Meia noite em uma primavera literária de Paris — Por Fábio Pereira Ribeiro

Paris me faz voltar no tempo, naquele tempo que se faz presente, no passado que já foi escrito, que se faz presente, sem se preocupar com o futuro. Paris não é para amadores, mas sim para iniciados em uma cidade onde turistas ficam perdidos, mas onde apaixonados pela cidade realmente se encontram.

Um dia eu resolvi escrever sobre a cidade, ela se tornou a personagem principal de algo que um dia chamaria de romance, um romance pela cidade, aquela cidade onde em seus cafés eu realmente conseguiria perceber o quanto a arte tinha definitivamente um valor para nossas vidas.

Pelos muitos cafés de Paris, quiçá pelos seus restaurantes, ou até mesmo pelos seus becos e porões, a cidade se apresentava como um verdadeiro amor. Paris é assim.

Na Paris que conheci, e a que conheço, tenho a liberdade de conversar com Ernest Hemingway, como também tenho a liberdade de ver e encontrar Kiki de Montparnasse, como também Picasso, Man Ray, Scott Fiztgerald e sua Zelda, ou Salvador Dalí e seus rinocerontes, como também os diversos garçons e barmen que fazem da cidade uma Festa, como diria Hemingway.

Mas um dia, depois de dois anos, o livro que escrevi em Paris retorna para a Cidade Luz. Escrever sobre a cidade me ajudou a conhecer pessoas fantásticas, me ajudou a conhecer a própria literatura, até mesmo a literatura brasileira e portuguesa, e logo em Paris. Assim tive a honra de conhecer o brasileiro da gema, o Professor Doutor e Livre Docente, Leonardo Tonus, chefe da cátedra de Estudos Lusófonos da Université Sorbonne.

O Professor Leonardo Tonus é aquele cara que você simpatiza só de olhar para ele. Com uma inteligência ímpar, além de um humor sagaz, ele me fez o convite para que eu participasse da quarta Primavera Literária Brasileira da Université Sorbonne (https://www.printempslitterairebresilien.com), a famosa Printemps Littéraire Brésilien. E junto com toda a alegria, ganhei a felicidade de também participar da Feira do Livro de Paris, e mais honrado ainda, no stand da Embaixada do Brasil em Paris.

Assim parti para Paris com tão honrado convite, e sabedor de que não poderia fazer feio, mas sim belo, pelo respeito que a literatura em sua essência merece. Junto com a minha Paulinha, desembarquei novamente em Paris, a cidade que tanto amo, e que sempre amarei.

Chegar em Paris, para mim, tem alguns rituais. Em um primeiro momento respirar Hemingway, a Paris de Hemingway que tanto conheço. Como no filme, que é uma obra prima, Meia Noite em Paris de Woody Allen, eu também preciso voltar no tempo a partir da pequena colina da Igreja de St Etienne du Mont atrás do Panthéon. Dali logo tomar um Dry Martini no Closerie des Lilás em Montparnasse, ao som do piano do meu querido franco brasileiro Adrien e dos serviços mais do que eficientes do querido amigo Sam, e com o seu famoso brado Yes Sir! Depois de ouvir Piaf, partimos para o outro lado do rio, e lá vamos nos servir no Ritz, no Hemingway Bar e tomar mais uma copa, e mais um Dry Martini, assim as memórias do livro se abrem como uma verdadeira história que está consolidada em minha alma. As ruas de Paris, entre as margens esquerda e direita, se confirmam como verdadeira música para meus ouvidos e para os nossos pés que dançam com suavidade. Eu e Paulinha dançamos Paris.

Assim chegou o dia de adentrar naquelas belas arcadas e vestíbulos da imponente Sorbonne. Principalmente adentrar pela porta da literatura, e melhor ainda, pela Língua Portuguesa. No primeiro dia, ali naquele salão onde mortais se tornaram imortais, estávamos a receber a alma da Língua Portuguesa em sua abertura de uma primavera, muitos professores e autores brasileiros e portugueses, que tanto nos honram com letras em um mundo tão virtual, quiçá digital e distante. No dia seguinte, já na Paris IV, depois de um longo trânsito parisiense, alunos franceses de Língua Portuguesa aguardavam para compreender como nós pensamos e escrevemos literatura em um século XXI. Naquele instante em que tomei lugar e olhei para os singelos e virgens rostos de alunos e alunas, percebi o quanto vale à pena voltar para uma sala de aula, por mais que lá fosse um auditório.

Lá tive meu primeiro e efetivo contato com o mundo da literatura além de escrever literatura. Conhecer o sentimento de outros escritores para mim foi uma experiência fantástica, foi efetivamente compreender o quanto as letras representam a alma de cada um, e colocar no papel a alma é como sangrar diariamente por algo que realmente vale à pena. Ouvir a escritora Julia Wähmann falar de literatura e dança e perceber que as suas próprias letras dançam como um tango em Corrientes ou em um Cisne, como também perceber que o simpático e novo amigo francês e português, Mickael Oliveira, ou Mickão Cdeo, tece lindas homenagens à sua terra, que também é nossa, e fala com sentimentos de um país que se faz de memórias e canta um fado por um passado que ainda não foi. Por sinal, neste dia aprendi com Mickão que a língua portuguesa nos ensina palavras e expressões diariamente, tudo depende de que português você quer ser e sentir. Assim percebi que a Língua Portuguesa é mais do mais, diferente do que acham, o Português se faz como diria um amigo, "é mais difícil que o chinês", mas ao mesmo tempo como diria Cervantes, "é a língua mais linda".

E no mesmo dia, depois das diversas perguntas dos alunos, tive o prazer, além da honra, prazer de fato, fazer uma leitura de algumas linhas, páginas, do meu romance, do meu querido romance UM DRY MARTINI PARA HEMINGWAY, na casa dos livros, na Biblioteca da Université Sorbonne Paris IV. Para um singelo grupo de estudantes e ouvintes, pude ler minhas singelas palavras, o que me remeteu ao passado, dois anos antes enquanto andava pelas ruas de Paris e escrevia em seus cafés. Sob os olhares apaixonados de Paulinha, pude expressar meus sentimentos, aqueles onde a literatura te leva para além das representações de nossas vidas. Neste mesmo encontro conheci Socorro Acioli e seu maravilhoso romance sobre a cabeça de Santo Antônio no sertão do Nordeste brasileiro. Que escritora, ali aprendi um pouco mais sobre literatura, escreva, escreva, e escreva, principalmente quando sua filha dormir sossegada.

Depois daquele maravilhoso encontro, no dia seguinte partimos para a Feira do Livro de Paris. Assim que subi as escadas do Metrô de Paris e me deparei com os pavilhões e a grande placa indicativa da Feira do Livro um sentimento de choro tomou conta do meu corpo. Paulinha estava irradiante. Lembrei-me da última vez que estive em uma Bienal do Livro, bem garoto, e o quanto estava louco para adentrar, mas agora, estava ali como escritor, me contive no choro, pois eu estava em Paris, independente de qualquer coisa, eu estava em Paris, como escritor de um livro sobre Paris. Como diriam os franceses, era o crème de la crème, a cidade me retribuiu. Entrei com as credenciais de escritor, e assim que entrei, um mundo se apresentou para mim. O mundo da literatura, a partir do escritor, se mostra um mundo à parte. O mundo daquele sentimento, continue lendo e escrevendo, obrigado gerúndio.

Andar por seus corredores, o que mais amei foi ver jovens, muitos jovens, crianças, sem seus aparelhos celulares, sem redes sociais (ficou para depois), sem computadores, sem tecnologia, mas sim, sim, com livros, o bom e velho livro, aquele livro novo, que é velho para muitos jovens, mas é o mais novo de todos os velhos. Ali de fato me senti na literatura, o quanto vale à pena investir na pena, investir tempo em colocar as palavras no papel.

Ai, depois de alguns corredores, de desbravar o mapa do jogo War, e passar pelo Marrocos, chegamos no stand da Embaixada Brasileira em Paris, só de ver a bandeira do Brasil já senti o cheiro tupiniquim. E logo vi meu nome junto ao pavilhão nacional, mais choro em meu corpo. Muito bem recebido pela Ministra Cláudia, representante da Cultura em Paris, fui tomar lugar para conversar sobre literatura. E mais um dia confortante, lá estavam o Professor Leonardo Tonus e o amigo Mickael Oliveira. Falamos sobre nossas formas, também sobre prudências, quiçá imprudências no ato de escrever, mas falamos de nossos sentimentos, para uma platéia diferente, entre iniciados na Língua Portuguesa como também para franceses curiosos. Até porquê para entender a Língua Portuguesa tem que ser um iniciado, como em uma sociedade secreta. Depois que o coração ficou aliviado, ainda tive fôlego para dar uma entrevista para a Rádio France International. Eles queriam respostas sobre um brasileiro que escreveu em português sobre Paris. Coisas simpáticas de Paris, que é uma Festa! Bom, estava livre e aliviado, assim, eu e Paulinha fomos viver Paris!

Depois de sentir a minha Paris com a Paulinha, já chamo de minha a cidade que tanto amo, principalmente quando estou com a Paulinha, eu parti para Lisboa, pois lá ainda teria mais literatura.

E na terra onde o choro tem nome de Fado, nada mais do que emocionante você falar de literatura no berço de sua língua mãe. Ali de fato eu lutaria mano a mano. Em duas universidades eu mostrei minhas vontades e sonhos, e compartilhei com outros escritores o quanto escrever de fato é valioso em nossas vidas, pelo menos economizamos em remédios e terapias, ou percebemos que além de nós, existem outras pessoas que estão conectadas na mesma sintonia, e têm as mesmas vontades. Mas Lisboa me deu uma grande lição, além de amar as ruas de Alfama, conhecer a boa literatura brasileira, aquela onde o sentimento vai além do publicar um conjunto de páginas. No som do Fado pude ouvir Andrea Nunes, como também pelas ruas do Chiado percebi que Nina ia além mar da Europa tão longe de Botafogo para mostrar que o amor é o mais singelo dos sentimentos humanos, ou perceber que dois queridos amigos que vivem em Paris se confirmam em Portugal, Miguel e Sara Nogueira mostram o quanto os estudantes ainda nos dão esperanças em estudar a Língua Portuguesa, mesmo que seja na Sorbonne. Assim Lisboa, como Paris, continuam uma Festa!

Mas não posso deixar de falar, tomar um Dry Martini com aquele que ainda não sabe usar a vírgula foi uma grande experiência, um grande momento, aquele onde a inteligência toma lugar para mostrar o quanto somos humanos.

E assim, era uma vez, minha primeira experiência na literatura.

UM DRY MARTINI PARA HEMINGWAY aconteceu. Para mim entrou para a história, pelo menos para a minha história. Mas com certeza ele me ajudou em uma coisa, decidir que eu tenho que continuar no grande prazer que a literatura traz, o simples prazer de ser feliz.

P.S.: peço perdão pelos erros de português (alguns de propósito para a máfia da crase), a língua é mais complicada que o chinês… xie xie…..