Recrutadores transformaram propostas de emprego em show de horrores

Para algumas empresas, o “funcionário do mês” moderno deve saber fazer um pouco de cada coisa e não precisa ser excelente em nenhuma dela

Fazia exatamente meia década que eu não buscava os centros de recrutamento, até que redação na qual eu trabalhava decidiu que não precisava mais de jornalistas e iria continuar a publicar conteúdos, vejam só, por outros meios. Desde esse dia, o fatídico 6 de agosto de 2015, voltei meus olhos para os mais variados bancos de empregos e o que tenho encontrado são anúncios assustadores.

A ampla maioria procura pessoas apaixonadas (S2) pelo que faz e oferece uma esmola como recompensa, deixando claro que não existe registro profissional, pagamento de hora extra ou qualquer tipo de benefício. Afinal, ao que parece, nós comunicadores vivemos de reconhecimento e tapinhas nas costas.

Tem recrutador que procura um jornalista bonito (sério, rola isso), outro que quer um faz-tudo, de editor de texto até programador web, passando por fotógrafo, editor de vídeo, arte-finalista e analista de mídias sociais. Tudo isso por um salário lindo e maravilhoso de R$ 1,8 mil reais.

Uma das vagas oferecidas em uma das comunidades do Facebook procurava profissionais “legais e descolados”. Segundo a descrição da empresa, eles faziam um “trabalho bem legal”. Outra vaga procurava uma pessoa “good vibes” para um salário de R$ 1 mil.

Quem é do meio tem a nítida impressão de que as vagas de analistas foram substituídas por vagas de estagiários que, muitas vezes, precisam fazer o trabalho home office, sem qualquer tipo de acompanhamento ou orientação.

Pode me chamar de conservador (eca!), mas ainda prefiro vagas que oferecem o piso e pagam corretamente às que oferecem conta no Spotify para você permanecer mais tempo em frente ao computador, trabalhando incansavelmente e ouvido os Beatles (só mais três horinhas, let it be).

Sou apaixonado pela minha profissão e já me sacrifiquei muito em nome deste amor quando era um jovem repórter, mas — com mais de uma década vivendo do jornalismo — percebi que o mercado de comunicação está prometendo muito e cumprindo pouquíssimo.

Ao conversar com colegas redatores, repórteres, publicitários ou designers, percebo que a sensação é a mesma em quase todos os lugares: cargas horárias exaustivas e, apesar de todos reclamarem externamente, ainda “pega mal” falar que se trabalha demais pelo pouco que se ganha.

Empresas estão aproveitando a crise financeira e os recorrentes passaralhos para amedrontar seus funcionários. Nos últimos anos, fomos acumulando funções e mais funções e a impressão é de que, infelizmente, não conseguimos fazer nenhuma delas com excelência. E aquela valorização prometida, aquela promoção? A gente vê depois da crise.

Funcionários infelizes trabalham com sorriso no rosto, pois a empresa o contratou por ser “descolado”

Vivemos em uma era na qual os erros são cada vez mais comuns, seja na capa da revista Veja ou no conteúdo enviado para o cliente. Tudo isso é resultado dessa nossa urgência em consumir tudo o que aparece em nossa timeline, porém, acabamos lendo apenas o título.

Lamentavelmente, a geração que possui o maior acervo de informação de todos os tempos está se tornando a mais ignorante da história.

- Uma pausa para agradecer você que chegou até aqui, o 10º parágrafo deste texto -

Eu — jornalista, repórter e editor — continuo desempregado e sobrevivendo de freelas, utilizando meu tempo livre para ler muito e tentar entender o que está acontecendo com o mercado editorial. O jornalismo pasteurizado é realidade, mas boas iniciativas estão chegando e trazendo de volta a boa e velha reportagem.

Sim, sou multitasking, mas somente porque passei por várias áreas da comunicação ao longo dos anos. Minha função é de editor, mas para chegar até lá fui repórter de texto, vídeo, rádio e redator. Durante algum tempo fui assessor de imprensa e redator publicitário. Ah, também sou blogueiro e coordeno todas as redes sociais do meu blog.

Mas para o recrutador que quiser me contratar, tenho um segredo: me contrate como jornalista (editor, repórter ou redator) … para o resto, existem pessoas mais capacitadas e também desempregadas. Ofereço minhas good vibes, mas não em troca de fones para ouvir Beatles, e sim em troca de respeito.

Fábio Santos trabalhou no Portal Terra entre 2010 e 2015 nas editorias de Notícias, Economia, Educação, Tecnologia, Saúde, Esporte e Cidades. É responsável pelo blog Viver SP, que fala exclusivamente sobre a cidade de São Paulo e seu e-mail é: fabiohsantos@gmail.com.