Pelo direito de ter um nome e um rosto
O que Chihiro, Advogado do Diabo e Keane podem nos dizer sobre a luta pela própria identidade
Uma das coisas que sempre me impressionou foram os apelidos. E o poder que eles tem sobre nós. Eu sempre que gosto muito de alguém eu ponho um apelido. Pode ser uma leve variação do nome corrente da criatura ou algo totalmente saído do nada.
Por um apelido personalizado em alguém é uma forma não-declarada minha de dizer “eu te amo’”. Ou simplesmente: “a sua existência não me incomoda”. Pai, mãe. irmãos — todos eles têm seus vocativos pessoais. Não, não vou torná-los públicos aqui.
A gente cresce e vai espalhando apelidos. Uma forma de marcar território, de taguear os outros. Um jeito de dizer: “você me pertence, eu tenho direito de te rebatizar”.
Esse é o plot central de Spirited Away — A Viagem de Chihiro, a animação japonesa de 2001 de Hayao Miyazaki. Para que pudesse salvar seus pais que foram transformados em porcos, ela abre mão de seu nome e rebatizada de Sen por Yubaba, uma bruxa. Ela passa a ser escrava dessa bruxa. A liberdade só é reconquistada quando ela consegue se lembrar do verdadeiro nome.
Esse é o lado negro dos apelidos. É um jeito de roubarmos a personalidade alheia e lhe imputarmos a que nos convém. Muitas vezes a gente põe apelidos fofos nos outros buscando a sua docilidade. Ou apelidos engraçados, buscando ridicularizar e diminuir o outro — mesmo de uma forma afetuosa.
Uma mãe põe um apelido de criança num filho e — para ela — esse vai ser seu nome a vida toda. É uma espécie de pacto entre mãe e filho para que esse aos olhos dela nunca cresça. Uma Juju nunca será chamada de Dra. Jurema Gutierrez para sua mãe. Por outro lado para Juju, a mãe nunca será conhecida pelo nome de batismo, vai ser sempre mãe, mama, mainha ou algo mais específico.
Mas essa é uma relação simbiôntica e simétrica.
Tem vezes que a natureza vira predatória. Na escola eu estudei com um guri, cujo nome me falha a memória e isso é sintomático. Mas o apelido eu nunca esqueci: era Sagui. Na minha inocência de criança eu achava o apelido o máximo. Sagui para mim era um bicho bacana e era uma honra ser chamado assim. Eu nem imaginava a tinta grossa de racismo que cobria a história. É, ele era negro. Sim, ele estava sendo chamado de macaco pelos outros. Não, eu não o chamava assim, não tinha intimidade pra isso.
Não só estavam roubando a sua identidade como estavam lhe tirando a humanidade. Um belo dia, ele se cansou disso e quebrou a cara do moleque que insistia em lhe chamar de Sagui. Eu demorei um tempinho para entender porque ele se irritou tanto. Hoje eu o vejo coberto de razão.
Às vezes, não é só o nome que tentamos tirar dos outros. Muitas vezes queremos mudar sua própria aparência.
Nada mais normal do que um adolescente, assim que pode, se tornar dono do próprio nariz, dos próprios cabelos, do próprio jeito de se vestir. Boa parte dos pais não curtem esse tipo de rebeldia, mais ou menos inócua, mas isso faz parte do processo de crescimento e amadurecimento.

A sociedade não costuma ser tão condescendente com esses desvios de conduta — especialmente com adultos. Cabelos compridos, barba grande, tatuagens em lugares incomuns não são vistas com bons olhos. As regras são sempre fluidas e presas ao zeitgeist, mas são sempre regras. Hoje em dia tatuagem pode e até deve. Antes eram escondidas pelas mangas da camisa, hoje descem até os pulsos, mas “só até os pulsos, viu?”. Tatuagens nas mãos, pescoços ou no rosto não, não podem.
Ou dreadlocks ou cabelos coloridos. A gente ri da Coreia do Norte com sua tabelinha de cortes de cabelos permitidos mas ao sairmos nas ruas de São Paulo só vemos cortes de cabelos iguais.
Quando aconselhamos a alguém a mudar o corte de cabelo, fazer a barba, perder peso, largar a academia ou desistir da ideia de um piercing no nariz estamos fazendo a mesma coisa que quando pomos um apelido: tentativa de controle e subjugação.
E isso me lembra um outro filme de 1997: o Advogado do Diabo, com Al Pacino, Keanu Reeves e Charlize Theron. Keanu é um advogado promissor que é levado para Nova Iorque junto com a esposa, interpretada por Charlize. Eles começam a ter uma vida confortável, mas Mary Ann, a esposa, sofre um colapso nervoso. Tudo começa com as esposas demoníacas dos outros advogados aconselhando-a assumir um novo visual e termina com ela se suicidando na frente do marido. A arma do crime é justamente um pedaço de espelho quebrado. Os demônios haviam roubado sua própria aparência.

É uma luta quase épica hoje em dia para continuarmos sendo quem somos nós, com os cabelos mal-cortados, os dentes não branqueados, as roupas erradas.
É uma luta diária contra gente que quer nos moldar, modular, moderar. Gente que disfarça com maternalidade um desejo gigantesco de nos comandar. Enfrentar essa gente sempre é doloroso e árduo porque elas vêm disfarçadas nas formas de colegas, interesses românticos, parentes, amigos.
Muitas vezes, sem você perceber, eles começam a expressar o desejo que você se torne outra coisa. A mensagem é clara e é um clichê: “eu te amo, quero que você mude”. Acham que isso vale como incentivo. Mas o efeito é sempre o contrário. Você passa a duvidar de si mesmo, passa a se ver como uma peça disfuncional da sociedade.
Só que a sociedade não é uma máquina que precisa de peças bem azeitadas. É mais um ecossistema que precisa evoluir para atender e abrigar necessidades individuais.
Eu acredito que essa angústia seja o que o Keane queira dizer com:
So little time, try to understand that I’m
Trying to make a move just to stay in the game
I try to stay awake and remember my name
But everybody’s changing and I don’t feel the same
Era isso. Boa segunda-feira e stay true!