Economia Criativa: um conceito líquido

Tentar compreender a Economia Criativa nos tempos atuais é como cair em um buraco de árvore junto da Alice. Quanto mais se mergulha, mais um mundo fantástico se apresenta diante dos olhos. Portanto, se você veio aqui neste texto procurando uma resposta, me desculpe mas eu venho com mais perguntas.

De onde surgiu esse setor econômico? Aliás, podemos considerá-lo um setor da economia? Quando nasceu a sua primeira definição? Como ele se comporta na realidade econômica atual? Como é a Economia Criativa em Belo Horizonte? Bom, vamos começar lá em 2001 quando o termo foi definido pela primeira vez.

John Howkins lançou em 2001 o livro “The Creative Economy”, a primeira publicação que finalmente estudou como a criatividade e a inovação interferiam na economia. Segundo o autor, a Economia Criativa era dividida em 13 áreas: arquitetura, publicidade, design, artes e antiguidades, artesanato, moda, cinema e vídeo, televisão, editoração e publicações, artes cênicas, rádio, softwares de lazer e música. São todas áreas já existentes da economia que usavam ativos intangíveis, no caso a criatividade, para gerar um fluxo de bens.

A definição de Howkins é bem razoável, mas foi pensada para um mundo muito diferente do atual. Em 2001, o Facebook ainda nem pensava em existir, só em 2003 nasceria um protótipo da plataforma. A internet no mundo era muito jovem e no Brasil ela ainda lutava por uma melhor infraestrutura para alcançar uma grande parte da população. Na economia, estávamos ainda aliviados com o mito do bug do milênio e sequer imaginaríamos que nos próximos dez anos modelos de negócio como Airbnb existiriam.

Hoje a Economia Criativa é um conceito mais fluído e que não necessariamente está contido em um setor ou área econômica. No exemplo do Airbnb, a tal da economia criativa invadiu o setor de hotelaria e turismo por meio de um novo modelo de negócio. A moda imprime ao setor têxtil ainda mais valor. O design ultrapassou o limite do estético e hoje caminha por várias áreas pelo design thinking, capaz de criar soluções com uma metodologia centrada no usuário, que vão da concepção de negócios até a criação de uma cultura de inovação empresarial.

É justamente por ser tão fluido que se torna cada vez mais difícil definir a Economia Criativa. E viver em uma fase de transição, onde a falência de vários sistemas é notável, torna ainda mais complicado conseguir enxergar um futuro claro e nítido da área. Mas mesmo em meio a uma visão meio embaralhada de novos caminhos, é possível imaginar um cenário bastante positivo.

A Economia Criativa vai salvar o mundo

Vai mesmo e essa afirmação vai além da minha opinião pessoal. Segundo a Federação das Indústrias do Estado do Rio de Janeiro (FIRJAN), as empresas brasileiras da Economia Criativa já movimentam R$ 381 milhões e representam 2,6% do PIB brasileiro. Um número capaz de ser ampliado se levarmos em consideração um conceito mais amplo do que é a Economia Criativa.

Já na Alemanha, a Economia Criativa gera mais receita que a indústria farmacêutica, e em cenários de crise o setor se mostra extremamente resiliente. Em 2008, após a crise dos Estados Unidos, o comércio global sofreu uma retração de 12% enquanto as exportações mundiais de produtos e serviços criativos mantiveram a taxa de crescimento de 14% ao ano. Um exemplo real disso foi, mais uma vez, o Airbnb. Criado em 2008 nos Estados Unidos no auge da crise em Wall Street.

Mas o potencial da Economia Criativa vai além do econômico. Em tempos de falência de modelos políticos, sociais e principalmente de consumo, ela vem apresentando soluções inteligentes e sustentáveis que economizam recursos, sejam eles ambientais ou estruturais, além de apresentar novos modelos de gestão mais colaborativos do que horizontais. É, sem sombra de dúvidas, um verdadeiro berço de inovação. A Economia Criativa é capaz de transformar a mentalidade da escassez, tão ligada aos bens tangíveis, para a da abundância, ligada ao intangível que pode ser escalável e sustentável.

Pense bem: o maior hotel do mundo não tem nenhum imóvel (AirbnB), o maior canal de comunicação do mundo não produz nenhum conteúdo (Facebook) e o maior serviço de transporte privado não é dono de nenhum automóvel (Uber).

Esse cenário positivo não para por aí. A Economia Criativa faz parte de algo maior — a nova economia — que também engloba a Economia Colaborativa, Compartilhada e Multimoedas. São novas formas de fluxo de bens e insumos — que não necessariamente é o dinheiro — que usam ativos intangíveis como os sociais e culturais para movimentar de forma mais sustentável uma rede inteira de pessoas. Isso tudo faz parte da Fluxonomia 4D, metodologia desenvolvida por Lala Dezeinzellin pioneira na área da Economia Criativa no Brasil. Mas tudo isso fica pra uma outra conversa.

Belo Horizonte é uma cidade criativa?

É inegável que Belo Horizonte tem vivido um momento extremamente enriquecedor dos setores criativos, mesmo que com algumas dificuldades. O próprio renascimento do carnaval e as novas formas de ocupação do espaço público são ótimos exemplos de expansão criativa dos belo-horizontinos.

No entanto, quando colocamos Beagá sobre a ótica da Economia Criativa — onde a criatividade é responsável por um fluxo de insumos, por um movimento econômico de fato — ainda há muito a caminhar. Afinal, vivemos em um estado onde o grande aporte financeiro está com a exportação de minério, representando 42%, e de café, 14%. Além disso, falta em Beagá mais incentivos para a cultura, inovação e conexão.

Ana Carla Fonseca Reis, especialista em Economia Criativa e escritora do livro “Cidades Criativas”, identificou estes três pontos como características comuns de grandes cidades criativas ao redor do mundo. Vamos entender melhor cada um deles:

Inovação — é a criatividade aplicada à solução de problemas ou à antecipação de oportunidades. Hoje está muito relacionada ao movimento tecnológico mas vai muito além disso, também é presente em setores culturais, de novos negócios e na área social.

Conexão — viver em rede não necessariamente significa se conectar. Hoje somos interconectados de uma maneira extremamente complexa, mas é preciso uma conexão de fato em que setores e indivíduos da cidade dialoguem e realizem juntos.

Cultura — a cultura aqui pode ser entendida de diversas maneiras: como conteúdo por si só, como identidade única da cidade, como patrimônios (materiais e imateriais) ou como forma de agregar valor a setores tradicionais.

E então? O quanto Belo Horizonte carrega em si cada uma dessas características? Sabemos que algo de criativo está no ar. Há um sentimento pairando por aí de que coisas estão acontecendo e há mais por vir. Precisamos portanto incentivar ainda mais as conexões, a cultura e as inovações, mas para isso é preciso levar a Economia Criativa para além de um grupo fechado de pessoas. Hoje eu sinto que é um conceito para poucos, mas já existem iniciativas para mudar isso.

A CoolHow está desenhando junto do Sebrae um workshop de Economia Criativa para iniciar essa conversa. Logo depois um grupo de estudos permanente, realizado em parceria pelo CoolHow e a pela Mooca com apoio do Sebrae, vai acontecer para contextualizar a Economia Criativa em Belo Horizonte e potencializá-la.

E a conclusão?

Me desculpa, mas este é um texto sem final, assim como essa conversa. Falar sobre Economia Criativa abre mais portas do que apresenta caminhos. E seria muito audacioso da minha parte falar sobre pra onde tudo isso vai em um mundo em que é cada vez mais difícil prever o que acontecerá daqui um ano.

A conclusão que consigo deixar é essa: junte-se à conversa. Pesquise, pare pra pensar, envie um e-mail com insights pra oi@mooca.co. Vamos nos conectar e pensar futuros possíveis da Economia Criativa juntos. Afinal, nada nessa nova economia é capaz de acontecer com um indivíduo sozinho.

(*) Fabi Soares é empreendedora com formação em Comunicação Social — Publicidade e Propaganda e curiosa ávida do processo criativo. É idealizadora da Mooca, iniciativa local que empodera pequenos produtores locais com o propósito de movimentar a Economia Criativa local.


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