Solidão de espera

Fiz como faço todos os dias: saí pela cidade para encontrar novos rostos, descobrir novos caminhos, novos cantos. Porque não há nada melhor na vida do que descobrir coisas novas o tempo todo. A vida é feita de descobertas. Seja em nós mesmos, nos outros, nas coisas. Quem não se descobre regularmente, se perde no vazio de ser o que não é. Assim como a evolução, desvendar o obscuro é o que nos faz crescer.

E naquele dia me empenhei em descobrir a solidão presente no outro. Foi estranho. Pensei em observar quem estava sozinho, mas um casal me chamou mais atenção. Não eram jovens. Não sorriam. Tampouco conversavam. Apenas estavam.

Estavam um para o outro. Um ao lado do outro, sem esboçar qualquer reação que não fosse a espera. Talvez esperassem o ônibus que chegaria ao ponto de ônibus, ao lado da praça. Talvez esperassem companhia, uma carona. Talvez esperassem chover, mas o céu estava tão aberto que se escancarava. Talvez esperassem o tempo passar, como se já não tivesse passado tanto tempo assim. Esperariam, talvez, mais tempo do que todo o tempo que já esperaram.

Nenhuma palavra. Olhavam ao redor como quem olha o mar. Será que enxergavam todas aquelas casas, aqueles carros e as pessoas que passavam na rua? Será que enxergavam uma rua? Era essa a forma de eles enxergarem o tempo que passava: apenas observar.

10h20. Finalmente, o casal age. Ele me enxerga, chega mais perto e pergunta o horário. Sim, era a hora que eles esperavam para compensar a solidão. De uma sacola plástica, a mulher retira uma garrafa. A cada gota da cachaça, a solidão dos dois muda. E, como desativando a tecla MUTE no controle remoto, soltam verbos em alto e bom tom.

Aí percebi que todo o tempo de espera e o silêncio não tinham motivos. Em momento algum entendi a solidão deles. E realmente acho que ali não havia uma. Mas descobri a solidão presente em mim. E não era ruim. Não naquele momento, em que buscava neles as minhas respostas.

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