O segredo está no Vermute

- Eu já te falei diversas vezes que o segredo para um bom Dry Martini depende do tempo de duração de sua garrafa de vermute. — Jerry grita com seu assistente enquanto ensina a fazer um Dry Martini.

- Eu entendi, mas nunca sei o tamanho da doze. — responde o assistente e projeto de barman.

- Robert, mais uma vez. Para um bom Dry Martini o segredo está no Gin. Sempre inglês. Mas evite o modelo 007 da Vodka. Vodka é para os fracos, para os otários, os russos nunca foram confiáveis. Dry Martini tem que ter Gin inglês. O único segredo de James Bond é o “no shaking”, o resto é balela de espião. Mas o vermute tem um detalhe importante, é só um cheiro, se passar disso é só por uma cereja e tomar um Martini doce. Coisa de tia velha em alguma praia de San Remo ouvindo Roberto Carlos.

- Sim senhor, senhor Jerry! — responde Robert.

Depois daquele instante etílico, o experiente barman Jerry volta ao seu normal. Seu trabalho é fazer o drink perfeito. Apaixonado pela obra de Ernest Hemingway, Jerry pensava como seu autor preferido, se era para ter a frase perfeita ele precisava fazer o drink perfeito.

São mais de quatorze anos no comando da coqueteleira do Harry’s New York Bar em Paris. Jerry já perdeu as contas de quantos Dry Martinis fez em toda sua história no Harry’s. Jerry tinha um jeito diferente de lidar com os clientes, além de ser ultra divertido, o mesmo era exótico. Tinha um bigode ao estilo de Salvador Dalí. Todos adoravam Jerry. Somente uma única vez que Jerry se estressou com um cliente. O mesmo queria tomar uma dose de vermute puro com uma cereja, Jerry colocou o cliente para fora do bar.

- Robert, você precisa entender que quando um cliente pede um Dry Martini ele não é um cliente comum. Todo cliente que pede o drink dos drinks é um cliente especial. — fala Jerry enquanto prepara um drink.

- Mas por que? — pergunta o ingênuo Robert.

- É o drink da inspiração, salvo os incautos, os clientes que lhe pedirão um Dry Martini estarão em momentos de produção cultural, intelectual. Nestas mesas que você observa todos os dias já passaram as maiores mentes culturais, e todas, sem exceção, beberam um Dry Martini enquanto produziam. Eu já fui testemunha de muitas histórias, e ainda tive a oportunidade de ver muitas obras.

- Mas Senhor Jerry, por que o Dry Martini exerce essa influência? — pergunta Robert.

- É a química de misturar dois componentes tão diferentes, mas depende de como você mistura. 2/3 de gin com 1/3 de vermute. São componentes muito distintos, como água e óleo. O segredo é o cheiro do vermute e nada mais. O segredo de se fazer um Dry Martini está no fato de uma garrafa de vermute durar mais de trinta anos. Se a sua garrafa durar esse tempo todo significa que você acertou nas doses, e com certeza seus clientes produziram arte de verdade.

- Quanto tempo tem essa garrafa de vermute? — Robert aponta para única garrafa de vermute do bar.

- Desde quando cheguei aqui. Eu mesmo a abri. O segredo está na rolha de garrafa de vinho que coloquei na boca da garrafa, só um pingo, um cheiro. Tem caras que gostam de dar um banho no gelo e depois jogar fora, mas o vermute é muito forte, assim tem que tomar cuidado. Eu prefiro um pingo junto à dose de gin e misturar bastante com o bastão. O Dry Martini é a alquimia dos drinks, entendeu? — pergunta Jerry apontando para Robert.

- Vou guardar para sempre essas dicas Senhor Jerry.

- Guarde e aproveite. Nestas mesas muitos Dry Martinis alimentaram a mente de Hemingway, de Joyce e principalmente de Scott Fitzgerald. Suas obras são marinadas no gin. Eles viviam aqui, e na maioria das vezes com um Dry Martini.

- (risos) Eu nunca li a obra destes escritores. — fala Robert.

- Para ser um bom barman você precisa ler a obra deles. Existem muitas passagens que você percebe a influência do drink.

- Ué, mas como eles conseguiam escrever com algo tão forte? — pergunta Robert.

- Robert, tem horas que penso que você nunca será um bom barman. Que porra de pergunta é essa? — fala Jerry nervoso.

- Desculpa.

- O barman é acima de tudo um intelectual. Nós devemos ler a mente dos nossos clientes, ouvir suas lamúrias e resolver suas angústias com os melhore drinks. Quando se prepara Dry Martini, além de resolver angústias, estamos potencializando o lado criativo de nossos clientes. — Jerry fala para Robert como se estivesse ministrando uma aula.

Enquanto Jerry ensina os segredos de um Dry Martini para Robert, um cliente chega e já chama a atenção de Jerry. Esse cliente é diário, tem uma rotina, sempre às seis horas o mesmo busca sua mesa ao lado do bar. Quase não existe diálogo algum com esse cliente. Ele chegava no bar, Jerry já preparava seu drink, o mesmo cumprimentava Jerry com um aceno de cabeça e passa a escrever em seu pequeno caderno de anotações. Fica sempre entre duas ou três horas naquela mesa e toma pelo menos umas cinco doses de seu drink favorito, e lógico, o Dry Martini.

- Veja aquele senhor que acabou de chegar. — aponta Jerry para o cliente enquanto fala para Robert.

- Sim, vejo ele todos os dias. Ele adora escrever e beber seu Dry Martini. Posso fazer o dele agora? — Robert pergunta entusiasmado.

- Ok, mas cuidado. Ele é rigoroso. Odeia o vermute, para ele o Noilly Prat é um mal necessário. — fala Jerry com um sorriso sarcástico.

Robert prepara o drink conforme os ensinamentos de Jerry. Enquanto isso o cliente escreve intensamente em seu caderno. O mesmo tem um ritual esquisito, todos os dias a mesma cena alimenta aquele ambiente. Antes de escrever ele olha para uma foto de Ernest Hemingway no centro do salão e fica quase cinco minutos em transe, como se pedisse inspiração para o autor.

- Aqui está senhor, seu drink como o de sempre. — Robert entrega o Dry Martini para o cliente.

- Obrigado! — o cliente responde já tomando um primeiro gole.

- Obrigado o senhor.

- Por favor garçom, faça outro, está muito Martini, só falta uma cereja nessa porra. — responde o cliente.

- Não está bom senhor? — pergunta Robert.

- Não, não está. Eu gosto do drink o mais seco possível. Jerry não fez esse drink? — pergunta o cliente.

- Não senhor, fui eu, peço desculpas.

- Tudo bem, peça para o Jerry fazer um novo e pode cobrar esse também, você não tem culpa. Jerry sabe como eu gosto. O segredo do Dry, além da garrafa de vermute, está na capacidade de você entender o tom de cada cliente e o por quê ele bebe.

- Obrigado senhor, vou pedir agora. Desculpa minha intromissão, mas vejo que o senhor escreve bastante?

- Sim, estou escrevendo um romance sobre aquele cara. — o cliente aponta para a foto de Hemingway.

- Que interessante! O Senhor Jerry me falou dele hoje.

- Eu sei o quanto Jerry gosta da obra de Hemingway. — responde o cliente.

- Preciso ler Hemingway.

- Para ser um bom barman, é óbvio, precisa sim! — responde o cliente. Naquele instante Robert entende que precisa sair e buscar mais conhecimento.

Jerry prepara um novo Dry Martini, não condena Robert, entende que antes de preparar um simples drink o barman precisa entender o jeito do cliente. Nada é por acaso. Ninguém entra em um bar somente para tomar um drink. Para Jerry, cada dia que um cliente entra no bar tem uma história, e aquela história poderá ser mudada ou transformada através do melhor drink, ou como diria Hemingway, “com a frase verdadeira”.

Voo de Zurique para São Paulo — Brasil — 29/11/2014