O Sol realmente se levantou em Paris — Por Fábio Pereira Ribeiro

Tristan era um jovem estudante de direito na Sorbonne. Eu o conheci em um Pub perto do Pantheón, conversávamos muito sobre filosofia e sociologia, mas sua paixão era a literatura. Tive contato com ele durante dois anos, mas depois, do nada, ele desapareceu. Perguntei para muitos sobre ele, nada, até que um dia eu recebi um pacote no Pub onde o conheci. Já tinha tomado umas quatro Guinness, estava um pouco tonto, estava sem comer desde o café da manhã, e concentrei meu dia em rever literaturas para minha tese de doutorado, até que aquela caixa caiu no meu colo. Uma carta com vinte e cinco páginas. Um descritivo geográfico de Paris. Meu amigo Tristan assinava a carta, e junto, um pequeno bilhete em anexo que dizia o seguinte:

Querido amigo,

Não fique preocupado comigo, estou muito bem.

Cheguei bem ao meu sonho.

Nestas páginas você pode imaginar a Paris que estou.

Sabemos que nossas loucuras se transformam em verdades.

Todos os dias eu vivo a cidade Luz.

Todos os dias me encontro com eles.

Todos os dias amo estar em Paris, na minha Paris.

Na minha verdadeira Paris.

Podemos nos encontrar em um lugar.

Esteja amanhã no Closerie des Lilas 18hs.

Não estranhe o amigo que estará comigo.

Fraternal abraço, Tristan.

Depois de bêbado, pouco entendi aquele recado, mas está bem, lá fui. Pedi mais uma Guinness e li todo material que estava no pacote. Lá percebi que um grande roteiro sobre Paris estava detalhado. Li tudo, bebi algo mais, e fui para casa. Morava ali perto, ainda deu tempo de beber uma saideira e encontrar uma amiga, que de alguma forma ainda rolou alguns beijos, necessidades biológicas de uma noite triste e fria em Paris. Ela queria algo mais, mas estava cansado, é assim, em Paris nossas amigas acadêmicas se tornam nossas amantes, mas elas querem mais do que nós, e quiçá queremos também mais, mas somos idiotas. Quem se atreve a lidar com a inteligência feminina?

No dia seguinte estava ansioso, não sei, mas ansioso fiquei. Cumpri minha agenda na Sorbonne, também fui assistir a missa na Igreja da Medalha Milagrosa na Rue du Bac, tomei meu café em Saint German, e depois migrei para Montparnasse. Literalmente no horário, lá estava eu no Closerie des Lilas. Pedi um drink, um Dry Martini, o garçom muito atencioso, diferente de todos de Paris, como diria Dalí, todos os garçons de Paris são chatos, o restante do povo é alegre.

Mas de repente em um só grito.

- Olá meu amigo!!! Aqui estou de volta. O banheiro do Closerie é apertado, mas aqui estou, e lhe apresento meu amigo.

Tristan aparece das escadas que levam ao banheiro do Closerie, junto com ele um senhor de cabelos brancos que todos o cumprimentam. Ele parece feliz, o garçom já lhe dá uma taça de Martini. Algo automático, o pianista começa a tocar um tango, tipo Corrientes 348, Gardel é pouco naquele momento.

- O que aconteceu? — pergunto.

- Me encontrei, na verdade nada aconteceu, eu só me encontrei. — fala Tristan.

- Mas por onde andastes? — pergunto.

- Uma longa história meu amigo, mas deixa eu te apresentar meu amigo. — ele puxa o senhor e me apresenta.

- Olá! — estendo a mão.

- Hemingway, Ernest Hemingway. — o senhor me cumprimenta.

- Hemingway??? — pergunto extasiado.

- Sim! Prazer, viemos beber ou conversar Tristan? — pergunta Hemingway.

- Vamos beber e flanar! — responde Tristan.

- Então vamos logo.

Literalmente fiquei atordoado, fixo no olhar sem entender nada em ver Ernest Hemingway ali no Closerie.

- Está tudo bem contigo? — pergunta Tristan para mim.

- Acredito que sim! Que porra é esta? O que está acontecendo? — pergunto enquanto eles se sentam.

- Meu amigo, eu fui procurar o que realmente faz sentido para mim, o passado é eterno para mim. Consegui encontrar uma forma para que eu voltasse no tempo. Na verdade voltasse para o meu verdadeiro destino, e no caminho encontrei Hemingway perdido no seu próprio tempo.

- Você não acredita? — Hemingway me pergunta enquanto bebe do Martini.

- Acreditar? — pergunto ainda atordoado.

- Beba, e depois você terá tempo para acreditar. — retruca Tristan enquanto bate nas minhas costas.

- Já sei! — grita Hemingway.

- O que foi? — pergunta Tristan.

- Vamos flanar, vamos andar pela minha Paris.

Pagamos a conta, o pianista trocou um dedo de prosa com Hemingway e logo estávamos na Rue Notre Dame des Champs descendo no sentido de Saint German. Hemingway apontou para o número 113 e, com um suspiro, nos contou boas histórias sobre sua segunda residência, além do seu amor por Hadley, lembrou do seu primeiro filho e da serraria que existia embaixo, tudo lhe deixava louco, pouco conseguia escrever ali. Ele gostava de morar ali, mas pelo barulho fugia para o Closerie, lá sim ele conseguia escrever com intensidade e honestidade, essa era sua filosofia, todas as frases deveriam ser honestas e verdadeiras.

Descemos até o Boulevard Raspail, Hemingway suspirava a cada passo, dizia que um frio tomava conta de seu velho corpo, como em calafrios por recuperar algo que nunca imaginaria ver, da morte o medo de não saber mais o que realmente aconteceria com a vida real. Por isso o passado tinha mais sentido para ele, realmente conseguíamos enxergar o passado, mesmo não estando nele. Ele já não tinha mais aquela pegada agressiva, tampouco para um boxe, quiçá uma dança, Hemingway não exalava mais aquele estilo bruto, machista, vitorioso, que de alguma forma, forjou sua imagem. Parecia mais um velho, no sentido mais chato da palavra, velho cansado, triste e chato mesmo. Mas naquele momento uma suavidade tomava conta do ar de Paris, uma suavidade ao melhor estilo de Hemingway, daquele corpo bruto, a suavidade transpirava de seu corpo, ele olhava os modernos edifícios dos anos atuais, mas ao mesmo tempo sentia os anos loucos dos 1920. Dos anos onde o modernismo tomou conta da vida humana, de uma nova conquista da vida humana.

- Andar por esta Paris de hoje me faz refletir um ponto importante. — fala Hemingway.

- Ah é? O que? — pergunta Tristan.

- O sol realmente se levantou! — responde Hemingway.

- Como assim? — pergunta Tristan.

- Você é um ingênuo! — retruca Hemingway.

- Eu acho que entendi… — retruco.

- Então diga!!! — grita Tristan nervoso.

- “Gerações vêm e gerações vão, mas a terra permanece para sempre. O sol se levanta e o sol se põe, e depressa volta ao lugar de onde se levanta”, assim está escrito em Eclesiastes na Bíblia. Assim a vida acontece, chega, anda, vai, e logo vai deitar novamente, mas tudo continua a mesma coisa, a única coisa que se consolida é o passado, lá está ele para observarmos e lembrarmos. Muda a arquitetura, por simples genialidade de DEUS, o resto continua a mesma coisa, pouco evoluímos em nossos sentimentos, por mais que evoluímos na ciência, mas o ser humano termina no mesmo lugar, e depois, dorme e levanta, como o sol! — respondo firmemente.

- Ufa! — suspira Hemingway, como se estive aliviado me dá um abraço.

- Tá bem, aceito sua resposta. — retruca Tristan.

- Vivíamos em um momento ímpar. Era maravilhoso viver aqueles “anos loucos”. — fala Hemingway.

- Anos loucos? — pergunta Tristan.

- Sim, o Jazz, as bebidas, o câmbio extremamente favorável para nós, expatriados, a “geração perdida” de Gertrude Stein. Aqueles anos foram tudo, foi lá que realmente consegui encontrar o sentido da literatura, das artes, imagina, eu, Scott Fitzgerald, Miró, Picasso, Gertrude Stein, as loucuras de Zelda, entre outros malucos que realmente fizeram o século XX ter uma outra cara. Erámos loucos, sonhadores e bêbados. — fala Hemingway enquanto solta uma grande gargalhada.

Do Boulevard Raspail avançamos diretamente para Saint German. Descemos à direita pela Rue de Sèvres e nos direcionamos para Saint-Sulpice. Chegamos até a Igreja de Saint-Sulpice, em frente daquela grande catedral, Hemingway lembrou de sua segunda esposa, Pauline Pfeiffer. Eles foram casados de 1927 até 1940, ela era muito religiosa e adorava ir até Saint-Sulpice, Hemingway já não fazia muita questão, mas lá ajoelhou e acreditou em Deus, aproveitou que moravam na rua lateral, a Rue Férou. Moraram no número 6, graças a um tio de Pauline, era um bom apartamento, ajudou muito na construção literária de Hemingway, além de seu impulsivo gênio naquele momento.

- Pauline me atormentava para vir todos os domingos nesta igreja! — fala Hemingway apontando para a Saint-Sulpice.

- E você realmente vinha? — pergunto com desdém.

- De vez em quando. — ele responde.

- Imagino o saco… — fala Tristan olhando para a igreja com um pouco de descaso.

- Essa igreja sempre me assustou. — fala Hemingway.

- Logo você assustado com uma igreja? — pergunto.

- Sim, sua arquitetura é tenebrosa, e na época tinha um vigário com aspecto mais tenebroso ainda. Por sinal ele falava mal de nós, da “geração perdida”. Falava que éramos literários bêbados e drogados, que acabávamos no Jazz e nas linhas tortas com frases mal acabadas que não representavam nada. — fala Hemingway.

Continuamos a “flanar”, Hemingway apontava para cada edifício e trazia deliciosas histórias, ou estórias, além de algumas lendas, principalmente daquela que ele ia ao Luxemburgo para esganar pombas, bobagens que inventavam para ele, referências à sua brutalidade. Andamos até a Rue Monsieur le Prince. Passamos em frente ao Le Polidor, Hemingway não pensou duas vezes, adentramos ao velho restaurante, com aquele ar de uma Paris que não retornava mais. Os garçons reconheceram Hemingway, o dono veio todo feliz nos cumprimentar com uma garrafa de vinho, um Bordeaux. Hemingway pediu gin para nós três. Sentamos enquanto o velho garçom, conhecido de Hemingway, abria a garrafa de vinho presenteada pelo dono, Hemingway pediu uma salsicha para acompanhar o vinho, um belisco inicial para algumas copas além do necessário. Já percebi que o grau etílico da coisa seria além da conta.

- Vim diversas vezes aqui. Esse restaurante tem o verdadeiro estilo parisiense. — fala Hemingway.

- Parece interessante. — falo.

- Vários encontros aqui Papa? — pergunta Tristan.

- Sim, muitos, mas vim muito aqui com Joyce, tomávamos todas. Ele bebia mais do que eu, por mais que sua esposa não aceitasse o fato. Ela me odiava, bom, como todas as esposas dos meus amigos. — fala Hemingway.

- O que você achou de Ulysses? — pergunto.

- Fantástico! Para mim a melhor obra já escrita no século XX. Literalmente provocante, mas poucos têm a inteligência para entender de fato. Precisa de alguns Dry Martinis para compreender. Nós discutimos muito sobre a obra, mas eu, por ser um grande fã, compreendi tudo sem muito trabalho. Joyce foi uma grande conexão com a minha grande amiga Sylvia Beach da Shakespeare & Company. — fala Hemingway.

- Vocês conversavam muito sobre literatura? — pergunto.

- Sim, mas na verdade, foi mais com Scott Fitzgerald que realmente eu tive uma visão mais aprofundada da literatura, além dos conselhos de Gertrude Stein. Com Joyce eu bebia muito, andávamos por alguns bares, restaurantes, sem contar as cloacas da Rue Descartes, perto do Pantheón. — fala Hemingway.

- Cloacas… — fala Tristan.

- Sim, as cloacas. Aquela região fedia, mas era o que eu podia pagar, tanto para as bebidas, como também para morar. Mas de uma forma real, eu era feliz, pouco tínhamos, mas tínhamos. Conseguia escrever e observar uma Paris que poucos conheceram. Sem contar o foco em realmente produzir a minha frase verdadeira. Só isso, eu queria escrever algo que realmente pudesse ficar para a história, para a posteridade. Paris sempre me ajudou. — fala Hemingway.

Naquele momento Hemingway começa a descrever o seu grande manual sobre Paris. Todos os lugares que valem a pena, a verdadeira Paris de Hemingway. Uma mistura de cafés e restaurantes, com museus e livrarias, locais onde sua formação literária se fez, acompanhada de alguns viagens. Aquela Paris dos anos 1920 que ainda se faz presente. Realmente, o sol se levantou, todos os dias ele se levanta para apresentar a Paris de Hemingway. Essa Paris começa na Brasseire Lipp, no 151 do Boulervard Saint-Germain, dali um pulo para a Place Saint-German-des-Prés no Café de Flore e também no Deux-Magots. Além dos cafés, Hemingway recomenda rezar na Igreja de Saint-German-des-Prés bem em frente ao Deux-Magots.

Daquele ponto, quase em frente, suas andanças e debates se encontravam com Janet Flanner, Margaret Anderson e Henry Miller, por sinal ele estaria todo pornográfico, no 36 da Rue Bonaparte, sem contar um drink no Café Bonaparte, onde os drinks nos levam às alturas. A Rue Bonaparte traz boas lembranças para Hemingway, ele fala suspirando, lembranças dos bons momentos com Hadley. Era no número 30 da Rue Bonaparte que ele aproveitava seu bom jantar com os parcos recursos que tinha, o Le Pré aux Clercs oferecia bons pratos com poucos centavos de dólar, além de uma boa jarra de vinho de mesa, da casa. Daquele café, Hemingway adorava observar o seu primeiro pouso em Paris, no 44 da Rue Jacob, o Hôtel Jacob et d’Angleterre, especialmente na suíte 14. Em 1921, por alguns centavos de dólares, Hemingway e Hadley davam início à evolução da “geração perdida”.

Outro local, que para Hemingway era fundamental, estava centrado nas esquinas da Rue Jacob com a Rue des Saints-Pères. O tradicional e clássico Michaud. Por sinal esse restaurante tornou-se referência em seu clássico “O sol também se levanta”. Inclusive, no Michaud, que o fálico encontro entre Scott Fitzgerald e Hemingway se deu. Papa lembra muito bem do evento, Scott estava preocupado com a sua relação com Zelda, seria o tamanho do pênis? Hemingway constatou que não, por mais exagerado que não fosse o instrumento de prazer, por mais urinário que a pequena coisa se encontrasse. Comento para Hemingway que a ideia de observação entre os dois era a coisa mais imbecil que já vi, principalmente em confirmar que o homem fraco, principalmente com mulheres, sempre culpa o estado fálico da coisa, sempre pensando com a cabeça de baixo. Bem masculino…

Do Michaud, Hemingway adorava beber com o irlandês. James Joyce vivia no número 9 da Rue de l’Université. Ulysses ganhou corpo neste sítio, inclusive uns drinks a mais do que necessário para mudar toda literatura universal, principalmente no inicio do século XX. O único problema dos encontros entre Joyce e Hemingway estava no fato de Nora, esposa de Joyce, fulminar Papa com todos os piores atributos de um cachaceiro com diploma da Sorbonne. Mas com certeza, conforme Hemingway diz, Joyce destruía mais copos do que ele.

Das extravagantes bebedeiras com Joyce, Hemingway rumava para o número 20 da Rue Jacob, nos malucos saraus, lésbicos e surreais de Natalie Barney. O “salão” de Natalie era o underground da Paris, dos anos loucos de uma Paris que não volta mais. A literatura pegava fogo, pintores e escultores pensavam uma Paris moderna, e Natalie conduzia o show. Hemingway bebia e entendia o que realmente seria o modernismo, e claro, tudo com uma pitada, forte, de sexo. “Fodas e fodas”, assim diria Hemingway com as suas fantasias.

Papa aproveita e lembra de um fato, além de Natalie Barney, Gertrude Stein fazia sua concorrência literária, e óbvio, lésbica para os “anos loucos”. Ali perto da Rue Jacob, Gertrude Stein e Alice B. Toklas viveram em sua segunda residência em Paris, no número 5 da pequena Rue Christine. Claro que os saraus de Miss Stein aconteciam de fato, e com extravagância na Rue de Fleurus.

- As duas viviam em uma concorrência barata. — diz Hemingway.

- Por que? — pergunto.

- Nunca entendi, mas era uma mistura de ciúmes com provocações intelectuais, sei lá! — responde Hemingway.

- Mas as coisas realmente aconteciam na Rue de Fleurus? — pergunto.

- Sim. O bom, que lá perto da Rue Christine, quando o saco enchia, eu partia para o apartamento/estúdio de Picasso. Ele vivia no 7 da Rue des Grands-Augustins. Eu e Picasso tínhamos uma relação conflituosa. O espanhol era fogo, temperamental, precisava de uma foda todos os dias, mas nunca fodia. Era foda. — fala Hemingway com um tom satírico.

- Você gosta das obras dele? — pergunto.

- Muito, ele era louco, mas tinha talento, um talento único, aquela mente pensava além do que realmente pensávamos. — responde Hemingway com um ar saudosista.

Depois de suspirar, Hemingway terminava seu roteiro de Saint-German através do 46 da Rue Saint-André-des-Arts. A rua dos estudantes que buscavam drinks além de livros. No 46 E. E. Cummings produziu suas melhores poesias, e lógico, Hemingway desfrutava disso. O encontro dos dois era somado à amizade com John dos Passos, poesia, literatura e história perfaziam aquele pequeno apartamento.

- De Saint-German, precisamos entender que Odéon e Saint-Sulpice também têm suas cumplicidades com minhas loucuras. — fala Hemingway.

- Ah é? — pergunto.

- Falar verdade? A “geração perdida” se deu ali. — responde Hemingway.

- Fale mais Papa! — grita Tristan em seu silêncio observatório.

- Sylvia Beach! Que saudades tenho daquela pequena. — fala Hemingway em suspiros de adolescente.

- Hummmm — provoca Tristan.

- Deixa de ser besta. Graças aquela pequena que a literatura do século XX mudou, se transformou. Ela foi a ponta de lança em uma guerra silenciosa. — retruca Hemingway.

- Imagino! — falo.

- Tudo começou na La Maison des Amis des Livres, no 7 da Rue de l’Ódeon. Meu amigo Sherwood Anderson me indicou, me apresentou. Foi lá que conheci as senhoras Beach e Monnier. Duas amigas, duas eternas amantes. Depois do número 7, as coisas aconteceram no número 12, na Shakespeare and Company sob a liderança direta de Sylvia Beach. Aquela pequena realmente fez a coisa acontecer. Ninguém queria publicar Ulysses do Joyce, mas ela peitou o preconceito e fez! — fala Hemingway.

- Ela era muito inteligente. — fala Tristan.

- Muito mesmo! Poliglota, altamente intelectualizada, uma verdadeira mulher, inteligente e provocadora com os seus saberes e conhecimentos da literatura universal. Lá eu podia ler tudo, principalmente quando me faltavam recursos, inclusive para comer. — retruca Hemingway.

Hemingway lembrava com saudades de suas experiências na Shakespeare and Company. Dos modestos tempos da Paris dos anos 20, como também do período da Segunda Grande Guerra. Na pequena livraria da Rue de l’Odéon, além dos livros, os encontros com grandes personalidades literárias era um cotidiano. T.S. Eliot, Joyce, Gertrude Stein e Scott, além de outros. Sylvia deixava que Hemingway pegasse livros emprestados, sem muita preocupação em receber o aluguel dos mesmos.

- Além da pequena livraria, e dos dotes literários de Sylvia, nós curtíamos o seu apartamento no número 18. Lá ela realiza pequenas tertúlias, além de bons jantares. Tanto eu como Scott, aproveitávamos ao máximo. Lembro de um desenho que Scott fez para representar bem isso, em uma noite onde ele desenhou ele, Zelda, Sylvia, Adrienne, Joyce, Gertrude e outros convidados. Um bom vinho e boas conversas. — fala Hemingway.

- Eu já vi este desenho. — comento.

- Eu também. — fala Tristan. — Bem interessante.

- Erámos felizes. — fala Hemingway.

Hemingway lembra com saudades de todos os momentos divertidos, alguns tristes, outros aventureiros, mas sempre com um tom de saudades. Para na Place de l’Odéon, no número 6 morava seu grande amigo Sherwood Anderson, ele que lhe deu as primeiras cartas de recomendações, inclusive para conhecer pessoalmente Gertrude Stein, por mais que o mesmo não usasse as mesmas. Dali, Hemingway gostava de estar com Scott em seu apartamento na Rue de Mézières, por mais que Papa pouco aceitava Zelda, achava ela meio melindrosa demais para a altura de Scott. Neste apartamento os dois tiveram algumas discussões homéricas, por mais que no fim Hemingway recuava a pedido de Scott. Da Rue Mézières, Hemingway lembrou novamente do número 6 da Rue Férou, onde viveu com Pauline, aquele endereço lhe proporcionava alguns prazeres. Do apartamento, alguns passos o levavam ao Musée du Luxembourg no número 19 da Rue de Vaugirard, que também o levavam ao apartamento do escritor Ford Madox Ford no número 32 da mesma rua, ou até mesmo no outro apartamento de Scott Fitzgerald no número 58. Para Hemingway, as atrações confluíam com a Rue Férou, principalmente no Musée, onde ele iria se inspirar com as pinturas de Cézanne. Cada traço de Cézanne, literalmente, representava pontos para a construção da frase perfeita, aquela frase que realmente conquistaria os corações dos leitores mais ferozes, que tudo se transformaria graças a uma identificação efetiva de o quanto a literatura poderia mudar uma vida.

- Mas o melhor, perto dali, estaria por vir. — fala Hemingway enquanto pede mais um drink.

- Ah é! — resmunga Tristan.

- O que é? — pergunto.

- A casa da “geração perdida”. A casa de Gertrude Stein e Alice B. Toklas no 27 da Rue de Fleurus. Aquele estúdio, um verdadeiro museu de inspiração com o melhor da arte parisiense, francesa, espanhola e mundial. Pouco mecenas era Gertrude e seu irmão Léo, mas ali tudo acontecia, diferente do seu endereço posterior. Era na Rue de Fleurus que íamos quase todos os dias, eu e Hadley. Alice tinha todo o cuidado para conversar com a minha esposa enquanto eu aprendia tudo o que podia com Gertrude. Era algo mágico, nós, eu e Gertrude, literalmente nos conectamos em uma visão única, por um bem maior. — fala Hemingway.

- E como era o local? — pergunta Tristan.

- Assim que adentrávamos o hall principal do edifício, acessávamos um longo jardim, nos fundos existia a entrada do salão. Aquele jardim parecia uma floresta. O apartamento era amplo, em dois andares. No salão principal, diversos quadros, alguns Picassos, outros Matisses, além de Cézanne e outros nem tão representativos, mas que no futuro se tornariam imortais e, lógico, representativos. Na outra sala, uma grande mesa, que me lembro, Gertrude aproveitava para suas extensas leituras. Acredito que ela leu alguns originais meus. Mas lembro, com carinho, que todas as vezes que ia em seu estúdio, percebia Gertrude Stein como um grande “Buda”. Ela sentada, logo abaixo de um quadro pintado por Picasso que lhe representava. Lembro bem, até hoje, quando a visitei pela primeira vez, foi em março de 1922. Foi um impacto… — fala Hemingway suspirando.

- Impacto? — pergunto.

- Sim, já naquele momento Gertrude Stein tinha sua fama. Para mim se tornou um arauto literário. Eu a queria, acredito que depois tanto quanto ela também me quis. — responde Hemingway.

- Mas o enquanto se perdeu, não é? — pergunto.

- Sim, mas até hoje não entendi o motivo. Tentei explicar em “Paris é uma festa”, mas em vão. Sei lá. — responde Hemingway.

- Ciúmes? — pergunta Tristan.

- Que ciúmes nada. Sei lá o que foi. Adorava Gertrude, inclusive ela foi madrinha do meu primeiro filho, Bumby. Trocávamos muitas impressões sobre literatura e como escrever. Ela me ajudou demais. Mas deixa para lá, eu adorava aquele lugar, era inspirador, sem contar os quitutes, doces e licores… hummmmmmm, cada um melhor que o outro. Além dos encontros. Todos os dias, sempre depois das quatro da tarde, muitos convidados, exceto Joyce. Gertrude o repudiava. Nunca entendi. — fala Hemingway.

- Imagino. — comento.

Hemingway enalteceu mais um pouco os valores de Miss Stein, tanto quanto seu jeito chato de lidar com algumas coisas. Mas ele enalteceu mais a Rue de Fleurus do que outra coisa. No 35 da rue, Hadley foi viver com o seu filho Bumby logo após a separação e o chifre assumido em contrapartida de Pauline. Já no número 1, Malcolm Cowley viveu para ver os expatriados, principalmente os loucos. Foi de lá que ele publicou “The Journey to Paris”, a primeira revista sobre os expatriados. Daquela pequena rua, todos desembocavam nos Jardins de Luxemburgo. Flanar pelos jardins era o melhor esporte para todos os expatriados em Paris.

- De todos os lugares de Paris, eu amei três lugares. — retruca Hemingway.

- Onde? — pergunto entusiasmado.

- Minha primeira e verdadeira casa na Rue Cardinal Lemoine, depois nos cafés de Montparnasse e no Harry’s Bar. — responde Hemingway.

- “O Sol também se levanta” tem um pouco do que você viveu na Cardinal Lemoine? — pergunta Tristan enquanto termina seu drink.

- Com certeza, mas não necessariamente o local, mas sim os personagens, salvo com realidade o dancing, ou melhor, o bal musette. Aquele som, aquelas putas, aqueles bêbados e pervertidos, fedidos de álcool, mas que de alguma forma formavam a noite de Paris, momentos tristes para alegrias passageiras. — responde Hemingway.

- Garçom!!! Um Dry Martini por favor! — grita Tristan empolgado.

O garçom se desespera, Hemingway dá risadas, só observo. O restaurante recebe uma mesa grande, umas dez pessoas chegam, parece uma excursão. Os garçons ficam aflitos, mas felizes, boas gorjetas.

- O meu roteiro para a Cardinal Lemoine e efetivamente a Rue Mouffetard partia de um ponto. — fala Hemingway.

- Qual? — pergunto.

- Qual? — pergunta o garçom curioso enquanto serve o Dry Martini para Tristan.

- Simples, no centro da ilha, entre as duas margens, um restaurante onde eu comia boas ostras e tomava um excelente vinho branco. A dona, simpática e chata ao mesmo tempo, dependia do dia, ou da foda que ela teve. Au Rendez-vous des Mariniers, no 33 do Quai d’Anjou. Madame Lecomte era proprietária daquela mistura de restaurante com hotel, ou vice-versa, quem sabe a ocasião? Ou a refeição? — fala Hemingway em tom brincalhão.

- Lembro que você falou sobre lá em “O Sol também se levanta”. — fala Tristan.

- Eu gostava muito de lá. Eu e Dos Passos bebemos alguns bons tragos lá, além de degustar frutos do mar. Ali perto, no 29, eu recebia alguns trocados dos meus escritos através do Three Mountains Press Office / Transatlantic Review. Depois dos tragos, do bolso cheio com alguns trocados, eu tomava meu rumo em direção ao meu pequeno apartamento na Rue du Cardinal-Lemoine, lá no 74, no terceiro andar. Aconchegante, mas frio. Por sinal, pouco conseguia escrever lá, o frio era intenso, o apartamento ficava muito gelado.

- Por isso você arrumou um estúdio na Rue Descartes? — pergunta Tristan.

- Isso mesmo. Lá podia trabalhar com tranquilidade e com um pouco de calor. Adorava o apartamento da Rue du Cardinal-Lemoine, mas embaixo tinha um Bal Musette, e toda aquela gente, os bêbados, tarados, putas e seus cafetões não me ajudavam em nada, somente para construir personagens, mas o barulho era insuportável. — responde Hemingway.

Hemingway lembrou que Joyce viveu no 71 da Cardinal-Lemoine, algumas vezes os dois tentavam subir aquela pequena ladeira com alguns drinks na cabeça, nem a bengala de Joyce segurava os dois. Além disso, o estúdio no 39 da Rue Descartes era um paraíso para os desavisados, além de lhe dar inspiração natural, pois o mesmo estúdio foi habitação do poeta Paul Verlaine que viveu lá 25 anos antes. Hadley não gostava muito quando ele partia para a Rue Descartes, por mais que fosse do outro lado da quadra, mas ele gastava no mínimo seis horas em produção literária. Devemos agradecer Hadley pela paciência, pois os escritos de Papa se transformaram com esta mudança temporária. Perto dali, Hemingway destacava a Place de la Contrescarpe e a cloaca de bêbados e pervertidos. Ali existia o Café des Amateurs, para Hemingway, a verdadeira cloaca com cheiro de whisky barato. Na esquina da sua casa, Hemingway tentava um pouco de descontração, mas impossível de escrever, diferente do café no Boulevard Saint Martin. Os bêbados eram chatos demais, sem contar o fedor de álcool. Hoje o local se chama Café Delmas, mais simpático e com uma bela biblioteca. Hemingway falou que lá, hoje, dá até vontade de escrever, mas ainda falta algo, as prostitutas. Velho tarado!

- O Café des Amateurs me ajudou de alguma forma para elementos do meu livro “O Sol também se levanta”. Os personagens, os movimentos, a forma, bom, tudo se resolvia lá. Adorava sentar junto à calçada e observar o velho letreiro do antigo Nègre Joyeux. Bons tempos que não voltam mais, mas ficam para a eternidade. — fala Hemingway.

- Era tão sujo? — pergunto.

- A questão não era a sujeira. As pessoas que realmente deixavam o local triste. Um tango triste, sem muito fundamento, coisas de dias tristes de Paris, daquela Paris pós guerra que ainda chorava seus mortos. — responde Hemingway.

Papa literalmente absorve sua bebida. Chama o garçom e pede algo como a sua “invenção”. O garçom de pronto lhe atende. Em minutos lhe traz um suco de tomate, Hemingway me corrige e diz que não é um simples suco, mas sim o Bloody Mary. Bate no peito e grita que inventou o drink no Harry’s Bar. Ele bebe o drink como se fosse água, parece estar com muita sede. Do nada dispara seu roteiro.

- A Rue Mouffetard completava a cloaca, mas eu gostava de andar por aquela rua, o movimento dos mercados, das bancas de rua, dos comestíveis, além de todos os personagens que produziam aquele lugar. Ali eu conseguia ver uma Paris diferente. Hadley adorava comprar legumes e frutas frescas lá. Tinha uma senhora que me vendia endívias. Mas pouco entendia o que ela falava, parecia ser portuguesa, e ainda tinha um sotaque muito forte, muito puxado, era mais fácil entender um espanhol do que um português. — fala Hemingway.

- E Montparnasse Hemingway? — pergunta Tristan.

- O que que tem? — pergunta Hemingway.

- Não era lá que as coisas aconteciam? — pergunta Tristan enquanto bebe desesperado.

- Era, ou ainda é… vocês do presente que podem me falar. — responde Hemingway.

- O Closerie des Lilas continua fantástico. — comento.

- É verdade. Lá tem o Sam, fantástico garçom. Além do pianista, um franco brasileiro que toca muito bem, parece que seu pai era brasileiro e tocou lá durante muito tempo. — comenta Tristan.

- Aquele restaurante era tudo para mim.

Hemingway, em um surto de saudades, literalmente se emociona ao falar sobre o Closerie des Lilas. No 171 do Boulevard du Montparnasse, todas as paredes carregam histórias que formam efetivamente a literatura universal do século XX. Ao lado do restaurante, no 113 da Rue Notre-Dame-des-Champs, Hemingway vivia com Hadley, mas não suportava o barulho da serra, assim o restaurante se tornou o consolo para suas páginas. Além disso, Hemingway sempre lembra daquela estátua do Marechal Ney, imponente e ao mesmo tempo perdido em Montparnasse. No Closerie, Hemingway escreveu boa parte de “O Sol também se levanta”, além de alguns pileques homéricos com Scott Fitzgerald e John dos Passos. Seu lugar está lá até hoje, demarcado.

- Nossos caminhos se encontravam em Montparnasse. Do Closerie, íamos diretamente para o 159 do Boulevard du Montparnasse, no Nègre de Toulouse, depois nos acabávamos no Le Jockey, no 127 do Boulevard du Montparnasse, lá encontrava Kiki, aquela louca, vontade louca de comer aquela pequena. Ela tinha um rabo de responsabilidade. No Le Jockey só loucuras, muitas bebidas, algumas ideias, muita dança, e depois tudo terminava em alguma trepada. Me acabei algumas vezes lá. Depois, logo depois, íamos para o 103 do Boulevard du Montparnasse, no La Rotonde, lá só tinha uma questão, para ver e ser visto. Mais nada. Em frente, no 99, o Le Sélect. Achava chato, o barman era muito ruim. Os garçons, como Dalí já falou uma vez, todos são péssimos. Mas no 102 as noites eram animadas. Ali vivíamos Paris. O La Coupole acontecia. Eu me lembro, que um dia beijei Kiki do nada lá. Ela ficou nervosa, mas percebi o quanto Ray me odiou depois. Mas nós, de alguma forma, terminávamos no Café du Dôme, no 108. Adorava o Dry Martini de lá. O barman até conseguia algo.

- Algo? — pergunta Tristan enquanto briga com o garçom.

- Kiki exagerava nas doses, independente do produto. — fala Hemingway.

- Entendi! — resmunga Tristan.

- Dali do Dôme partíamos para o Le Dingo no 10 da Rue Delambre. O Dingo me trouxe grandes inspirações para os meus personagens de “O Sol também se levanta”. Foi lá que Scott Fitzgerald me indicou para o seu editor, o grande Max Perkins da Scribner’s. Além disso, o Dingo tinha o melhor barman de Paris, o Jimmy, inclusive escrevi até um prefácio para o seu livro de memórias. Quantas loucuras o Jimmy aguentou. E graças a ele, outro restaurante entrou para as memórias de Montparnasse, o Le Falstaff no 42 da Rue du Montparnasse. Além dos ótimos drinks de Jimmy, lá tinha o melhor bife de Paris, derretia na boca como manteiga. Depois de algumas doses partíamos para o Le Sphinx no 31 do Boulevard Edgar-Quinet, um verdadeiro bordel. As melhores garotas de Paris estavam lá, inclusive algumas doenças. A champagne era de graça, as meninas nem tanto. — fala Hemingway.

- Um puteiro? — pergunta desconfiado Tristan.

- Você precisa beber mais… — retruco Tristan.

- É verdade. — resmunga Hemingway.

Com um ar cansado, Hemingway lembra das putas que pegou no Le Sphinx, uma não saia de sua memória, Georgette, pequena, loira, magra e totalmente pervertida. A verdadeira parisiense que Hemingway tanto sonhou, uma garçonete como o conceito se trata. Ela desapareceu, tanto quanto o próprio bordel. Essa era a Montparnasse de Hemingway, depois o lado direito do rio se tornou um recanto bom para Papa, principalmente no período da Segunda Grande Guerra. Os melhores lugares para Hemingway eram o Café de la Paix no 5 da Place de l’Ópera, o bar Hole in the Wall no 23 do Boulevard des Capucines e o fantástico Harry’s New York Bar no 5 da Rue Daunou. Foi lá que ele inventou o Bloody Mary. Adorava o lugar, tanto que ia constantemente lá, inclusive na sua filial de Veneza, muitos drinks foram degustados lá. Outro lugar marcante para Hemingway era o bar do Ritz Hotel no 38 da Rue Cambon. O Hotel tem uma marca de gratidão para com Hemingway, pois Papa ajudou a libertar o hotel dos nazistas. Ele viveu durante muito tempo no hotel, além de acabar com alguns estoques de bebidas.

- Sempre amei aquele hotel, o bar então! — fala Hemingway.

- Lá perto também tinha o Prunier Restaurant no 9 da Rue Duphot? — pergunto.

- Sim, muito bom. Rascunhei algumas boas páginas lá. O restaurante ficou famoso pelos seus frutos do mar. Adorava comer ostras lá com uma boa garrafa de vinho branco, bem gelada.

- Paris era uma verdadeira festa? — pergunto.

- Sempre foi e sempre será. A mágica de Paris está no fato de como você sente a cidade, como a vive e a degusta. Todos estes lugares que falei, de alguma forma, foram fundamentais para a minha produção literária, assim eu realmente consegui sentir a verdadeira Paris. — fala um Hemingway com profunda saudades.

Naquele instante Hemingway se levantou. Deu um abraço em Tristan, agradeceu os garçons e saiu do restaurante. Na porta, olhou para trás, suspirou profundamente e saiu pela esquerda em rumo à Montparnasse. Tristan começou a chorar e minutos depois se despediu sem falar nada. Terminei meu drink e pensei naquilo tudo, era um momento para aproveitar um pouco mais a minha Paris onde realmente o Sol sempre se levanta.

Mesmo preocupado com a sua morte, ele me lembrou, que ninguém morre se mantermos sua memória viva. E assim ele se foi, para minha eterna lembrança e para toda eternidade de Paris e do mundo, inclusive a minha.

Sorbonne — Paris I, Paris, França — 20/11/2015