O arqueólogo que precisava de um drink — Por Fábio Pereira Ribeiro

Depois de meses de escavações em Jerusalém, Charles Plint consegue chegar são e salvo em Paris. São e salvo de verdade, pois o mesmo sofreu dois atentados enquanto escavava no bairro judeu ortodoxo de Jerusalém, mas mesmo assim ainda lhe sobrou bastante folego, além de alguns arranhões e um pedaço de chumbo alojado no fêmur.

Especialista em Arqueologia Bíblica, Charles estudava as verdadeiras origens de Maria Madalena e seu vínculo com Jesus Cristo. Mapeou diversos sítios arqueológicos em Israel e na Jordânia, além de alguns sítios no Sul da França.

Com mais de mil artefatos coletados em anos de escavações, agora ele se prepara para escrever sua tese para o seu pós doutorado em Arqueologia na Universidade de Sorbonne. Algo que consumirá pelo menos um ano de sua vida, quiçá três anos. Mas esse trabalho é o sonho de sua vida.

Charles já viajou diversas vezes para o Oriente Médio, conhece cada sítio como a palma da sua mão, além de ser um grande aventureiro, um verdadeiro Indiana Jones. Suas pesquisas já lhe renderam prêmios, condecorações do governo francês, além de uma longa lista de inimigos, alguns judeus, outros católicos, governos entre outros loucos de plantão que acham que sua pesquisa pode revelar algo que possa abalar as estruturas de diversas religiões. Como ele mesmo afirma, dá de ombros para isso tudo. Prefere acreditar no seu sonho, na sua profissão e seguir em frente.

Depois de uma série de reuniões na Sorbonne, Charles só precisava de um drink e relaxar. Foram anos, meses e dias intensos, principalmente no seu retorno para Paris. Charles mora perto da Sorbonne, em uma rua que tem uma história própria, pois dois grandes escritores viveram ali. Ele mora no número 40 da Rue Cardinal Lemoine, rua essa onde viveram James Joyce e Ernest Hemingway. Mas Charles não era muito ligado nesses escritores, sua literatura era toda envolvida na arqueologia e nos estudos bíblicos, sua verdadeira paixão, por sinal quase se tornou padre, mas a arqueologia falou mais alto.

Logo que saiu da Sorbonne, Charles se dirige para o local certo para beber algo, observar as pessoas, pensar na vida e relaxar um pouco, ele se dirige para Place de Contrescarpe.

A Place Contrescarpe pode ser definida como um paraíso divertido escondido em Paris. Para se chegar na Place Contrescarpe tem dois jeitos, uma pela Rue Cardinal Lemoine e outro pela Rue Descartes. As duas ruas dão direto na praça que é rodeada de bares descolados, restaurantes nem tanto, mas o que é mais divertido dessa praça é o movimento de estudantes da Sorbonne, principalmente da Faculdade de Direito, que fica alguns passos dali. Todos os dias a praça tem um movimento intenso, mesmo no frio e na chuva. É a coisa bem parisiense, cafés, conversas, observar e ser observado, e claro, flertar.

Charles tem o seu local preferido na praça, vai direto para o café La Contrescarpe. É o maior café da praça e está muito cheio. Muitas jovens estudantes, isso o anima, considerando que é um arqueólogo solteiro, livre e solto, mas com a vida que ele leva, poucas suportam tanto tempo. Sua vida é o mundo, o amor verdadeiro ele ainda não conseguiu escavar, tampouco encontrar.

Logo que chega já é recebido com festa pelos garçons.

- Seja bem vindo professor! — grita um garçom do fundo do salão.

- Aqui está sua mesa professor! — outro garçom aponta uma mesa bem na porta de entrada do salão. Charles gosta de ficar do lado de fora para observar o movimento da praça.

- Obrigado queridos! Até que enfim estou de volta. Por favor uma garrafa de champagne Veuve Clicquot. Hoje preciso relaxar e comemorar.

- Pois não! — e o garçom que aponta a mesa já vai ao bar atender o pedido do professor.

As mesas estão apinhadas de pessoas. Na maioria, estudantes. Alguns acessam para Charles e o mesmo retribui com cumprimentos e acenos. Naquele momento ele precisa de uma bebida, somente uma bebida. Não precisa de agitação. Terá um ano inteiro pela frente em Paris, serão os dias certos para sua agitação.

Na mesa ao lado duas moças conversam animadas, muitas risadas e pelo tom da conversa as mesmas estão falando mal de algum homem, mas parece ser divertido. Na frente um casal de jovens que não param de se beijar, o garçom já está irrequieto com a cena, mas qual o problema?

- Aqui está professor, sua champagne, bem gelada como o senhor gosta. — o garçom coloca o balde com a champagne na mesa e começa a servir Charles.

- Obrigado.

- Saúde professor, seja bem vindo e faça bom proveito de sua estada em Paris. Espero que seja longa!

- Graças a DEUS é sim.

Charles dá um profundo gole em sua bebida e respira fundo.

- Hummmmmm que saudades disso! — fala Charles com profundo prazer e suspirando forte.

Depois de tanta terra, de algumas correrias na Terra Santa, alguns professores duvidosos e outros acadêmicos nem tanto, Charles parecia voltar ao normal. A vida de arqueólogo nem sempre é a representada como nos filmes de Indiana Jones, mas Charles era um cara a parte. Sua fama o precedia. Sempre foi um grande estudioso de história e arqueologia, antes mesmo de ir para a universidade o mesmo já se dedicava a devorar livros de arqueologia, ciências ocultas e tudo sobre a história do cristianismo e da bíblia, não era a toa que sua vocação para a Arqueologia Bíblica traçaria o rumo de sua vida.

- Quanto tempo professor? O senhor está bem? Como estão as escavações? — um moça se aproxima de sua mesa e lhe cumprimenta.

- Oi! Quanto tempo? — Charles se levanta para a cumprimentar aquela moça.

- Muito tempo. Adorava suas aulas. Graças ao senhor me fascinei pela arqueologia e pela história.

- Desculpa minha indelicadeza, eu me lembro muito bem de sua feição, mas infelizmente tenho um problema sério com nomes de alunos e ex-alunos. Como você se chama? — pergunta Charles com aquela cara vermelha de vergonha.

- Sem problemas professor, eu sou a Michelle. Eu sempre estava junto com a Pauline, aquela que te enchia o saco, ou melhor, acho que ela te odiava, mas tinha uma queda pelo senhor. — fala Michelle dando risada.

- Ahhhh (risos), agora me lembro de você, e também de sua amiga chata, como ela me provocava….. no péssimo sentido digo. — fala Charles com uma cara de dúvida.

- (risos) Que bom que o senhor lembrou, como o senhor está? Faz muito tempo que não lhe vejo.

- Estou bem, acabei de chegar de uma longa temporada de escavações em Israel. Hoje é o meu primeiro dia livre.

- Que legal, e quais as novidades? O senhor encontrou a Arca da Aliança? — ela pergunta com um ar de sarro.

- Queria eu, na verdade estou trabalhando em minha nova tese sobre Maria Madalena.

- Não é o caso do Graal, do Dan Brown?

- (risos) Minha cara, eu sou um arqueólogo e não um romancista afim de faturar rápido. Eu literalmente trabalho por ideal, se tudo o que desenterrei me desse uma fortuna, na verdade viveria tomando champagne todos os dias. Por sinal, você aceita uma taça?

- Obrigado professor, é claro que aceito. Não te atrapalho?

- Não. É um prazer. Garçom, por favor mais uma taça. — Charles evoca ao garçom já com a garrafa de Veuve Clicquot nas mãos.

O garçom é ligeiro. Faro natural de um bom garçom, coisa difícil em qualquer lugar do mundo, principalmente em Paris, mas algumas regras sempre são feitas para quebrar.

Michelle é uma moça bem bonita. Trabalha no Museu do Louvre como especialista técnica na reserva técnica para Idade Média. Seu primeiro curso foi história, mas se encantou pela arqueologia. Charles foi seu professor no Mestrado e o mesmo a encantou com suas histórias de escavações, principalmente pelos achados. Tentou fazer um doutorado em Arqueologia, mas infortúnios em sua vida a fizeram abandonar o processo. Ela perdeu sua mãe durante o processo, e aquela perda foi muito traumática. Eram grandes amigas, além de mãe e filha. Uma verdadeira incentivadora para sua carreira.

- Mas me conta professor, como foi sua última escavação? — pergunta Michelle brindando o convite.

- Saúde! — brinda Charles.

- Saúde sempre! — repete Michelle.

- Essa última foi difícil. Só passei por encrencas. Acho que escavei muitos inimigos. Ser arqueólogo não é só glamour de filme. Provocamos muitas pessoas. Trazemos muitos artefatos ao mundo real que derrubam diversas mentiras.

- Imagino!

- Estou mexendo com algo que pode bagunçar a cabeça de muita gente.

- Ah é? Me conta!

- Infelizmente não posso, mas tenho certeza que irá abalar alguns conceitos da religião e da própria teologia. Mas esse é meu papel.

- De abalar religiões? — pergunta Michelle com um sorriso sarcástico.

- Engraçadinha! Meu papel é escavar, e encontrar. Eu preciso trazer ao mundo evidências que mostrem a verdade. Eu sempre digo que o meu trabalho é contar verdade! A história contada aí não é verdadeira, pelo menos em 99% dos casos!

- Nossa professor! Não é exagero?

- De forma alguma, a história é contada de um jeito para que o protagonista que paga para contarem sempre saia como herói. Na vida real não existem heróis, só temos personagens e infelizes.

- Para mim o senhor é um herói. — Michelle fala com um olhar provocante.

- Eu herói? Faça-me o favor. Só cumpro o meu papel e dou sentido para minha vida. De resto, não quero ser herói de ninguém. É importante que não tenhamos heróis em nossas vidas. Isso ofusca demais nossas realidades. Mas e você, o que tem feito?

- Estou trabalhando na reserva técnica do Louvre. Acho que me encontrei. Faço um pouco de história e arqueologia ao mesmo tempo, mas tem o lado chato da coisa, a catalogação. É tudo muito chato, burocrático.

- Mas tem que ser feito, senão os museus não existiriam.

- Concordo, mas é insuportável. Eu adoro o momento que recebo as peças. Muitas doações, algumas aquisições, além do trabalho da própria arqueologia do museu, mas nos últimos anos reduziu drasticamente.

- Eu sei, acompanho as notícias.

- Surgiu até um boato que o governo francês iria vender algumas obras para ajudar no orçamento da república. Dá para entender? Sabemos que os custos são altos, mas não é para tanto, considerando o volume de turistas que recebemos todos os anos.

- Cultura sempre será cara, principalmente para manter, mas nossos políticos não ajudam.

- Mas me conta uma coisa professor? Por que a champagne? Comemoras algo? — pergunta Michelle.

- Sim e não.

- Sim e não?

- (risos) Eu comemoro minhas escavações, são anos e anos de sonhos e práticas realizados. Além de estar de volta para minha cidade luz. E não, porque todas as vezes que estamos em Paris devemos tomar uma champagne, é um momento único em nossas vidas.

- O senhor como sempre divertido.

- Eu sou o que sou, desde que eu volte para Paris para beber algo e pensar na vida, não necessariamente na minha, mas naquela que deverá ser vivida.

Mais uma garrafa de Veuve Clicquot foi chamada para a mesa do professor Charles, mas dessa vez paga pelos próprios garçons. Os mesmos tinham muito apreço pelo mesmo.

A conversa varou a noite na Place de Contrescarpe. Muitas risadas, muitas conversas e depois de algumas copas o flerte começou. Algo natural, se ele era o herói dela. Mas Charles era uma verdadeira múmia nestes momentos. Nem ele mesmo conseguiria se desenterrar. O amor e o sexo ainda eram mistérios em sua vida. Mas naquela noite ele precisava de um drink, conseguiu mais.

Le Contrescarpe — Paris — 20/11/2014