O velho espião da Rue L’Odéon — Por Fábio Pereira Ribeiro

Depois do raiar do sol, lá estava ele. Observava os movimentos mais diurnos de uma rua que fez história em Paris. Todos os dias aquele olhar configurava a real atitude de viver. Ele adorava olhar os movimentos dos pedestres que faziam aquela singela rua de Paris acontecer. Cada movimento uma história, cada história uma verdade sobre como a vida realmente é. Do seu balcão, da sala iluminada e aquecida com sua imensa biblioteca, ele extrapolava todos os olhares sobre os movimentos de Paris.

Do número 13 da Rue L’Odéon, Vincent observava os melhores movimentos entre Saint-German des Prés até Luxemburgo. Os vizinhos perguntavam todos os dias quem era Vincent. Aquele senhor, com cabelos bem grisalhos, corpo acanhado, de alguma forma demonstrava que tinha uma grande história. Para muitos ele não era parisiense, tampouco francês. Alguns achavam que ele era judeu de Israel, ou inglês, de Londres. De alguma forma, para todos ele não era de Paris, mas na verdade, ele sempre foi de Paris, de Montmartre. Nasceu nos rincões mais boêmios que a cidade pode oferecer, principalmente de Montmartre. Sua mãe foi dançarina em Pigalle, ele desconfiava de algumas histórias dela, mas preferia esquecer e valorizar o quanto ela o amou e o criou. Fez de tudo para que seu filho fosse para a escola militar. Sustentou tudo o que podia até falecer de tuberculose. Vincent terminou a escola militar, lutou duas guerras, foi para o exterior, matou e tomou tiros, quase morreu, mas sustentou sua vida, como diria, “coisa ruim não morre”, para ele, ele era coisa muito ruim. Viveu durante quarenta e cinco anos sob os auspícios militares. Poucos sabiam sobre sua vida militar. Era um sigiloso por natureza. Alguns o chamavam como o espião da Rue L’Odéon, outros como o veterano secreto, mas com certeza todos o tinham como o misterioso senhor da Rue L’Odéon.

Diariamente ele sai cedo para comprar alguns pães e uma garrafa de vinho tinto. Passa na banca de jornal e apanha o diário, depois para em frente à livraria na própria Rue L’Odéon e observa os mesmos exemplares. O proprietário sempre o convida para entrar, mas ele nunca entra. Rotinas e mais rotinas, mas pela aparência e pela feição, Vincent parece estar bem.

Nas quintas-feiras Vincent gosta de se sentar no Café Le Hibou, sempre em uma mesa na calçada, assim ele consegue ler o seu diário e também observar o movimento dos pedestres e das confluências dos cafés de Saint-German e Odéon, além dos apaixonados por cinema que frequentam o Danton. Toda vez pede uma garrafa média de vinho Cotês du Rhonê e uma porção de mexilhões com batatas fritas, coisa típica de parisiense. Os garçons sempre o cumprimentam, mas ele gosta de ser atendido pela garçonete Amellie. Aquele senhor com idade para ser bisavô de Amellie ainda solta galanteios para ela. E ela não se faz de rogada, retribui no mesmo nível. Vincent fica excitado e se sente o freguês mais privilegiado que o Café Le Hibou tem. Amellie tem uma grande curiosidade para saber a história real de Vincent, ela sabe que ele é militar e que está reserva, além de ter grandes condecorações do Exército Francês e de outros países.

- Senhor Vincent, me desculpa, mas eu posso lhe fazer uma pergunta? — Amellie toda sem jeito faz a pergunta para Vicent.

- Claro minha querida! — responde educadamente Vincent.

- O senhor é militar?

- Sim, servi nossa pátria durante quarenta e cinco anos com bravura e honra. — responde Vincent.

- Que orgulho! — fala Amellie.

- Obrigado minha querida, mas vou lhe contar um segredo.

- Ah é? Qual segredo? — pergunta Amellie.

- Lutei muitas guerras, mas o que mais gostei de fazer no Exército foi servir como espião! — ele fala rindo.

- Mas o senhor pode contar isso? — ela pergunta.

- Na verdade não, mas me cansei de guardar segredos. Vejo que muitos me observam na rua como se eu fosse um espião, que tivesse o maior segredo do mundo, mas na verdade eu tenho histórias que alimentam o meu dia-a-dia, gostaria muito de colocar tudo no papel, mas não tenho mais folego para escrever. Escrevi muitos relatórios de inteligência no passado, mas hoje não tenho mais paciência, mas ainda gosto de sonhar com as aventuras que passei.

- Que aventuras viveu? — ela pergunta impaciente pois o seu chefe a observa.

Naquele instante Vincent percebe que o chefe de Amellie a observa, ele desconversa, ela percebe e volta a atender os clientes. Ele não quer causar estresses para a jovem moça. Ele concentra seus olhares no jornal, bebe do vinho e avisa o garçom que os mexilhões ainda podem esperar.

Amellie tira um pedido em uma mesa ao lado, mas ela até se confunde com o pedido pois fica observando Vincent. Ele percebe, mas mesmo assim não dá muita atenção para ela.

- Eu gostaria de ouvir uma história de espionagem! — fala Amellie enquanto deixa a mesa ao lado onde tirava o pedido. — Só uma por favor!

- Claro, mas acho que seu chefe ficará brabo. — fala Vincent enquanto aponta para o mesmo.

- Que ele vá à merda! Estou de saco cheio dele, ele me maltrata. E cá entre nós, um segredo, a partir de amanhã não trabalharei mais aqui, vou trabalhar no Café Danton. — ela desabafa.

- Ufa! Pensei que não iria te ver mais! — fala Vincent colocando a mão no peito.

- (risos) O senhor é engraçado. Bom, o senhor mudará de café? — ela pergunta.

- É óbvio, eu preciso ver este lindo e meigo rosto para alegrar meus dias, principalmente no frio. — Vincent se mostra o romântico.

Amellie deixa seu bloco de anotações com outro garçom. Joga a bandeja em outra cadeira no salão juntamente com o seu avental, e de forma bem natural ela se senta junto à Vincent. O chefe de Amellie literalmente surta com a cena.

- O que??? O que???? Como? — grita o chefe de Amellie.

Vincent se levanta de forma agressiva.

- O quê o caralho! Se ponha para longe daqui antes que eu arranque sua jugular! — grita o velho militar.

- Desculpe “seu” Vincent, mas ela está abandonando o posto dela. — fala o chefe.

- Eu a convidei, e ela ficará aqui. Eu pago por seu serviço e ponto final! — grita Vincent.

O chefe pouco discutiu, olhou feio para Amellie e se retirou. O pessoal sentado nas mesas ao lado começaram a aplaudir a atitude de Vincent. Um garçom trouxe uma taça de vinho para que Vincent servisse uma copa para Amellie.

Depois daquilo tudo Vincent disparou a contar todas as histórias de espionagem que ele vivenciou. Ele pediu mais uma garrafa de Cotês du Rhonê, só que agora uma grande. Amellie pediu um gin para ela. Literalmente investiram mais de duas horas em boas conversas e histórias. Depois de mais uma garrafa de vinho, mexilhões e mais dois gins, eles partiram, cada um para o seu lado. No dia seguinte Amellie estava trabalhando no Café Danton.

Uma semana inteira Vincent passou a frequentar o Café Danton, e lógico, Amellie sempre o servia, além de ouvir outras boas histórias sobre a espionagem militar da França. Mas um dia o silêncio tomou conta do ambiente. Dois dias se passaram, e Amellie começou a sentir falta do senhor Vincent. Ela tentou saber o que aconteceu, mas nada. Ficou o vazio da nova amizade.

Três semanas depois Amellie recebe a visita de uma senhora no Café Danton.

- Você é Amellie? — pergunta a senhora.

- Sim, sou eu, por quê? — pergunta Amellie.

- Eu sou governanta do Senhor Vincent. — fala a senhora.

- Que bom, e ele? Está bem? Por onde andas? — Amellie pergunta.

- Acredito que estejas bem, ele não estás mais conosco. — fala a senhora com um ar triste.

- Como? — pergunta Amellie.

- Ele morreu! — fala secamente a governanta.

- Como???? O que aconteceu? — pergunta Amellie.

- O tempo chegou para aquele velho e vitorioso soldado. Mas estou aqui para lhe entregar isso. — fala a senhora entregando um diário e um envelope com duas chaves.

- Mas o que é isso? — pergunta surpresa.

- O diário dele com algumas instruções nas últimas páginas, e também, duas chaves, uma do cofre do banco e outra de seu apartamento. Ele deixou um testamento, nos próximos dias um advogado irá lhe procurar e você receberá todas as informações, além de todo patrimônio que o senhor Vincent deixou. — responde a governanta.

A governanta bateu nos ombros de Amellie, a mesma estava paralisada.

Dias depois ninguém mais viu Amellie trabalhando no Café Danton, ou melhor, em nenhum café de Paris. Um mês depois Amellie sentou-se no Le Hibou, pediu um gin, cumprimentou seus amigos, estava ela com um jornal, o diário de Vincent, e pela feição com certeza estava muito bem. Em confidências a um dos garçons, Vincent deixou seu amor por Amellie em um testamento, polpudo, além do apartamento da Rue L’Odéon. O velho espião apresentou seu segredo.

Amado, Salvador, Bahia — 21/09/2015