Aceitar as perdas, superar e seguir

Quando entrei para a casa dos 30 anos, comecei a conviver de forma mais intensa com alguns fantasmas do meu passado. Aos 20, eu não pensava nas perdas, nos afastamentos, na morte. De repente, me vi mergulhado em lembranças dolorosas e é como se essas lembranças me cobrassem pelas perdas. Passei a pensar nos rompimentos que foram ocorrendo sem que eu me desse conta e o que não incomodava passou a ter um peso enorme sobre meu presente e meu futuro. O Nordeste da infância pobre, de onde migrei no início da adolescência, em 1997, com destino a São Paulo, em busca da sobrevivência, deixando para trás meus avós, meus tios, primos, e 14 anos da minha vida. Aqui tive que aprender a conviver com uma nova realidade. A periferia, o bairro da Brasilândia, Zona Norte, os barulhos de tiros na madrugada, as casinhas minúsculas amontoadas, os becos e vielas, os diferentes sotaques, a péssima qualidade da educação pública, o bulying dos que me chamavam de baiano, quando na verdade eu vinha da Paraíba. Mas fiz também amigos que me acolhiam. Bons amigos, que me faziam sentir cólicas de tando rir. Aos 20, fiz outras amizades daquelas que me marcariam para sempre, gente que me fez ver que eu era apenas diferente da maioria, mas que outros tantos existiam e compartilhavam comigo das mesmas dúvidas, das mesmas dores e das mesmas alegrias. Eram amigos-irmãos, daqueles de dormir na casa, dividir um lado da cama, compartilhar o computador, confessar segredos e cair na boêmia. Até os 22 anos fui boêmio e a noite me parecia o ápice da vitalidade. Mas a vida andou. Namorados, casamentos, faculdades. Cada uma dessas pessoas construiu um caminho diferente, alguns já não me procuram, outros não se procuram entre eles. E aos 30, bateu a sensação angustiante da perda e isso doeu. A terra natal, os amigos, as noites boêmias, as muitas risadas, o amor dos amigos que parecia ser para sempre, o esquecimento. Tive que aprender a lidar com isso. Por algum tempo procurei culpados e o mais fácil parecia ser me culpar. Será que eu era o culpado? Será que fui eu que abri mão dos meus amigos aos poucos sem perceber? Ou será que eu é que sempre estive aqui de braços e portas abertas, mas esses amigos deixaram de vir ao meu encontro e simplesmente preferiram esquecer o meu endereço? Deixei de ser importante para eles quando, na verdade, nunca deixei de amá-los? E o efeito retrógrado da migração, da perda dos vínculos geográficos, familiares e culturais com minha terra natal como poderia ser recuperado? Por algum tempo tinha lembranças muito tristes dessa partida e não era capaz de aceitar que minha infância na terra onde nasci tivesse sido roubada de mim. Aos 14 anos cai numa Metrópole ensandecida, como uma semente que cai de uma árvore em um solo seco e não sabe como será dali para a frente. Como renascer, como criar raízes, superar o estado anterior e construir uma nova identidade social e espacial?

Era preciso me redescobrir aos 30, superar a migração, superar os 20 anos, superar os amigos que se foram, superar a melancolia. Esse é um trabalho extremamente difícil, pois o passado faz parte do nosso presente e pode influenciar negativamente ou positivamente nosso futuro. Vale a pena prender-se às lembranças mesmo que essas lembranças sejam boas? Vale a pena tentar reconstruir o que o tempo apagou? A intimidade que já não existe mais, os abraços que se perderam no tempo, a terra natal que mais se parece um velho cartão postal. É possível tratar laços com o passado? Talvez não!

Resolvi não mais sofrer por todos esses sentimentos e lembranças, e olhar para o hoje e o amanhã, fechando definitivamente o baú das lembranças boas e doloridas. Resolvi não sentir raiva daqueles que esqueceram o caminho da minha casa, daqueles que já não respondem às minhas mensagens, daqueles que preferiram tocar suas vidas sem que eu faça parte delas. Aos 30 anos foi preciso perdoar. Sim…perdoar! O passado pobre, a saída da minha terra, a chegada à periferia, os amigos que se foram. E também me perdoar, mesmo sem saber se tenho algum culpa.

Foi preciso me libertar para poder caminhar e deixar que a vida e as pessoas tão importantes do meu passado também sigam seus caminhos sem mim. Hoje, acredito que cada uma dessas pessoas teve um papel importante, que cada rompimento também me trouxe a possibilidade de seguir por um novo caminho. Passei a acreditar que o tempo não volta, que os anos não podem ser recuperados e que as pessoas e os espaços nunca serão os mesmos de 10 anos atrás. Sem choro, sem mágoas, sem dores é preciso partir de dentro de você mesmo e deixar o passado para trás com aquele sorriso pequeno de satisfação no rosto, e na cabeça um pensamento:

Puxa!

Bons tempos!

Mas é tudo passado!

Bola pra frente…

vamos viver!