O dia em que você morreu

Talvez tenha sido o dia que eu mais te odiei. Como você pode fazer isso comigo? De todas as coisas estúpidas que você cometeu, essa com certeza foi a maior de todas. A derradeira e última mancada. Eu te xinguei de todas as coisas que queria ter te xingado, mas sempre engolia.
O dia que você morreu me fez chorar por dias. E em todos os lugares, na frente dos outros. Escondendo a cara. Tentando pensar em qualquer coisa que não fosse o fato de que você estava morto. E que isso era irremediável.
Ainda não caiu a ficha. Às vezes penso que é sou eu, pirando mais uma vez. Fazendo conjecturas e desenhando os piores cenários que geralmente nunca aconteciam. Mas dessa vez aconteceu. Você morreu.
Morreu e deixou um buraco gigantesco que eu não imagina que fosse possível. Morreu sem saber a falta imensa que me faz.
O dia que você morreu, as palavras que uma vez disse ficaram ecoando na minha cabeça.
A minha vida passou depressa demais.
Essas palavras viraram a minha força para viver. O dia que você morreu foi o dia que eu desisti de morrer. Foi o dia que eu desisti de passar minha vida em branco, no piloto automático.
Quando você morreu, você deu pela segunda vez a vida. Você me deu forças pra sair da depressão. Eu não quero passar a vida em branco. Eu não quero acordar um dia com 73 anos e olhar para trás e não ver nada além de rotina.
O dia que você morreu, você encheu meu coração de tristeza. Tristeza genuína e não um tilt fodido no cérebro. Tristeza essa que vem em ondas, nas horas mais absurdas do dia e transborda dos meus olhos em lágrimas.
Sabe, eu quero tatuar teu nome nos meus dedos. Na mão esquerda que é a do coração. Vou fazer isso um dia.
Cara, eu não sei se existe céu, vida após a morte, se a gente não passa de um saco consciente de banha e carne. Mas se existir, e você puder estar lendo isso, obrigado. Eu nunca disse isso em vida, mas obrigado por tudo. E desculpa as minhas mancadas.
Pai, eu te amo.
