeça subiu e doeu.

- Por que você espera tanto o que você pode ver imediatamente? — pergunta a moça na mesa ao lado.

- Como? — ele retruca com ar duvidoso.

- Acredito que você procura algo que imagina ser impossível de ver, não é? — ela pergunta.

- Desculpa, mas procuro o quê? — ele pergunta novamente.

- Kiki! Sei que a procura. — a moça, loira e alta, pergunta.

- Por que?

- Deixe disso Alan, estudo contigo, você nem percebe minha existência. Tentei falar com você algumas vezes, mas nada. Somos amigos das turmas de técnicas de fotografia e roteiros. Você não se lembra? — ela pergunta.

- Desculpa, mas não me lembro de você. — ele responde.

- Você parece viver em um outro mundo quando falamos contigo.

- Prefiro focar nos meus interesses.

- Interessante e chato ao mesmo tempo. — ela retruca.

- Mas já que sabe, me fale de Kiki. — fala Alan enquanto bebe mais um pouco de seu drink.

A garota começa a descrever o seu contato com Alan na universidade, fala sobre Kiki e também sobre o curso que os dois fazem. Ela pede um drink para o garçom, Alan não parece interessado. Depois que ela descreveu todo o curso e o pouco contato que teve com Alan, algo o despertou. Ela conta toda história de Alice Prin, de Kiki de Montparnasse, todas loucuras, suas aventuras amorosas, seus desejos com Man Ray, até o seu final de poço, bêbada e doente. Contou sobre sua autobiografia com prefácio de Ernest Hemingway, e o quanto sua obra se integrou com o tempo.

- Desculpa, mas qual o seu nome? — pergunta Alan como se estivesse fora do ar.

- Por incrível que pareça, me chamo Alice. Alice Stanpou, sou de Grace, tenho 20 anos, estudo cinema e estou na mesma sala que você. Prazer? — ela provoca.

- Desculpa, meu foco me tira da realidade. — ele tenta se desculpar.

- Por nada, imagino que sim, gosto de homens focados. — ela provoca.

- Grace? A cidade dos perfumes? — ele pergunta.

- Sim, isso mesmo, sou de lá. Também é conhecida com a cidade onde Edith Piaf morreu. — ela responde.

- Isso mesmo. Piaf… adoro. — ele fala.

- Você gosta mesmo? — ela pergunta enquanto bebe de seu drink.

- Amo.

- Que bom, também amo. Imagino que Piaf e Kiki viveram tempos iguais, mas opostos, espero que saiba disso? — ela pergunta.

Naquele momento Alan terminou seu drink, pediu mais um Dry Martini, perguntou se Alice queria algo mais. Os dois discutiram sobre as histórias de Kiki de Montparnasse, principalmente sobre seus desejos e fetiches. Os dois, depois de alguns drinks, uma garrafa de vinho e algumas vieiras, o desejo falou mais forte. Kiki não lhe apareceu como sonhava, mas seu espírito sim. Era assim mesmo, Kiki estava morta já fazia tempo, mas sua alma ainda vive por todos os cantos, becos, bares, restaurantes, mesas e camas de Montparnasse.

Le Jockey, Paris — 01/06/2015